A semana foi dificil Sofia quase não saía do quarto. O corpo fraco, a garganta queimando, febre que ia e voltava. Ela m*l comia, m*l falava. Só ficava deitada, abraçada no próprio corpo, tremendo às vezes.
Naquela noite, a febre voltou mais forte.
Ela se levantou cambaleando, sentindo o mundo girar, e foi até o quarto dele.
Bateu fraco na porta.
Gabriel tinha acabado de chegar. Ainda estava de pé, tirando a arma da cintura, quando a viu ali, pálida, os olhos brilhando demais.
— Sofia? — o tom mudou na hora. — O que houve?
Ela passou a mão na garganta, a voz quase não saía.
— Eu não tô bem… — murmurou. — Tô queimando de febre… minha garganta dói muito.
Ele a puxou pra dentro sem pensar duas vezes.
— Senta.
Pegou o remédio, colocou água no copo, ajudou ela a engolir.
— Você devia ter me chamado antes.
— Eu tentei aguentar… — respondeu fraca.
Ele suspirou, vencido.
— Vem.
Deitou na cama e puxou o cobertor. Sofia deitou também, de lado, ainda tremendo. Por alguns segundos ficou quieta… até se mexer, instintivamente buscando calor.
Passou uma perna por cima da dele.
Abraçou o peito dele.
A cabeça encaixou ali como se fosse o lugar certo.
O corpo dela estava quente demais.
Gabriel fechou os olhos com força.
O cheiro dela.
O peso do corpo confiando nele.
A proximidade proibida.
— Sofia… — a voz saiu baixa, tensa. — Assim não.
Ela se mexeu um pouco, mas não se afastou. A voz veio fraca, quase infantil.
— Assim tá bom… — murmurou. — Eu preciso de você, Gabriel.
As palavras bateram nele como um soco.
Ele ficou imóvel, respirando fundo, lutando contra cada reação do próprio corpo, contra cada pensamento errado.
— Você tá doente… — disse, mais pra si mesmo. — Você tá com febre.
Ela não respondeu.
A respiração foi ficando pesada… depois lenta.
Sofia dormiu ali, agarrada nele, vulnerável, quente, confiando como sempre confiou.
Gabriel abriu os olhos, encarando o teto no escuro.
Não se mexeu.
Não a afastou.
Não a tocou além do necessário.
Ficou ali, sendo o que sempre prometeu ser.
Mesmo com o coração em guerra.
Mesmo com o corpo traindo a razão.
Porque naquela noite, enquanto ela dormia febril no peito dele…
Gabriel percebeu, com uma clareza c***l:
Proteger Sofia estava se tornando a coisa mais difícil que ele já fez na vida.
E talvez…
a mais perigosa.
Sofia acordou devagar.
A febre tinha cedido um pouco. A cabeça ainda pesada, mas o corpo já não queimava tanto. Foi então que percebeu onde estava.
Abraçada a ele.
Gabriel dormia de lado, o rosto sério até no sono, a respiração profunda. O peito subia e descia devagar, quente, firme.
Ela ficou olhando por alguns segundos.
Depois, sem pensar muito, levou a mão até o peito dele.
Um carinho leve.
Inocente.
Cheio de sentimento.
Os dedos desenharam linhas suaves, como se quisessem memorizar aquele lugar.
Gabriel acordou no mesmo instante.
Segurou o pulso dela com cuidado, mas firme.
— Sofia… — a voz saiu rouca. — Assim não.
Ela não puxou a mão.
Levantou o rosto devagar, os olhos encontrando os dele.
— Gabriel… — disse baixo. — Não dá mais pra lutar contra isso. E você sabe.
O silêncio ficou pesado entre eles.
Gabriel fechou os olhos por um segundo, como se estivesse reunindo forças.
— Não fala isso — disse. — Não faz isso comigo.
— Você sente também — ela insistiu, sem acusar. — Eu vejo. Eu sinto.
Ele soltou a mão dela e se sentou na cama, passando as mãos pelo rosto.
— Não, Sofia. — a voz saiu dura, quase desesperada. — Não sai daqui.
Ela franziu a testa, confusa.
— Então por que você—
— Gabriel… — ela começou.
Ele se levantou num movimento brusco, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido demais.
— Sai agora, Sofia.
Ela ficou de pé também, os olhos marejados.
— Por quê? — a voz falhou. — Porque você tem medo… ou porque quer?
A pergunta ficou no ar como uma lâmina.
Gabriel virou de costas.
— Porque se você ficar… — disse, com a voz quebrando apesar da tentativa de firmeza — eu posso não conseguir parar.
O coração dela apertou.
— Eu não tenho medo de você — sussurrou.
Ele se virou, o olhar escuro, intenso, carregado de conflito.
— Mas eu tenho de mim.
Silêncio.
Sofia respirou fundo, as lágrimas finalmente caindo.
— Então tá… — disse baixo. — Eu saio.
Passou por ele devagar, sem tocar.
Na porta, parou.
— Só não finge que isso não existe — falou, sem olhar pra trás. — Porque existe. E tá machucando nós dois.
Ela saiu.
Gabriel ficou sozinho no quarto, o vazio pesado demais.
A cama ainda quente.
O cheiro dela ainda ali.
Ele socou a parede de leve, frustrado.
— Eu tô tentando te salvar… — murmurou, para ninguém. — Mesmo que isso me destrua.
E naquele momento, ele soube:
A linha já tinha sido cruzada.
Mesmo sem um toque a mais.
Mesmo sem palavras claras.
Porque agora, os dois sabiam.
E saber… era o ponto sem retorno.