alguem novo

765 Palavras
Passaram-se alguns meses. O morro continuava o mesmo. As regras, o medo, o respeito. Gabriel… também. Mas Sofia tinha mudado. Não era algo visível. Era interno. Ela estava mais quieta, mais observadora. Ainda sorria, ainda dançava às vezes, mas algo nela tinha aprendido a se proteger — mesmo sem saber exatamente como. Naquela tarde, sentada na cama, o celular vibrava sem parar. Ela sorria para a tela. — Boba… — murmurou, digitando rápido. O menino parecia legal. Educado. Engraçado. Tinha vinte e quatro anos, trabalhava fora do morro, falava com calma, perguntava como ela estava de verdade. Não forçava. Não invadia. Isso era novo. Ela gostava disso. As conversas começaram simples. Música. Filmes. Coisas bobas do dia a dia. E, sem perceber, Sofia passou a esperar pelas mensagens. “Você some às vezes.” “É que aqui é complicado.” “Um dia você me explica.” Ela sorria. Pela primeira vez, sentia que alguém falava com ela sem medo… e sem controle. Do outro lado da casa, Gabriel percebeu antes mesmo de ver. Era sempre assim. O jeito distraído dela. O sorriso pequeno olhando pra tela. O celular sempre na mão. — Tá falando com quem? — perguntou do corredor, fingindo desinteresse. Sofia travou por um segundo. — Com um amigo. A palavra bateu errado nele. — Amigo de onde? — Da internet — respondeu, simples. — Ele parece legal. Gabriel encostou na parede, os braços cruzados. — Quantos anos? — Vinte e quatro. O silêncio se esticou. — E você acha isso uma boa ideia? — ele perguntou, a voz controlada demais. — Gabriel… — ela suspirou. — Eu não tô fazendo nada de errado. Só conversando. Ele não respondeu. Mas por dentro, algo começou a se mover devagar. O mesmo incômodo. A mesma tensão. O mesmo fogo quieto que ele fingia não existir. — Cuidado — disse por fim. — Você não conhece esse cara. Sofia levantou o olhar, firme. — E eu também não conhecia aquele do baile — respondeu. — A diferença é que esse aqui respeita. As palavras acertaram em cheio. Ela passou por ele e saiu, deixando o cheiro leve no ar… e o aviso. Gabriel ficou sozinho, o maxilar travado. Não era sobre perigo. Não era sobre idade. Não era sobre proteção. Era sobre outra coisa. Porque a ideia de alguém fazendo Sofia sorrir… de alguém ocupando um espaço que sempre foi dele… era insuportável. E ele sabia. Mais cedo ou mais tarde, aquilo ia explodir. dias depois o encontro veio... Sofia saiu de casa dizendo que ia dar uma volta no centro. Não mentiu. Só não contou tudo. O encontro foi num lugar simples, longe do barulho do morro. Uma lanchonete pequena, mesas na calçada, música baixa. Nada de luxo. Nada de ostentação. Ela chegou nervosa. Vestido leve, cabelo solto, maquiagem discreta. O coração batia acelerado como se fosse a primeira vez que fazia algo sozinha de verdade. Ele levantou quando a viu. — Oi — disse, sorrindo. Era um sorriso tranquilo. Sem malícia. Sem pressão. — Oi — ela respondeu, sentindo o corpo relaxar. Conversaram por horas. Sobre a vida. Sobre sonhos. Sobre coisas simples que ela nunca tinha tido espaço pra contar. Ele ouviu. De verdade. — Você fala pouco de você — ele comentou em certo momento. — Mas dá pra ver que carrega muita coisa aí dentro. Sofia sorriu de lado. — Tem coisas que eu ainda tô aprendendo a dizer. Quando foram embora, caminharam devagar pela rua iluminada. Ele parou, respirou fundo, visivelmente nervoso. — Sofia… — começou. — Eu gosto de você. Não é só conversa. Não é só amizade. Ela sentiu o estômago gelar. — Eu sei — respondeu, sincera. — Eu também gosto de você. Ele sorriu, aliviado. — Então… — coçou a nuca. — Você aceita namorar comigo? O mundo pareceu ficar em silêncio por um segundo. Ela pensou em Gabriel. Pensou nas regras. Pensou no medo que sempre guiou suas escolhas. E pensou nela. — Aceito — disse, firme. O sorriso dele foi largo, verdadeiro. Ele segurou a mão dela com cuidado, como se estivesse lidando com algo precioso. — Prometo ir no seu tempo — falou. — Sempre. Sofia sentiu os olhos marejarem. — Obrigada por não tentar mandar em mim. Ele riu baixo. — Não é assim que eu sei gostar. Quando ela voltou pra casa, o coração estava leve… e assustado ao mesmo tempo. Porque pela primeira vez, ela tinha escolhido algo só pra ela. E, em algum lugar dentro daquela casa, Gabriel ainda não sabia. Mas quando soubesse… Nada ficaria igual.
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