Capítulo 3 – A pulseira
Margarida passou a manhã inteira a tentar convencer-se de que Tomás Duarte não lhe ocupava os pensamentos.
Sem sucesso.
Enquanto os homens descarregavam sacos de cimento e tábuas de madeira para o interior da casa, ela percorreu cada divisão com um bloco de notas na mão. A ideia era simples: decidir o que ficava, o que seria vendido e o que merecia ser guardado.
O sótão foi o último.
Empurrou a pequena porta de madeira e uma nuvem de pó fez-lhe fechar os olhos.
— Isto precisa mais de coragem do que de limpeza...
Acendeu a lanterna do telemóvel.
Caixas antigas.
Brinquedos.
Livros.
Uma máquina de costura.
E dezenas de fotografias espalhadas sobre um baú.
Sentou-se no chão.
A primeira fotografia mostrava a avó Amélia ainda jovem, de vestido florido, junto ao mercado de peixe.
Na segunda aparecia uma Margarida de oito anos, desdentada, com um gelado maior do que a cara.
Sorriu.
— Que vergonha...
Continuou a folhear.
Até que encontrou uma fotografia onde o coração pareceu falhar um compasso.
Ela.
E Tomás.
Tinham pouco mais de vinte anos.
Estavam sentados na areia, já depois do pôr do sol. Ela ria de cabeça inclinada para trás enquanto ele olhava para ela... não para a câmara.
Nunca reparara nesse detalhe.
Ele estava a olhar para ela.
Como se mais ninguém existisse.
— Margarida?
A voz surgiu atrás dela.
Assustou-se tanto que a fotografia lhe caiu das mãos.
Tomás estava encostado ao batente da porta.
— Costumas entrar na casa das pessoas sem bater?
— Costumo bater.
Sorriu.
— Tu é que não ouviste.
Ela apanhou rapidamente a fotografia e colocou-a virada para baixo.
Tarde demais.
Ele já a tinha reconhecido.
— Ainda te lembras desse dia?
— Não.
Mentiu.
Tomás entrou no sótão sem pedir licença.
O espaço era pequeno.
De repente, parecia ainda mais pequeno.
— Foi a última noite antes de ires para Lisboa.
Ela respirou fundo.
— Não vale a pena falar disso.
— Porque não?
— Porque passaram dez anos.
Ele manteve-se em silêncio durante alguns segundos.
Depois baixou-se e abriu o velho baú.
— Posso?
Ela encolheu os ombros.
Tomás começou a remexer nos objetos com uma facilidade estranha.
Como se conhecesse aquele sótão.
Como se já lá tivesse estado muitas vezes.
Encontrou uma caixa metálica.
Sorriu.
— Sabia.
— Sabias o quê?
Abriu a tampa.
Lá dentro havia conchas, bilhetes antigos da feira de verão, postais e uma pequena pulseira de fio azul, com um búzio branco preso ao centro.
Margarida ficou sem palavras.
— Pensei que a tinhas perdido...
Tomás pegou nela com cuidado.
— Nunca a perdeste.
Os olhos dela encontraram os dele.
— Foste tu?
Ele não respondeu de imediato.
Passou o polegar sobre o pequeno búzio.
— No dia em que foste embora, disseste que não querias levar nada que te fizesse olhar para trás.
Margarida lembrava-se.
Lembrava-se demasiado bem.
Da discussão.
Das lágrimas.
Da estação.
Do comboio.
Lembrava-se de tudo... menos da pulseira.
— Guardei-a porque achei que um dia ias voltar.
Ela soltou uma pequena gargalhada, mais nervosa do que divertida.
— És mesmo convencido.
— Não.
Os olhos dele perderam o sorriso.
— Só tinha esperança.
O silêncio caiu entre os dois.
Lá fora ouviam-se martelos e vozes.
Ali dentro parecia que o tempo tinha parado.
Tomás aproximou-se.
Estendeu-lhe a pulseira.
Quando Margarida tentou pegá-la, os dedos tocaram-se.
Um contacto breve.
Quase insignificante.
Mas suficiente para que ambos ficassem imóveis durante um instante.
Ela retirou a mão primeiro.
— Obrigada.
A voz saiu mais baixa do que pretendia.
Tomás respirou fundo, como se fosse dizer alguma coisa.
Nesse instante ouviu-se um grito vindo do rés-do-chão.
— Tomás!
Era um dos trabalhadores.
— Precisamos de ti cá em baixo!
Ele desviou o olhar, voltou a colocar o sorriso descontraído que parecia usar como armadura e encaminhou-se para a porta.
Antes de sair, virou-se.
— Hoje há arraial na praia.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E?
— Toda a gente vai.
— Não gosto de multidões.
— Não te convidei.
Sorriu.
— Só te avisei.
Desapareceu escadas abaixo.
Margarida ficou sozinha.
Olhou novamente para a pulseira.
O fio azul estava gasto pelo tempo.
Mas o pequeno búzio continuava intacto.
Tal como aquela memória que ela tinha passado dez anos a tentar esquecer.
Sem pensar, colocou a pulseira no pulso.
Assentava na perfeição.
Como se tivesse estado à espera dela durante todo aquele tempo.
Lá em baixo ouviu o motor de uma mota parar em frente à casa.
Segundos depois, uma voz feminina ecoou pelo quintal.
— Tomás! Finalmente encontrei-te!
Margarida aproximou-se da janela.
Uma mulher alta, morena e incrivelmente elegante acabava de lhe dar um beijo na face... demasiado perto da boca para parecer apenas um cumprimento.
E Tomás...
...não se afastou.