Donna entrou no quarto que um dia fora seu refúgio. As paredes ainda carregavam a leve tonalidade lavanda que ela escolhera na adolescência, agora um pouco desbotada pelo tempo e pelo esquecimento. A mobília havia sido polida, mas continuava com os mesmos contornos elegantes de sempre. O perfume familiar de madeira encerada e lavanda a envolveu, despertando memórias distantes.
Mas foram duas presenças que realmente lhe chamaram atenção.
A primeira, suas malas, encostadas com precisão ao pé da cama, provavelmente deixadas ali por algum funcionário da família, que seguia ordens sem nunca questionar.
A segunda, e mais impactante, era seu irmão sentado na beira da cama dela.
Apesar do terno de corte impecável, da gravata escura justa ao pescoço, da postura normalmente ereta de quem nasceu para comandar uma sala — ou um império — ele estava ali como nos velhos tempos. Ombros curvados, olhar baixo, como se estivesse prestes a contar a ela que algum garoto i****a da escola tinha rasgado seu caderno. Havia uma vulnerabilidade ali que o tempo não conseguira arrancar dele.
Donna cruzou os braços, apoiando-se na porta, como se ainda fosse a irmã mais velha de espírito, mesmo sendo algumas semanas mais nova. Jake ergueu o olhar devagar. Seus olhos estavam vermelhos nas bordas, mas firmes.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, com a voz grave, quase cansada.
Ela inclinou a cabeça, sem se mover da porta.
— Nesse momento? — perguntou, com sarcasmo sutil. — Tô entrando no meu quarto e me deparando com meu irmão, um homem feito, usando um terno caro, sentado na minha cama como se tivesse dez anos e prestes a contar o que fizeram com ele no colégio.
Jake cerrou os lábios e suspirou, mas não rebateu.
— Você sabe o que eu quis dizer. — Sua voz era grave. — Você pediu demissão ao Don Roberto. Por quê?
Donna fechou a porta atrás de si e caminhou até a cama. Sentou-se ao lado dele, mantendo uma distância calculada.
— Eu só achei melhor não trabalhar mais pra ele.
— O que aconteceu?
A pergunta veio mais rápida do que ela esperava, seca. Jake a encarava de lado, como se pudesse ler a verdade nas rachaduras de sua expressão.
— Nada aconteceu. Eu só… queria analisar outras opções.
Jake virou o corpo na direção dela, os olhos estreitos como os de um falcão prestes a mergulhar sobre a presa.
— Outras opções? Que outras opções?
Ela respirou fundo, ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos e encarou o irmão.
— Eu não só saí do escritório do Don Roberto — disse ela, com a voz firme. — Eu também me inscrevi para a NYU. Curso de Direito.
Jake piscou, como se uma parte dele tivesse certeza de que não ouvira direito.
— Pós-graduação?
Donna balançou a cabeça lentamente.
— Não. Curso de Direito mesmo. Do começo. Com meu nome antigo. Smith.
Um silêncio pesado caiu entre eles. O rosto de Jake se contorceu como se ela tivesse dito que pretendia virar freira em um convento no Alasca.
— Por quê?
— Porque eu queria ver como era ser uma pessoa normal — disse ela. — Só isso.
Jake se levantou de repente, os sapatos produzindo um som seco contra o chão. Ele começou a andar de um lado para o outro, e então parou, apontando para ela com um dedo trêmulo.
— Você é uma i****a.
Donna ergueu a sobrancelha.
— Como é?
— Uma i****a — repetiu ele, a voz subindo meio tom. — Você não tem ideia da loucura que está cometendo. E quando o papai descobrir…
— Ele já descobriu — cortou ela, sem se abalar. — Me expulsou de casa.
Jake passou a mão pelo cabelo e soltou uma risada sem humor.
— E com razão.
Donna arqueou as sobrancelhas, sentindo o estômago revirar.
— Uau. Eu não imaginava que o certinho Jake achava mais interessante eu seguir no mundo do crime a tentar ser uma pessoa normal.
Jake girou sobre os calcanhares, as narinas infladas.
— Você não faz ideia do que eu daria para ter a oportunidade que você tem de servir a família.
— Você serve à família. Cuida de todos os negócios que envolvem o nome Amorielle.
— Os legalizados — cuspiu ele, como se a palavra fosse veneno. — Você pode flertar com os dois mundos. Você foi até o deserto, cruzou todas as linhas legais, matou três homens e depois reverteu o jogo a seu favor. Isso é algo que eu nunca poderia fazer.
— Porque você não quer — rebateu Donna, a voz saindo mais baixa do que queria.
Jake explodiu, os olhos brilhando.
— Porque Don Vittorio não deixa! — rugiu ele. — E você, que pode, está jogando fora o que eu sempre desejei a minha vida toda!
O silêncio caiu sobre o quarto como uma nevasca, denso e cortante. O som da própria respiração parecia alto demais para Donna.
Jake afastou-se da cama, caminhou até a janela e apoiou a testa no vidro frio. Os ombros subiam e desciam, tensos. Quando voltou a falar, a voz era um sussurro áspero.
— Me desculpa.
Donna também estava com os olhos marejados. Ela engoliu a emoção, firme.
— Tudo bem… mas veja pelo lado bom. Quem sabe agora o Don Vittorio resolve dar a você a oportunidade de assumir essa parte...
Jake soltou um suspiro que parecia vir da alma.
— Eu duvido. E ainda assim… eu não entendo você, Donna. Você parecia ... gostar disso. Parecia amar mais esse mundo do que eu mesmo.
Donna ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder. Ficou ali, olhando para os próprios joelhos, as mãos entrelaçadas no colo.
— Eu gosto. — disse por fim. — Ainda gosto dessa parte. Eu só... preciso ter certeza. Eu quero ter certeza de que só isso me faria feliz de verdade. E se eu nunca tentar algo fora disso, como eu vou saber?
Jake se virou para encará-la, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu devagar.
Ellis entrou. O rosto sério, contido, como sempre. Ela não disse nada por um momento, apenas olhou para Jake com aquele olhar afiado que fazia até mesmo Don Vittorio pensar duas vezes antes de contrariá-la.
— Preciso falar com a Donna. A sós.
Jake hesitou, mas assentiu. Caminhou até a mãe e, em um gesto que unia respeito e ternura, beijou seu rosto.
— Benedetta, mamma.
Ellis pousou a mão no rosto dele com ternura, mas seus olhos não deixaram Donna.
— Il Signore ti benedica e ti protegga, figlio mio.
Jake saiu, deixando as palavras pairando no ar como fumaça.
Donna levantou-se devagar e encarou a mãe.
— Como foi?