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2422 Palavras
KIARA Apesar da temperatura mais quente que março trouxe, eu estava feliz pelo meu suéter de lã grossa. Eu nunca me acostumei com o clima frio de Baltimore. O tempo em Atlanta era muito mais quente. Meus dedos estavam rígidos quando os coloquei nas teclas do piano e comecei a tocar. Melancólicas notas baixas de música encheram a sala, um reflexo das minhas emoções atuais. Eu tinha começado a mexer com a composição há alguns dias atrás, mas ainda estava longe de estar bom. Quando minha tia entrou na sala de estar, com um estilo perfeito - como sempre - em um vestido bege de caxemira, com o cabelo escuro preso no alto da cabeça, tirei as mãos das teclas e o som cessou em uma suave expiração. Tio Félix entrou atrás dela. Ele era um homem alto, corpulento, com um bigode que se contorcia quando ele falava. Eles trocaram um olhar e algo pesado se estabeleceu no meu estômago. — Precisamos ter uma palavra com você, — disse Felix. Levantei-me do banco e segui-os em direção à área de estar. Eles se sentaram no sofá e peguei a poltrona na frente deles. Parecia que eu estava enfrentando um tribunal. — Não tem sido fácil para nós, criá-la, — Felix começou, e eu enrolei meus dedos no couro da poltrona. Não foi a primeira vez que ouvi isso, mas ainda doía. — Mas nós fizemos o que podíamos. Nós te demos o que podíamos para te criar. Eles me deram abrigo e educação, mas carinho ou mesmo proteção contra os duros sussurros da sociedade... Não. Nunca isso. Eu estava grata de qualquer maneira. Eu sabia o quanto as aparências externas eram importantes, e eles arriscaram sua reputação ao receberem a filha de um traidor. — Mas você é uma mulher adulta agora e é hora de ter sua própria casa, ser esposa e mãe. Meu interior apertou, mas eu mantive meu rosto em branco. Ao longo dos anos, aprendi a esconder minhas emoções. — Você encontrou um marido para mim? Quem teria concordado em casar comigo? Talvez tivessem se decidido por um soldado depois de tudo. Era o melhor. Se eu me casasse, o casamento e a cerimônia seriam um assunto discreto, sem atenção, pouco potencial para escândalo. Um soldado poderia me ver como uma maneira de melhorar sua posição, porque, apesar de ser filha de um traidor, eu era prima do Capo. Talvez isso o fizesse ignorar meu defeito. Tia Egidia sorriu, mas seus olhos demonstravam culpa, talvez até vergonha. Felix pigarreou. — Eu sei que você não está ciente dos detalhes do meu negócio, mas a Famiglia está em guerra. Como se alguém não soubesse disso. Até mesmo as crianças menores foram criadas com o conhecimento de que tínhamos que estar vigilantes porque a Outfit poderia atacar, ou Deus nos proteja, a Camorra. — Eu sei, tio Felix, — eu disse baixinho. — Mas Luca foi abordado com uma oferta de paz. Você não precisa se preocupar com os detalhes, mas pode ser o último passo para destruir a Outfit. Minha respiração ficou presa na minha garganta. O que ele estava falando? Se a oferta não veio da Outfit, quem mais estava disposto a concordar com uma trégua? — É uma honra, Kiara. Depois do que seu pai fez, pensamos que teríamos que lhe encontrar um soldado ou nenhum marido. — Com quem eu vou casar? — Eu forcei as palavras, mas elas soaram estranguladas. — Você vai se casar, — tia Egidia me assegurou com um sorriso tenso, mas seus olhos... seus olhos ainda tinham pena, e no fundo eu sabia que quaisquer horrores que sofri no passado, logo seriam acompanhados por novos horrores. — Quem? — Eu disse asperamente. — Nino Falcone, segundo no comando de seu irmão Remo Falcone, o Capo da Camorra, — disse Felix, evitando meus olhos. Eu não ouvi nada depois disso, levantando-me sem uma palavra e saindo. Subi as escadas, continuei até meu quarto e afundei na espreguiçadeira, olhando fixamente para minha cama. Estava bem arrumada. Eu não deixava as empregadas fazerem isso, não às deixei fazer isso em anos. Toda noite eu pegava meu travesseiro e cobertor e me enrolava na minha espreguiçadeira para dormir, e de manhã eu devolvia tudo e arrumava a cama para que ninguém descobrisse que não usava a cama e não o fazia há seis anos. Seis anos. Eu tinha apenas treze anos. Enquanto olhava para a minha cama, os horrores do passado tomavam forma novamente, como faziam todas as noites quando eu fechava os olhos. *** SEIS ANOS ATRÁS Estava escuro no meu quarto quando passos me acordaram. Eu me virei e reconheci meu tio Durant sob o brilho do luar. Ele viera a Baltimore com a esposa, tia Criminella, para visitar tia Egidia e tio Felix por alguns dias. Confusa com sua presença, sentei-me. Sua respiração era alta e ele estava usando um roupão de banho. — Shh, — disse ele, inclinando-se sobre mim, seu corpo me forçando para baixo. Medo disparou através de mim. Eu não deveria estar sozinha com homens no meu quarto. Essa foi uma regra que aprendi desde cedo. Dura de terror, vi quando ele tirou o roupão de banho; ele estava nu por baixo. Eu nunca tinha visto um homem nu. Sua mão agarrou meu ombro e sua outra mão pressionou minha boca. Eu deveria mostrar respeito aos idosos, aos homens em particular, mas eu sabia que isso não estava certo. Eu comecei a lutar. Ele rasgou minhas roupas. Ele era muito forte. Ele puxou e beliscou. Suas mãos machucavam entre as minhas pernas. Eu chorei, mas ele não parou. Ele se moveu em cima de mim, entre as minhas pernas. — Esta é sua punição por ser uma traidora suja. Eu queria dizer que não traí ninguém, mas a dor roubou minhas palavras. Parecia estar sendo rasgada, quebrada, como cair e despedaçar. Sua respiração estava quente no meu rosto e eu chorei, choraminguei e implorei. Sua mão só apertou mais forte ao redor da minha boca, e ele grunhiu enquanto empurrava em mim uma e outra vez. Eu chorei mais porque doía muito. Machucou-me toda, meu corpo inteiro e profundamente no meu peito. Ele continuou grunhindo acima de mim. Eu parei de lutar, respirei pelo meu nariz entupido. Dentro e fora. Dentro e fora. Seu suor pingava na minha testa. Ele estremeceu e caiu em cima de mim. Sua mão escorregou da minha boca. Eu não gritei. Eu estava quieta, imóvel. — Ninguém vai acreditar em você se você falar sobre isso, Kiara. E mesmo se o fizerem, culparão você e ninguém mais a desejará. Você está suja agora, Kiara, está me ouvindo? Inútil. Ele saiu de mim e eu chorei da dor aguda. Ele me deu um tapa. — Fique quieta. Eu pressionei meus lábios, observando-o levantar e vestir o roupão de banho. — Você já teve seu período? Eu balancei a cabeça porque não conseguia falar. — Bom. Não quero que você tenha um bastardo, certo? — Ele se inclinou sobre mim novamente, e eu vacilei. — Vou me certificar de que as criadas saibam que você está menstruada, não se preocupe. Não deixarei ninguém descobrir que você é uma p*****a sem valor. Eu vou te proteger. — Ele acariciou minha bochecha antes de se afastar, e eu não me movi até que ele saísse. Quando seus passos se desvaneceram, levantei-me e consegui ficar de pé apesar da dor. Algo quente escorria pelas minhas pernas. Eu tropecei para frente, agarrei minha calcinha descartada e apertei-a entre as minhas pernas, chorando novamente. Tremendo, eu me enrolei na espreguiçadeira, olhando para a escuridão da cama. Antes do nascer do sol, a porta se abriu novamente, e eu pressionei contra o encosto, me encolhendo. Uma das criadas, Dorma, entrou no meu quarto. Ela era uma das mais jovens, e me olhava como se eu fosse um incômodo. Seus olhos se moveram sobre mim. — Levante-se, — ela disse bruscamente. — Precisamos limpar você antes que os outros acordem. Eu levantei, estremecendo com a dor entre as minhas pernas. Eu olhei para mim mesma. Havia sangue nas minhas pernas e algo mais que fez meu estômago apertar bruscamente. Dorma começou a juntar os lençóis. Eles também estavam cobertos de sangue. — É melhor você ficar quieta sobre isso, — ela murmurou. — Seu tio é um homem importante e você é apenas uma traidora. Você tem sorte de não terem matado você também. Esperei em silêncio enquanto ela ajeitava os lençóis e os colocava no chão. Então ela começou a puxar minhas roupas, ignorando minha vacilação, até que fiquei nua. Eu me sentia suja, sem valor e quebrada sob seus olhos cruéis. Ela adicionou minha camisola ao monte de sangue no chão, em seguida, me ajudou a vestir um roupão de banho. — Vamos ao banheiro agora e, se alguém perguntar, você menstruou, certo? Eu assenti. Não perguntei por quê. Não lutei. Naquela noite, tio Durant entrou no meu quarto novamente, e novamente na noite seguinte, e novamente até que finalmente teve que voltar para Atlanta. Todas as manhãs, Dorma limpava os lençóis e a mim. Alguns dias depois que ele partiu, ela usava um colar caro. O preço pelo seu silêncio. *** HOJE Uma batida soou, me arrancando das lembranças dolorosas. Eu respirei fundo e desejei que minha voz estivesse forte. — Entre. Tia Egidia abriu a porta, mas ela não entrou. Preocupação apertou sua boca. — Kiara, isso foi muito rude, — disse ela. Ela me olhou, em seguida, desviou o olhar, que novamente estava preenchido com uma pitada de culpa. — Você deveria estar honrada em ser dada a alguém importante. Com o seu passado, é uma benção. Seu casamento será um espetáculo. Isso trará honra ao seu nome. E ao seu, — eu disse baixinho. Ela endureceu e imediatamente me arrependi das minhas palavras. Eu não tinha o direito de criticá-la ou ao meu tio. — Enfrentamos muitos aborrecimentos porque a acolhemos. Você não pode nos culpar por estarmos felizes em ter encontrado um parceiro tão honrado para você. — Já foi decidido? — Perguntei em voz baixa. Ela franziu a testa. — Praticamente. Os Falcone insistem no parentesco com Luca para o casamento, naturalmente, então Félix sugeriu você. Luca gostaria de falar com você antes de fazer a oferta, o que não costuma ser feito, mas se ele insiste em seu consentimento, dificilmente podemos recusá-lo. Nós o convidamos e a sua esposa para jantar. — Seus olhos encontraram os meus, finalmente. — Você vai dizer que está honrada, Kiara, não vai? Esta é sua chance de resgatar sua família e você mesma. Talvez seus irmãos tenham permissão para se tornarem capitães se você se casar com alguém como Nino Falcone. Minha garganta se fechou com força e meu olhar encontrou a cama novamente. — Kiara, você vai dizer a ele que concorda, não vai? Seu tio já disse a Luca que você concordaria. Isso levantará rumores se você recusar. Olhei de volta para minha tia, que parecia preocupada. — Eu vou concordar, — eu sussurrei, porque o que mais havia a fazer? *** Naquela noite, antes do jantar, Luca me puxou de lado para falar comigo sem minha tia e meu tio, o que os desagradou muito, deixando claro pela carranca em seus rostos. — Eu não vou lhe forçar a se casar se você recusar, — disse ele. Sua presença me deixava nervosa. — Farei vinte neste outono. Eu preciso casar. Isso é verdade, — admitiu Luca. Seus olhos cinzentos me observavam como se ele achasse que poderia tirar qualquer verdade de mim apenas com seu olhar vigilante, mas eu aprendi a guardar meus segredos. — Mas você poderia se casar com outra pessoa. Poderia, mas se eu me recusasse a casar com Nino Falcone, seria considerada ainda mais uma pária em nossos círculos. O tio Felix e a tia Egidia ficariam desapontados, e teriam ainda mais dificuldade em encontrar outra pessoa. E como eu justificaria minha recusa? Em nosso mundo, você se casava com o homem que seus pais escolhiam para você, não importa quão r**m fosse a escolha. — Quem se casaria com Nino Falcone em meu lugar? — A maioria das minhas primas é prometida ou casada. Eu teria que escolher uma das filhas dos meus capitães. Algumas delas atingirão a maioridade neste ano e não estão comprometidas. Outra garota dada aos monstros em Las Vegas. Uma garota mais inocente que eu. Uma menina que merece uma chance de felicidade, não importa o quão pequena fosse em nosso mundo. Ninguém me protegeu há anos atrás, mas eu poderia poupar outra garota desse destino. — Eu vou casar com ele. Você não tem que escolher mais ninguém. — Minha voz não traía meu terror. Estava firme e determinada, e me forcei a encontrar o olhar de Luca pela primeira vez esta noite. Luca olhou para mim por mais um momento, mas eu poderia dizer que ele aprovou minha decisão. Dever e honra eram os pilares do nosso mundo. Cada um de nós tinha que fazer o que era esperado. Teria feito ele e a Famiglia ficarem m*l se não pudesse oferecer uma de suas primas para a Camorra. Essas eram as regras pelas quais vivíamos, e sua própria esposa lhe fora dada pela paz. Era assim que era feito, como sempre seria feito. Depois do jantar, foi Aria quem se aproximou de mim. Ela sorriu gentilmente e tocou meu braço enquanto os homens bebiam seu uísque na sala de estar e tia Egidia preparava o café para nós. — Ninguém te culparia se você se recusasse, — disse Aria. — Você se casou com Luca. Você fez o que era esperado, o que a honra ditou, e eu sei que o mesmo é esperado de mim, — eu disse com um sorriso. Ela franziu a testa. — Sim, mas... Não é como se aqui fosse minha casa. Mesmo que não tenha sido eu a quebrar o juramento, estou pagando pelo erro do meu pai. Eu quero seguir em frente. Esta é a minha chance de me redimir. Las Vegas pode ser um novo começo para mim. Essas eram as palavras esperadas de mim, mas elas caíram pesadamente dos meus lábios porque sabia que meu casamento com Nino poderia destruir tudo. Minha reputação e qualquer chance de paz. E sob essas preocupações, havia um medo mais profundo e sombrio - um medo nascido no passado que assombrava meu presente e determinaria meu futuro. ***
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