O sol da manhã entra suavemente pela janela do meu quarto, iluminando o vestido de noiva que penduram na frente do espelho. É um vestido deslumbrante, cheio de detalhes em renda e pérolas, digno de uma princesa. Mas quando olho para ele, sinto um nó no estômago. Não consigo ver beleza ali, apenas um símbolo do que minha vida se tornou: uma gaiola dourada.
Os preparativos para o casamento estão em pleno andamento. A mansão está cheia de pessoas – costureiras, floristas, decoradores – todos ocupados, todos falando ao mesmo tempo. É um caos organizado, mas eu me sinto distante, como se estivesse observando tudo de fora. Minha mente não para de vagar para a noite passada, para aquela conversa com Luca no escritório.
"O seu pai, Elena, foi o mandante da morte do meu pai."
As palavras dele ecoam na minha cabeça, uma sentença que não consigo esquecer. Meu pai, o homem que sempre me protegeu, que me ensinou a ser forte... ele poderia realmente ter feito algo tão horrível? Eu quero acreditar que não, mas a expressão de Luca, a dor em seus olhos quando ele falou, não parecia ser uma mentira.
E então há aquela pasta. Aqueles papéis. Preciso lê-los de novo. Preciso entender a verdade por trás de tudo. Mas como? Luca certamente aumentou a segurança ao redor do escritório depois do que aconteceu. Ele não vai me dar outra chance de bisbilhotar.
Enquanto uma costureira ajusta o vestido em mim, eu me pergunto o que devo fazer. Ganhar a confiança de Luca... ou seguir o plano do meu pai? Antes de vir para cá, ele me disse para ser forte, para fazer o que fosse necessário para proteger nossa família. Mas o que isso significa agora? Trair Luca? Usar o casamento como uma arma?
Meu coração está dividido. Por um lado, há uma parte de mim que quer provar a Luca que sou diferente, que não sou como meu pai. Quero que ele veja que posso ser leal a ele, que posso estar ao seu lado não por obrigação, mas por escolha. Mas, por outro lado, há o dever para com minha família, o medo do que acontecerá se eu não seguir o plano.
À noite, quando todos finalmente se retiram e a mansão fica em silêncio, eu me encontro de pé no corredor que leva ao escritório de Luca. Minha mente está em guerra, mas meu corpo parece agir por conta própria. Cada passo que dou é mais leve que o anterior, como se eu estivesse flutuando em direção àquela porta.
Quando chego lá, o coração bate tão forte que sinto que ele pode sair do peito. A porta está trancada, é claro. Luca não é t**o. Mas eu também não sou. Durante os preparativos, observei os funcionários, aprendi seus movimentos, seus horários. E agora, com uma chave que "emprestei" discretamente do bolso de um dos criados, abro a porta.
O escritório está exatamente como eu deixei, exceto pela pasta. Ela não está mais na mesa. Meus olhos vasculham a sala até que os encontram: em uma gaveta trancada da escrivaninha. Minhas mãos tremem enquanto tento abri-la, mas é inútil. Preciso de outra chave.
Frustrada, eu me sento na cadeira de Luca, olhando ao redor. Há tantos livros, tantos segredos guardados nessas paredes. E então eu vejo algo: uma foto emoldurada em cima de uma estante. É Luca e Matias, jovens, sorrindo ao lado de seu pai. Eles parecem tão felizes, tão inocentes. O que aconteceu com aqueles meninos?
De repente, ouço passos no corredor. Meu coração para. É ele. Luca. Eu me levanto rapidamente, mas não há tempo para fugir. A porta se abre, e ele está lá, parado, me olhando com uma expressão que não consigo decifrar.
— Elena — ele diz, o tom de sua voz suave, mas carregado de algo que me faz tremer. — O que você está fazendo aqui... de novo?
Eu engulo seco, tentando encontrar as palavras.
— Eu... eu preciso saber a verdade, Luca. Toda a verdade.
Ele entra no escritório, fechando a porta atrás de si. Seus olhos nunca deixam os meus.
— E se a verdade for mais do que você pode suportar?
— Eu preciso arriscar — digo, a voz firme, apesar do medo que sinto.
— Porque eu não quero ser apenas uma peça no seu jogo. Eu quero ser sua aliada. Sua... esposa.
Ele se aproxima, e eu sinto o calor de seu corpo, o cheiro de seu perfume – algo amadeirado, intenso, que me faz querer me inclinar para mais perto. Ele levanta a mão, como se fosse tocar meu rosto, mas então para, hesitante.
— E se eu disser que não posso confiar em você? — ele pergunta, a voz quase um sussurro.
— Então me dê uma razão para confiar em você — respondo, olhando diretamente em seus olhos. — Porque eu não quero traí-lo, Luca. Mas se você não me der uma escolha... Por favor, não aguento mais ser apenas uma peça no tabuleiro de alguém. Preciso ser mais que isso.
Ele não responde imediatamente. Em vez disso, ele se afasta, abrindo a gaveta da escrivaninha e pegando a pasta. Ele a segura por um momento, como se estivesse pesando algo em sua mente, e então a entrega para mim.
— Leia — ele diz, a voz grave. — Mas saiba que, uma vez que você souber a verdade, não haverá como voltar atrás.
Eu pego a pasta, minhas mãos tremendo. Este é o momento que eu tanto queria, mas agora que ele está aqui, eu me pergunto se estou pronta para o que vou descobrir.
— Não, eu quero ouvir da sua boca, Luca. Me conte tudo.