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1495 Palavras
- Eu quero me casar com ela - A voz de Christian gagueja, mesmo não mantendo contato visual com os meus pais. Minha mãe o olha com a expressão incrédula, enquanto meu pai me olha completamente descrente, como se não esperasse tal coisa de mim. Ao lado de Christian, me sentia vunerável e temerosa pelo o que estava por vir. - Mas eu não quero que se case com a minha filha - Franzo o cenho quando minha mãe pronuncia as palavras com fúria, olhando como se ele fosse algum tipo de animal exótico ou algo pior que isto - Você não é bom o suficiente para ela. - Olha para você, garoto - diz meu pai no mesmo tom - Laura pode ter qualquer homem que ela quiser, de uma família boa e estruturada e com uma boa influência. Acha mesmo que iria deixar ela se casar com alguém tão fora de nível? - Ele o olha de cima abaixo, balançando a cabeça lentamente de um lado para o outro em desaprovação - Você não serve para ela. E serve, na cozinha, com a sua mãe, fazendo o que você está fazendo por aqui. Christian apenas assenti, dando as costas para ambos. - Christian! - grito, tentando ir atrás dele, acordando sem fôlego e suada, com meus olhos vagando sem rumo, até que encontra Christian parado em minha frente com uma caneca de café. Ele estreita os olhos, me olhando com atenção. Estava com as mãos apoiadas no chão, na minha “cama” no chão, ainda sem saber se estava dormindo ou acordada. - Por que está me gritando? - A pergunta me fez ter certeza que estava acordada, tirando qualquer dúvida que eu tinha. Sinto o suor escorrer pelo meu rosto, grudando a roupa que estava vestindo em alguns locais, o que me fez desejar tomar um banho de imediato e me livrar dos resquícios daquele pesadelo/lembrança, que Christian havia desbloqueado com uma facilidade impressionante. Estava ficando cada vez mais interessante conviver com Christian e seu dom de trazer à tona traumas. - Eu não estava gritando você - Tento disfarçar, me encostando na parede. Christian se aproxima de mim, se agachando em minha frente, fazendo questão em olhar dentro dos meus olhos. Viro a cabeça para o lado mas, isto só faz com que segure meu queixo e me obrigue a olhar para ele. - Nós dois sabemos que estava - murmura, seus olhos parando em minha boca - E é bom saber que atormento você até em seus sonhos - Não ouso respirar, muito menos me mover, espero com que ele solte meu queixo e se levante, tirando algo do bolso da calça que estava vestindo e jogar no meu colo. Franzo o cenho quando me dou conta de que era meu celular. Ele estava com meu celular todo aquele tempo! Erguendo a cabeça, olho para ele com o cenho franzido, sem saber o que ele queria dizer com aquilo, qual parte do seu plano que agora eu estava fazendo parte. Christian estava começando a me deixar confusa. - Este é meu celular - murmuro, olhando para o aparelho, que ainda estava bloqueado com uma das minha fotos preferidas ao lado do meu então falecido marido. Pelo menos parecíamos ser felizes. - Sério? Nem percebi - Ele dá de ombros, agachando novamente na minha frente - Mas não estou devolvendo ele para você. - Então por que me deu? - pergunto erguendo o olhar, encontrando os olhos dele. - Vai fazer uma ligação - Ele dá um gole no café com leite em sua caneca - E vai avisar os seus pais que irá visitar eles. Sinto que a minha cabeça dá um breve pane com aquelas palavras. Ele estava prestes a me libertar, era isso? Tudo estava indicando que sim e isto fez até com que um sorriso começasse a surgir em meu rosto e a esperança ser reacendida dentro de mim. - Vai me deixar ir embora? - pergunto otimista, já me imaginando esquecendo tudo que aconteceu ali no fundo da minha mente e voltando a viver minha vida como se nada tivesse acontecido. Christian inclina a cabeça para o lado, sem esboçar qualquer reação, o que me preocupou. - Nós vamos visitar eles. - Nós? - Repito ainda sem entender o que ele estava planejando ou tentando me fazer entender - Como assim? Ele suspira. - Você vai anunciar que irá se casar - Balanço a cabeça de um lado par o outro confusa, precisando fechar os olhos por um instante com as mãos em minha cabeça. - Mas ontem você disse... - Eu sei muito bem o que disse ontem, Laura, e poderia lhe dizer coisas bem piores - Ele me interrompe, já não deixando dúvidas do que ele queria - Você vai ligar para eles e sem enrolação irá dizer que irá os visitar. Minha cabeça continua girando, chegando a me deixar nauseada, apenas ao lembrar da reação da minha mãe anos atrás. Poderia esperar uma reação bem pior dessa vez e não tinha saúde mental para lidar com isto, já que Christian havia feito o favor de acabar até com isto. Respiro pelos meus lábios entre abertos, sentindo um breve frio, mesmo tendo consciência de que não estava frio e que isto era algo psicológico. Christian pega novamente o aparelho, dessa vez o estendendo em minha direção. Hesitante, o pego, ascendendo novamente a tela, esquecendo por um momento qual era a senha, lembrando segundos depois que era a data do meu casamento. Na lista telefônica, procuro o número da casa dos meus pais e ligo em seguida. O telefone chama três vezes, antes de ser atendido por Luzia. - Alô - A voz firme da mulher ecoa em meu ouvido, trazendo nostalgia. - Oi, Luzia. Sou eu Laura. Breve silêncio. Olho para Christian, que tinha seus olhos ainda em mim. - Laura?! Menina, aonde você se meteu? Está todo mundo preocupado com você - Ouço uma voz perto de Luzia - É ela, sim senhora - O telefone muda de mão e neste instante, a voz da minha mãe soa mas, não em um tom preocupado, talvez de raiva ou qualquer outro sentimento semelhante. - Aonde você está? - Oi, mãe. - Você tem noção do que aconteceu e está acontecendo?! - Não era justamente o que eu esperava ouvir ou até mesmo esperava mas, me enganei, acreditando que meus pais estivessem realmente preocupados comigo. Só estavam preocupados em saber quem matou o filho do governador e por que eu não chamei a polícia ou a ajuda. - Eu estou bem - Forço minha voz a soar da maneira mais convincente possível. - É bom você estar mesmo e aparecer para dar explicações - Sua voz soa ainda mais autoritária e severa. - E eu vou - digo por fim, prendendo a respiração - Antes mesmo que eu dissesse alguma coisa, ela desliga, me deixando igual uma i****a com o celular pressionado na orelha - Eu também te amo, mãe - digo forçando um sorriso, fingindo desligar, estendendo o celular de volta para Christian, que não hesita em pegar o aparelho. Por mais alguns segundos ele me encara, como se estivesse tentando ler meus pensamentos. - Acho que por agora, é só - diz por fim levantando, andando para fora da casa - O café da manhã está na mesa. Por mais alguns minutos, permaneço ainda no mesmo lugar, tentando absolver tudo o que estava acontecendo. Me sentia como se estivesse dormindo e meu cerébro estivesse pregando peças em mim. Entretanto, não parecia que eu estava dormindo, estava muito bem acordada e Christian havia mudado de ideia da água para o vinho. Não sei se isso me surpreendia ou o fato dos meus pais não estarem nem um pouco preocupados, diferente dos empregados da casa. Eles queriam explicações, não só eles, como os pais de Lindemberg e acredito que nenhum deles, iria gostar de ouvir o que eu tinha para falar, muito menos se iriam acreditar em mim. Havia uma grande chance de não acreditarem e eu acabar saindo presa de lá, o que não seria r**m, pois dessa forma iria me livrar de Christian. Finalmente quando levanto e vou para a cozinha, encontro a mesa recheada com bolo, pão e outros alimentos que apenas em olhar, fizeram meu estômago roncar dolorosamente. Não hesito nem mais um segundo em começar a comer, um pouco de tudo, enfiando comida de uma vez dentro da minha boca, enquanto sentia as lágrimas embaçar meus olhos, quando meu dou conta no que havia me tornado. Com as costas das mãos pressionada contra a boca, dou alguns passos para trás chorando, precisando correr para a área de serviço para vomitar o que havia engolido, quando claramente meu estômago rejeita tanta comida. Continuei a chorar ao vomitar, parecia que o vômito era causado pelas lágrimas e vice-versa, só sabia que estava me sentindo uma perfeita i****a por chorar enquanto comia.
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