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1431 Palavras
Lorena narrando. Chego à empresa já sorrindo, cumprimentando meus colegas e desejando um bom dia a todos. Mais um dia de trabalho — e eu sou muito grata por isso. Tenho tantas contas a pagar que reclamar seria até um luxo, e depois de me permitir tanto eu não posso mais luxar em nenhum sentido, forma ou prática, não tenho dinheiro ou limite de cartão para tal mimo. Trabalho aqui há dois anos, e é o melhor emprego que já tive. Antes, trabalhei em uma loja de tintas, depois em uma de ferramentas, e, quando era adolescente, cuidava de crianças como babá. Mas, de certa forma, acho que realizei um sonho. Bom, ao menos o de infância. Sonhava em trabalhar em um lugar grande, bonito, com elevador, onde eu pudesse usar salto, digitar em um computador e atender telefonemas. Eu brincava muito disso quando era pequena — e agora sou paga para fazer exatamente o que imaginava. Deixo minhas coisas na mesa e sigo direto para a sala do meu chefe. Dou três batidinhas na porta, como sempre. Assim que ele autoriza, entro. Antes mesmo de levantar o olhar, ele já estende a mão, pedindo os arquivos. — Obrigado, Lorena. Pode preparar os slides para a minha reunião? Te enviei todo o conteúdo, com gráficos e tudo, mas preciso que você monte e deixe elegante. É para o CEO ver. — Certo. Essa reunião será à uma da tarde. Recebi um e-mail de madrugada adiantando o horário. — No horário do almoço? Será que vai ter comida? — ele pergunta, e eu quase rio. O senhor Joaquim é um chefe tão querido, tão tranquilo, que às vezes esqueço que é ele quem deveria saber essas respostas. — Pelo que sei, o CEO odeia que comam perto dele. Lembra que, nas festas da empresa, servem apenas bebidas quando ele chega? É por isso que ele aparece só no final, depois do jantar. — Digo, e ele me lança um olhar divertido, implicando com algo. — Como a senhorita sabe disso, se essas festas são só para os chefes de departamento e eu nunca te contei? — fico vermelha, pega no flagra da fofoca. Ele ri baixo, satisfeito. — Talvez eu tenha escutado no banheiro feminino... — murmuro, constrangida. — Mas voltando ao assunto, vou fazer os slides e organizar a sala para o senhor. Tudo bem se eu deixar os outros resumos e e-mails para depois do almoço? — Faça como achar melhor, Lorena. — Certo. Obrigada, senhor. — Ele apenas assente, como faz todos os dias, e eu saio de sua sala. Pego minha lancheira com as comidas do dia e a coloco na geladeira, bem escondida atrás de uma marmita grande e chamativa — assim, corro menos risco de alguém roubar a minha. Isso já aconteceu. Mais de uma vez, aliás. Enfim, posso me sentar, ligar o computador e começar o trabalho com toda a atenção do mundo. [...] Finalizo os slides e sorrio, orgulhosa. Se fosse por mim, eu colocaria um toque de rosa, flores, alguns detalhes delicados… mas aprendi a lição. Da última vez que fiz isso, o senhor Joaquim ficou bravo — o mais perto que ele já chegou de gritar comigo. Desde então, aprendi: nada de flores, e jamais esquecer o café dele. Levanto-me e sigo até a copa para preparar a sala de reuniões. Garrafas de água, copos limpos, a mesa organizada. Tudo impecável. Quando termino, pego o celular e vejo uma mensagem da minha melhor amiga, me chamando para sair. Sorrio e aceito o convite. Ela já conhece minha rotina, minhas manias e os meus “não posso agora”. Moramos juntas por um tempo, e ela me ajudou na pior fase da minha vida. Ela merece cada minuto da minha atenção como forma de gratidão. — Lorena? — pulo de susto, virando-me para ver o senhor Joaquim atrás de mim. — Está tudo pronto? Eles chegam em uma hora. Vou almoçar antes. — O tempo vai dar, senhor? — pergunto, preocupada. Ele sorri de leve. — Vai sim, ainda mais porque minha namorada está livre agora e vai almoçar comigo. Tudo certo? Me envie os slides por mensagem, quero revisar antes. — Certo. Está tudo pronto. — Fique em sua mesa, caso cheguem antes. Estarei no restaurante da frente. Se ele aparecer antes, em cinco minutos estarei de volta. E, Lorena... — Sim, chefe? — Não coma na frente dele. Você vive cheia de snacks, frutas, chicletes... Está sempre mastigando. Se o que você ouviu for verdade, evite. — Claro, pode deixar! Vou almoçar agora, assim não corro riscos de fazer besteira. — digo, rindo. Não entendo muito bem a preocupação repentina, mas apenas concordo. Saímos quase juntos. Ele segue para o elevador, e eu, feliz da vida, vou pegar minha marmitinha. Hoje é cardápio premium: carne com molho. Esquento tudo e, enquanto o aroma toma conta do ambiente, vejo o pessoal chegando para o almoço coletivo. A copa vira um caos: filas no micro-ondas, barulho, risadas, cheiro de comida por todos os lados. Com minha bolsinha nas mãos, sigo de volta à mesa, feliz por escapar daquele tumulto. São os pequenos prazeres que a gente aprende a valorizar. Estendo minha toalhinha, coloco a marmita quentinha, desembrulho os talheres, abro o refrigerante gelado e respiro aliviada. Finalmente, paz. O elevador apita. Dou a primeira garfada, saboreando a carne macia com molho, e o sabor parece ainda melhor do que o esperado. — Tenho uma reunião com o senhor Joaquim. — escuto uma voz grave, firme e autoritária. Arregalo os olhos. p**a merda. Levanto a cabeça devagar — e é impossível. Ele está ali. O CEO. Alto, imponente, o terno cinza parece ter sido feito sob medida para o corpo forte. A pele clara contrasta com o cabelo castanho escuro, e os olhos... ah, os olhos. São absurdamente verdes, intensos, quase intimidantes. E o maxilar marcado pela tensão denuncia: ele está irritado. Engulo o que estava mastigando, mesmo sem terminar, e sinto a garganta arder. — Senhor... — tento ajeitar a postura, limpando discretamente a boca. — Senhor Torres, que prazer recebê-lo. Ele me olha — ou melhor, me atravessa com o olhar. — Onde está o Joaquim? — Ele saiu para o almoço, senhor. Não fomos informados sobre o adiantamento da reunião, mas posso chamá-lo agora. Deseja aguardar na sala de reuniões? — Não. Vou esperar na sala dele. Assim saberei quando ele chegar. — responde seco. Assinto, mantendo um sorriso profissional, mesmo com o coração disparado. Quando ele vira de costas, solto o ar — nem tinha percebido que o prendia. Vejo os dois seguranças dele me observando por um breve instante antes de o seguirem. Assim que fico sozinha, pego o celular e mando uma mensagem de puro desespero para o senhor Joaquim. Tento ligar. Nada. Enquanto isso, continuo comendo — agora quase sem sentir o gosto. O nervosismo é tanto que só percebo que já terminei quando olho o prato vazio. Se Joaquim for demitido, eu vou junto. Todo mundo sabe: ninguém mantém a secretária do chefe anterior. A adaptação quase nunca acontece. Guardo tudo às pressas e, sem tempo para o banheiro, apenas pego um chiclete de hortelã. Tento disfarçar o nervosismo, mas meu coração insiste em bater mais forte. Bato na porta três vezes, como de costume. Nenhuma resposta. Um dos seguranças abre e faço um aceno educado. — O senhor gostaria de uma água? Um café? — Eu gostaria da reunião, senhorita... — ele começa, tentando lembrar meu nome. — Sentimos muito pelo ocorrido, senhor. Houve uma falha de comunicação. Sua secretária não avisou o adiantamento. Teríamos preparado tudo com o maior cuidado se soubéssemos. — Eu não tenho secretária. Não preciso de uma. Fico por um segundo sem expressão — e tento disfarçar o espanto. Como assim um homem importante desses não tem alguém para organizar sua rotina? Quantas reuniões, eventos e decisões devem ter sido perdidos por falta disso? — Entendo. Peço desculpas novamente. Gostaria de algo para tornar sua espera mais confortável? — Não. Qual é o seu nome? — Lorena. Os senhores desejam algo? — pergunto também aos seguranças, que parecem surpresos com minha atenção, mas negam com a cabeça. — Então vou aguardar na minha mesa o retorno do meu chefe e tentar outras formas de contato. Peço licença. — Lorena. — ele diz, firme. Paro, esperando algo mais — uma crítica, um elogio, qualquer coisa. Mas o silêncio permanece. Apenas assinto e saio, com o coração acelerado, sentindo o peso do olhar dele me acompanhando até eu fechar a porta.
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