O peso do trono
Gregório Schneider
Estava atolado de trabalho. A máfia não dava trégua, e havia muitos contratos para resolver. Dinheiro para lavar, e as demandas só aumentavam, já que, agora, os dias na Itália estavam dando frutos. Só de estar no seio de uma das famílias mais poderosas do submundo, eu já enxergava novos horizontes.
Agora, tudo estava começando a fazer sentido. Toda a mudança, a infraestrutura e os ajustes que fiz ao longo desses anos; todo o esforço estava começando a dar frutos. Eu tinha apenas três dias para colocar a minha máfia em ordem novamente, pois precisava viajar para buscar Lívia. O tempo estava acabando, e ela tinha que decidir.
Era pouco tempo para a quantidade de trabalho, mas eu não ficaria muito tempo longe da minha futura esposa. Não podia deixar Lívia ter tempo para se livrar de mim. Não podia dar essa brecha.
Sei que é inevitável, mas a minha mente não consegue espantar as lembranças e o medo de voltar para a Itália e receber um "não" para o pedido de casamento. Fora que estávamos falando da Lívia, uma mulher que conseguia tudo o que desejava, até o meu coração, para depois destruí-lo.
Estava pronto para virar a noite mergulhado nas pilhas de papéis que cobriam a minha pequena mesa quando vi Cassandra entrando no meu escritório com outra postura.
Ela não parecia a mesma mulher que estava agindo de forma estranha no hangar. Parecia ter entendido que eu não estava aberto a discussões sobre o meu relacionamento com Lívia.
— Já está tarde, Cassandra. — Não levanto o olhar. — Não precisa ficar aqui, posso me virar sozinho. — Ouço seu suspiro. — Eu preciso resolver as coisas, e é isso que estou fazendo.
Ela bufou, frustrada, mas eu já não tinha paciência para ela.
— Vai me punir por me preocupar com você? — Ela disse, terminando de entrar no meu escritório. — Não gosto de brigar com você, Gregório.
— Nem eu, Cassandra. No entanto, não vou fechar os meus olhos quando vejo que quer mandar onde não deve se meter.
Ela engoliu em seco.
— Sempre fomos amigos, e se falo algumas coisas que podem parecer severas ou inadequadas, é porque não quero ver você sofrer... — Ela se sentou à minha frente. — Não gosto de ver você sendo enganado... — Olhei para ela. — Desculpa, eu só tenho dificuldades para acreditar na menina que foi embora sem olhar para trás naquela noite. Sabe que quem te machuca, me machuca também.
Não gosto que ela fale de Lívia. Se contei o que aconteceu para Cassandra, foi porque tinha bebido demais, e a língua falou mais rápido que o cérebro pensou. Não queria me abrir sobre Lívia, mas, em uma noite de bebedeira, eu falei. Depois disso, Cassandra sempre me diz que não confia na minha futura noiva, que eu tinha que escolher outra noiva... As mesmas frases que não me convencem.
— Já falei para você tomar cuidado com tudo o que é relacionado à Lívia. — Ela me olhou, engolindo em seco.
— Não vou falar. Já entendi que ela é o seu limite.
Fico em silêncio.
— Você já sofreu demais, meu amigo... — Ela disse, com um misto de sentimentos. — Eu estava lá quando você perdeu a sua mãe para o câncer, depois teve que ver seu pai pegar uma máfia problemática... Vimos seu pai entrar em guerra e perder a vida... — A voz dela era de lamento. — Eu só não quero que você sofra.
— Nunca reclamo, Cassandra. Não precisa se preocupar.
Não gostava de me vitimizar por tudo o que me aconteceu ao longo desses anos. Achava que era como dar armas para o inimigo. Nos mostrar vulneráveis não era bom no ramo em que atuo. Prefiro sofrer por dentro, mas nunca demonstrar para ninguém. As perdas foram devastadoras. Eu ainda tinha coração, sentia todo o impacto de perder a minha família de uma hora para a outra. Muitas feridas abertas em pouco tempo.
Foram tantas perdas que eu ainda não tive muito tempo para pensar, raciocinar e viver o luto. Tinha que agir para sobreviver. Não queria ser caçado como meu pai, então me tornei o caçador.
Perdi a minha mãe para essa doença maldita. Meu pai tentou de tudo, por isso perdemos muito da nossa herança para hospitais, tratamentos e médicos, tudo na tentativa de curar a minha mãe de um câncer raro, mas nada adiantou. Perdemos ela em um dia quente de verão. Ela já não aguentava mais sofrer; a morfina não fazia efeito. Ela não parecia nem de longe a mulher que me amou com todas as forças. Minha mãe morreu com todos os que a amavam ao seu redor, mas ela não nos ensinou a lidar com a dor da sua perda.
Catarine era maravilhosa, uma mãe perfeita, uma esposa excepcional, uma mulher sem igual.
— Nem sempre foi assim. Eu nem sempre fui essa pessoa infeliz, Cassandra. Sofri muito, mas, se hoje sou este homem diante de você, é porque sou capaz de me reerguer, mesmo quando a dor é maior que a minha vontade de viver. Entendo a sua preocupação, mas já provei que sou forte o suficiente para me manter em pé.
— Não precisa carregar todo o peso sozinho, Gregório. Por isso estamos aqui. — Ela disse, como se bastasse lhe dar a chave de algo precioso, mas eu não precisava de um ombro amigo.
— Não estou reclamando do peso, Cassandra. Estou lhe afirmando que, mesmo com todas as adversidades, eu ainda estou aqui.
Cassandra me olhou como se quisesse me pegar no colo. Eu odiava esse olhar.
Quando meu pai morreu, tentei afastar os pensamentos que iriam me destruir. Foquei em pensar no bem maior da máfia. Era a única coisa que restou, e agora me mantenho de pé por causa da Lívia.
— Ainda assim, quero que saiba que estou aqui. — Ela resmungou. — Mesmo você fingindo não me enxergar.
— Eu sei... — Digo apenas. — Já decidiu se vai ou fica?
Cassandra perdeu o brilho que tinha nos olhos.
— Sabe que tem escolha, Cassandra. Nunca a obrigaria a ficar onde não deseja, mas você precisa dizer se fica e vai ser a minha conselheira ou se vai sair e se casar.
— Sabe que vou ficar. Nem sei por que perguntou isso, Gregório.
— Então vai se casar, Cassandra. — Ela me olhou com os olhos arregalados. — Vou arrumar um noivo para você.
— Meu cargo não precisa de noivo... — Ela disse, como se eu estivesse enfiando uma faca em seu coração.
— Todos os membros se casam, Cassandra. Vou arrumar um homem bom, que não vai implicar com seu cargo...
Ela se levantou.
— Não quero me casar, Gregório.
— Todos se casam, Cassandra. Nem mesmo o seu cargo vai livrar você de um casamento. Escolha alguém bom, em quem você saiba que pode confiar, ou eu vou escolher. Temos que dar exemplo para os demais.
Ela me olhou com um misto de raiva e incredulidade.
— Não pode fazer isso comigo, Gregório... — Ela disse, tentando manter a pose.
— Posso e vou fazer. Todos do alto escalão têm que ser casados. É a regra, e vou cumpri-la à risca.
Ela fechou a mão em punho.
— Quando eu me casar com Lívia, você e Caio serão os próximos.
— Não sou digna de me casar, Gregório... — Ela disse, com um suspiro. — Tenho segredos que você não faz ideia. — Tentou uma última vez.
— Sei que não sou um bom conselheiro, tanto que confio em seu julgamento, Cassandra. Entendo que você tem questões em seu interior, mas não posso abrir mão disso, porque os outros vão se sentir injustiçados, e eu não sou um chefe injusto.
Ela concordou, mesmo contrariada.
Cassandra casada, o conselho vai parar de implicar com ela. Será que ela não vê que estou tentando ajudar?
— Estou fazendo para o seu próprio bem. Assim, vão parar de pegar no seu pé, Cassandra. Vai por mim...
- Acho que sim... - Ela ainda não estava convencida.
Ela saiu muito chateada, mas essa é a realidade de todos na máfia: casamentos sob contrato para manter a máfia unida e forte. Encontraria uma boa opção para Cassandra se casar. Ela merece.
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