Capítulo 3

1576 Palavras
- Você conseguiu o impossível - diz Cintía, minutos depois - Conseguiu tirar o Nem 157 da cadeia. - Não foi uma tarefa fácil - comento. - Imaginei que não seria, só de olhar a ficha criminal dele.      Forço um meio sorriso, não querendo imaginar a cara dela, se dissesse que o Nem 157 era meu namorado agora. - Pronto - diz me entregando uma pasta, com os papéis que acabara de imprimir - Mais alguma coisa? - Não, é só isso. Obrigada.      Por enquanto, só queria trabalhar em um caso por vez. Casos não muito extravagantes e que não tomassem toda minha energia, como o caso de Marco me tomou.      O calor estava sufocante do lado de fora do prédio. O carro de César não estava mais estacionado mais próximo ao prédio, indicando que já deveria ter ido embora.      Caminho em baixo do sol quente para o ponto de ônibus, tentando me esconder em baixo da cobertura metálica.       A caminho de casa, leio por cima meu novo caso, concluindo que não me daria tanto trabalho, não precisando ter que recorrer as minhas irmãs.       Algumas paradas depois, desço, entrando na comunidade, aonde tudo parecia normal, na medida do possível.       Ruas depois, chego em casa, sendo recebida inicialmente pelo silêncio, imaginando que meu avô deveria estar tirando um cochilo e minha avó entretida com o almoço.       Abro o pequeno portão de ferro devagar, sem fazer nenhum ruído, tirando a sandália que calçava antes de entrar em casa. A porta nunca fazia nenhum ruído, o que facilitou minha entrada.       Como imaginei, meu vô não estava na sala, porém a tv estava ligada, denunciando que minha vó deveria estar na cozinha, ouvindo de lá o aparelho.        Sabia que ela estava esperando eu chegar aqui para conversar sobre o acontecido daquela manhã.        Então praticamente prendendo o ar, tento passar pela porta da cozinha, sem ser percebida, já que a mesma estava de costas. - Gabi - diz com a voz firme, me fazendo parar no mesmo lugar. - Oi, vó - Entro na cozinha, tentando disfarçar, pegando um copo no armário e água na geladeira. - Aquele rapaz - Ela começa, me fazendo inspirar lentamente - Tem certeza que quer namorar com ele? - pergunta calmamente, como sempre fazia, quando queríamos seguir por um caminho que ela não concordava inicialmente. Entretanto, para não criar um atrito, nos fazia repensar se estávamos tomando a decisão certa - Seu vô não gostou dele.      Tomo um pouco da água, escolhendo as palavras certas para não soar ríspida. Não gostava quando soava ríspida sem querer com ela. - O vô não gosta de ninguém, vó. Além do mais, Marco é gente boa. Não parece, mas ele é. - Ele até pode ser gente boa, Gabi - diz sem me olhar, continuando a catar feijão em uma bacia - Mas não parece ser homem pra você.       Qual era o problema das pessoas daquela casa? Nunca havia namorado e quando encontro alguém que gosta de mim e que quer namorar comigo, acham meia dúzia de defeitos para que voltasse atrás. - Como a senhora sabe? - pergunto mantendo meu tom de voz baixo e calmo - Vocês nem conhecem ele direito. - Não preciso conhecer uma pessoa, para saber como ela é. Sabe disso - Sim, eu sabia. O sexto sentido dela nunca errava, porém, conhecia Marco a mais tempo e tinha motivos para saber que ele não era tudo aquilo que estavam falando sobre ele. - Eu gosto dele, vó. E se ele não gostasse de mim, não teria vindo aqui - Fazia sentindo. - Espero que saiba o que está fazendo - Odiava quando ela falava daquela maneira, parecia que algo r**m poderia acontecer a qualquer momento - Não é mais criança. Já é uma mulher, independente, não preciso ter que ficar falando o que é bom ou não para você. Acho que já é dona do seu próprio nariz para fazer isso.       Assinto devagar, sabendo que não teríamos mais aquela conversa.      Depois de tomar um banho, decido arrumar meu quarto e lavar a roupa que estava suja, praticamente passando o restante da manhã fazendo isso. Perto da hora do almoço, meu avô acorda, como sempre como seu mau humor aflorado, procurando qualquer coisa para lhe dar motivo para começar a falar. Estava prestes a entrar na cozinha novamente, para ajudar a terminar o almoço, quando ele resolve se pronunciar. - Já disse pra sua vó e vou dizer pra você - Paro, soltando o ar dos pulmões. - Alceu - Minha vó repreende. - Eu vou falar, Marta! - Ele altera a voz - Minha mãe não queimou minha boca com mingau quente não e não dependo de neta para comer não. - Então fale, vô. Se o senhor quer falar, fale - digo entrelaçando minhas mãos em frente ao corpo, já impaciente com tanta gente querendo dar pitaco no meu namoro que só tinha algumas horas. - Gabi - Minha vó repreende, só que dessa vez mais alto. - Se ele também tem alguma coisa pra falar, vó, que fale! - digo irritada. - Eu tenho sim! - Ele rebate, segurando seu copo com dois dedos de café - Devia ter vergonha na cara, namorando com um marginal. - Assim como não depende de mim para comer, também não dependo do senhor. - Já dependeu muito. Já comeu muito do meu feijão - diz apontando o dedo na minha direção - Pra onde em dia estar nos envergonhando na rua, namorando com um bandidinho pé de chinelo. Dou um leve sorriso, precisando morder minha língua, para não dizer o nível de bandidinho pé de chinelo que Marco era. Era um nível tão baixo, que a polícia praticamente babava para colocar as mãos nele e o juíz em colocar uma “perpétua” em suas costas. Fazendo ele passar o resto da vida dele, atrás das grades. Já havia visto aquilo acontecer, Fernandinho beira mar era um exemplo. - Você vai ter que aturar o bandidinho pé de chinelo, por que não vou terminar com ele - digo com a voz firme, sustentando seu olhar. Ele pressiona os lábios, o rosto enrugado ficando vermelho de raiva, movendo o queixo de um lado para o outro. O nome de Marco não foi mais mencionado. O restante do dia, ocorreu normalmente. Após o almoço, comecei a estudar meu novo caso, listando tudo o que deveria ser feito nos dias seguintes. No final da tarde, busco Renata na escola, estranhando seu silêncio no trajeto de volta, não levando muito a sério por se tratar de Renata, cujo humor vacilava umas cinco vezes ao dia.   Já em casa, a mando ir para o banho, enquanto colocava a mesa para o café da tarde.  Meu vô nos intervalos das novelas, puxava assunto com Renata, puxando seu nariz ou as tranças em seu cabelo, como sempre fazia, na intenção de ver a menina brincar de volta.    Minha vó tentava tricotar em outro sofá, forçando a vista por trás do óculos vencido. Enquanto na cozinha, preparava nossa janta.   Depois do jornal nacional, meus avôs vão dormir e ponho Renata na cama, ainda relutante, não querendo dormir.   Feito isso, volto para a sala, arrumando a bagunça que ela havia deixado para trás, tentando estudar mais um pouco do caso no meu notebook.   É quando ouço palmas e meu coração acelera no mesmo instante. Levanto, olhando para a porta fechada do quarto dos meus avós, indo de imediato até a porta.   Engulo em seco quando vejo Marco com os cotovelos apoiados no muro baixo da casa, os olhos fixos na casa.    Abro a porta da frente, tentando fazer o mínimo de barulho possível. - Ainda tá com raiva de mim? - Ele pergunta, quando encosto a porta atrás de mim. - Eu deveria, não é? - Mas não tá - Ele ergue um dos cantos da boca.      Só então reparo que ele estava mais arrumado do que de costume. - Vai em algum lugar? - Nós vamos.       Ergo as sobrancelhas surpresa, dando um leve sorriso. - Nós vamos aonde? - Tá tendo baile lá na favela. Bora?       Coço um lado da cabeça, imaginando o tanto de coisa que ainda precisava fazer, referente ao processo que estava me esperando ao lado do notebook.       A última vez que havia ido em um baile na favela, não tinha acabado muito bem. Pelo menos agora, estaria com o dono da favela. - Vamo - diz ele baixo, com uma voz que derrubou toda minha resistência. - Vou tomar banho - Ele assenti em resposta. Volto para dentro de casa, pegando meu notebook e os papeis no sofá, os levando para o quarto.      Abro a porta do guarda-roupa se saber o que vestir. Já que não tinha muitas opções.      Acabo que optando por uma calça jeans e uma blusa que deixava meu umbigo a mostra.      Tomo o banho mais rápido da minha vida, agradecida pelo meu cabelo cooperar.       Saio de casa após ter certeza de que todos continuavam a dormir, trancando a porta com a minha chave ao sair. Marco inclina a cabeça para o lado, quando saio na calçada, me olhando de cima abaixo com um olhar que, me deixou excitada na mesma hora. - Tu tá bonita - comenta com um dos cantos erguidos num sorriso safado. - Obrigada. Com a cabeça, indica o carro, no qual estava encostado. - Entra aí. Inspirando profundamente, dou a volta no carro, me acomodando no banco do carona.
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