CAPITULO 3

1726 Palavras
O silêncio na sala era agora absoluto. Nem os advogados ousaram falar. O tablet continuava mostrando imagens que ardiam como brasas. Lorenzo limpou a garganta, tenso. — E se eu não aceitar? — Então tudo isso — disse Donna, apontando para os documentos, vídeos e imagens — vai parar nas mãos da imprensa. Da polícia. E dos investidores. Sabe o que acontece quando há suspeitas de corrupção, tráfico e abuso envolvendo sócios de uma holding com capital aberto, não sabe? Ela fez uma pausa e concluiu: — O valor das ações despenca. As linhas de crédito são cortadas. Os contratos evaporam. E o nome “Lorenzo Falco” vira sinônimo de ruína. Lorenzo se calou, os olhos agora presos à mesa. A sala parecia ter encolhido ao redor dele. O som distante da cidade abaixo era abafado, como se o mundo inteiro aguardasse sua resposta. Depois de longos segundos, ele soltou um suspiro pesado. Seus ombros caíram. Ele empurrou o tablet de volta para o centro da mesa, sem encará-la. Seus dedos tamborilaram uma vez mais sobre o couro n***o do apoio de braço. — Está me oferecendo uma saída… — ele repetiu, como se degustasse a frase amargamente. — Você fala como uma herdeira mimada que acabou de ganhar seu primeiro brinquedo perigoso. Donna não desviou o olhar. Permaneceu imóvel, a coluna reta, a respiração controlada. — Eu falo como alguém que conhece o peso de uma decisão m*l tomada. — Sua voz era baixa, precisa. — E que sabe reconhecer quando uma guerra silenciosa já foi vencida antes mesmo de ser declarada. Don Roberto Alberti inclinou-se, cruzando as mãos sobre a mesa. O leve ranger da cadeira pareceu amplificar o silêncio. — Lorenzo, sejamos diretos. O que a Signorina Amorielle está propondo é uma transição limpa. O fundo árabe absorve os ativos. Você lucra com a venda. Não há necessidade de prolongar esse embate. Lorenzo recostou-se na cadeira, os olhos fixos no lustre pendurado. Um tic nervoso vibrava no músculo do maxilar. Quando finalmente falou, sua voz era mais baixa, quase íntima. — Pietro, Matteo e Alessandro… mortos? E agora você aparece com esse dossiê convenientemente pronto? Isso parecia uma coação para mim. — Veja pelo nosso ângulo — respondeu Donna, sem hesitar. — O cenário não favorecia uma aquisição amigável. Então nós criamos um favorável. Ela pronunciou o "nós" com cuidado. Não havia nomes, nem rostos por trás daquela palavra. Apenas a sombra de um império. — Foram vocês? — Lorenzo indagou, os olhos cravados nela. — Foi você? Donna sorriu. Não um sorriso de deboche, mas de domínio. Era o tipo de sorriso que deixava claro que a resposta pouco importava, porque a verdade agora era uma arma carregada em sua mão. — A imprensa dirá overdose. Os laudos médicos serão concluídos em poucas horas. — Ela girou levemente o anel em seu dedo indicador. — Seus corpos já estão sendo transladados para a Itália. Funerais discretos. Famílias consoladas. Nenhuma manchete negativa. Lorenzo se levantou, caminhando até a parede de vidro atrás de si. A vista de Roma à noite, com seus telhados antigos e luzes douradas, parecia distante, quase irreal. Ele cruzou os braços, refletindo. — E se eu recusar? — murmurou. — Se eu disser não? Donna também se levantou. A sala observava em silêncio, como se o mundo houvesse prendido a respiração. — Então amanhã de manhã, às sete em ponto, um dossiê será entregue a promotoria. — Sua voz agora era cortante, sem uma sombra de hesitação. — O promotor vai receber cópias das movimentações financeiras, os vídeos do quarto em Andaluzia, o esquema de criptomoedas. Cada linha assinada por você ou por seus sócios. A promotoria vai congelar seus bens em quarenta e oito horas. Sua imagem será arrastada pela lama em todas as capas de jornal da Europa. Ela deu um passo à frente. — Você vai perder tudo. E quando isso acontecer, Lorenzo… você também vai descobrir que perdeu o direito de jogar com o seu próprio nome. Lorenzo a olhou por cima do ombro. O ar parecia pesado. Não era medo em seus olhos — era o reconhecimento amargo de um impasse inevitável. Como um homem que sabe que não há mais estradas a seguir, apenas o precipício ou a rendição. Ele voltou para a cadeira. Sentou-se lentamente, o corpo mais pesado do que antes. Pegou a folha que Donna havia deslizado e passou os olhos pelas primeiras linhas. A proposta estava lá. Clara, irrefutável, cirurgicamente redigida. — Cinquenta por cento à vista. — ele disse. — E os outros cinquenta em parcelas trimestrais, com juros de quatro por cento ao ano. — Dois por cento. — Donna rebateu imediatamente. — E nenhuma cláusula de resguardo. Você está vendendo, não está em posição de negociar proteções. — Três. E um adiantamento de dez milhões amanhã, em conta pessoal. — Ele cruzou os braços. — Eu quero distância disso tudo. Do nome. Da merda que se tornou essa empresa. Donna assentiu com leveza. — Feito. Don Roberto sinalizou para o homem do fundo da sala, que até então se mantinha em silêncio. Ele se levantou e estendeu os documentos para que Lorenzo assinasse. Um contrato de 47 páginas. Cada palavra, cada cláusula, revisada com precisão. Lorenzo girou levemente a caneta entre os dedos. E então, antes que a tinta tocasse o papel, ergueu os olhos para Donna. — Realmente... você é muito boa, Donna Amorielle — disse, a voz grave, como um elogio oferecido com ácido. — Como falaram para mim. Todos eles. Donna manteve a postura. O silêncio que seguiu não foi de espera, mas de expectativa — algo se insinuava por baixo das palavras, como o prelúdio de um golpe. — Mas me surgiu uma dúvida. — Lorenzo deixou a caneta repousar entre o polegar e o indicador. — Você é boa por si só, Signorina Amorielle? Ou só é boa por causa das facilidades que o sobrenome que carrega lhe oferece? A pergunta caiu como uma pedra de mármore no meio da sala. Pesada. Brutal. E verdadeira. Donna piscou. Apenas uma vez. Um leve tremor no canto dos lábios denunciou o golpe. Não era raiva — era surpresa. Mas não só isso. Era algo mais íntimo. Um lampejo de dúvida que ela jamais admitiria em voz alta. Lorenzo viu. E sorriu. — Pelo visto... — ele inclinou levemente o queixo — nem você mesma sabe a resposta. Uma pena. Eu queria muito sua resposta. — E então, sem mais delongas, ele assinou. Assinou página por página. Com firmeza. Como se traçasse linhas finais em um epitáfio. Quando terminou, deixou a caneta sobre a mesa com um gesto seco e se levantou. Don Roberto avançou alguns passos, estendendo a mão. Os dois homens se cumprimentaram com firmeza, como dois generais que reconhecem o fim de uma guerra. Falco olhou para o homem de terno cinza e trocou algumas palavras em tom baixo, burocrático, sem emoção. Donna continuava sentada. Imóvel. As pernas cruzadas. Os dedos sobre o colo, entrelaçados, como quem segura algo que não quer escapar. Mas o olhar… o olhar vagava. As palavras de Lorenzo ainda ecoavam. "Você é boa por si só? Ou só é boa por causa das facilidades que o sobrenome que carrega lhe oferece?" Ela podia ter se levantado. Poderia ter deixado aquele comentário para trás como uma migalha caída de uma refeição já devorada. Mas não conseguiu. O que a impedia não era orgulho. Era outra coisa. Algo mais íntimo. Aquela sombra eterna. O nome que abria portas, mas que também selava seu destino. Ela engoliu em seco. Discretamente. — Está tudo certo, então? — perguntou Don Roberto, voltando-se para ela, após encerrar a conversa com Lorenzo. Donna ergueu os olhos. A voz de Don Roberto a arrancou da espiral. — Sim — respondeu. Sua voz estava firme, mas com uma tonalidade mais grave que o habitual. — Tudo certo. Lorenzo olhou para ela uma última vez. Não havia mais desprezo em seu olhar. Tampouco ódio. O que existia agora era algo mais incômodo: uma curiosidade que jamais seria satisfeita. Então ele saiu. O homem de terno cinza o acompanhou. Don Roberto esperou que a porta se fechasse. E o silêncio na sala finalmente deixou espaço para o som da cidade lá fora. Longínquo. Quase fantasmal. Donna soltou um suspiro. Baixo, mas real. Um momento de verdade escapando por entre os vãos da fortaleza que construíra em si mesma. Don Roberto aproximou-se. Serviu-lhe um pouco de água de uma garrafa de cristal. — Você foi impecável — disse ele, com a serenidade de quem não joga palavras ao vento. — Não dê ouvidos ao que Lorenzo disse. Ele precisava ferir alguma coisa antes de perder tudo. Faz parte do ritual de queda. Donna pegou o copo. Olhou para a água como se ela pudesse lhe devolver algo — uma lembrança, uma certeza, um pedaço do que Lorenzo arrancara com palavras. — Talvez ele tenha razão — disse, enfim. Don Roberto arqueou uma sobrancelha. — Sobre o quê? — Sobre eu não saber a resposta. Ela se levantou. Andou até a janela de vidro fosco. A cidade se estendia abaixo, como um altar de luzes e histórias não contadas. — Às vezes eu também não sei — confessou. — Se sou boa porque sou capaz... ou porque nasci com a proteção de um nome que intimida os fracos e atrai os fortes. Ela virou-se para ele, e seus olhos agora estavam firmes, mas havia algo de humano demais ali. — E se um dia tudo isso me for tirado? — perguntou. — O nome. A herança. A proteção. Eu seria o quê? Don Roberto aproximou-se lentamente. — A única forma de saber… — disse ele — é tentar. Mude as expectativas a seu respeito, busque algo só seu. E um dia, você terá tudo... e também terá algo que nenhum sobrenome pode dar: história. Donna o encarou. O peso da noite ainda sobre os ombros. Mas algo nela começava a se reconstruir, como uma muralha sendo reforçada pedra por pedra. — Talvez seja isso que me assuste — confessou. — A possibilidade de que sem o nome Amorielle ... eu não me torne ninguém. Don Roberto não respondeu. Apenas colocou uma das mãos no ombro dela. Firme. Sem piedade, mas com respeito. — Você só saberá se tentar.
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