CAPÍTULO UM

1935 Palavras
CAPÍTULO UM Quando Riley ouviu o carro a parar em frente à sua casa, perguntou-se… Será que vou mesmo conseguir ir para a frente com isto? Estudou o seu rosto no espelo da casa de banho, esperando não ser óbvio que estivera a chorar. Depois desceu as escadas para junto da família que estava reunida na sala de estar – a empregada, Gabriela; a filha de quinze anos, April; e Jilly, a menina de treze anos que Riley estava prestes a adotar. E de pé entre elas, com duas grandes malas a seu lado, estava Liam, um rapaz de quinze anos, que sorria tristemente para Riley. Está mesmo a acontecer, Pensou. Agora mesmo. Tentou convencer-se de que era tudo pelo melhor. Ainda assim, não conseguia deixar de se sentir triste. Então soou o ruído da campainha e Jilly correu para a porta de entrada. Um homem e uma mulher aparentando quase sessenta anos entraram, sorridentes. A mulher dirigiu-se a Liam, mas o homem aproximou-se de Riley. “Deve ser a senhora Paige,” Disse ele. “Riley, por favor,” Disse Riley com um tom de voz embargado. “Sou Scott Schweppe, o tio do Liam,” Disse ele. Virou-se para a mulher que estava a dar um grande abraço a Liam. “E esta é a minha mulher Melinda.” Com um riso estranho, acrescentou, “Mas calculo que já tenha percebido isso. De qualquer das formas, tenho muito prazer e conhecê-la.” Riley cumprimentou-o e reparou que o seu aperto de mão era caloroso e forte. Ao contrário de Riley, Melinda não se deu ao trabalho de conter as lágrimas. Olhando para o sobrinho, disse-lhe, “Oh, Liam! Já lá vai tanto tempo! Eras tão pequeno quando te vimos pela última vez. E agora estás um belo rapaz!” Riley respirou calmamente. Isto é mesmo pelo melhor, Disse a si própria novamente. Mas há apenas alguns dias, aquele desfecho era a última coisa que esperaria. Parecia tão recente a vinda de Liam para viver com Riley e a sua família. Na verdade, estivera ali menos de dois meses, mas Liam adaptara-se perfeitamente e todas estavam muito ligadas a ele. Entretanto, surgiram parentes que queriam que ele fosse viver com eles. Riley disse ao casal, “Sentem-se, por favor. Estejam à vontade.” Melinda limpou os olhos com um lenço, e ela e Scott sentaram-se no sofá. Todos os outros também se sentaram, exceto Gabriela que se dirigiu à cozinha para ir buscar bebidas. Riley ficou aliviada quando April e Jilly começaram a conversar com Scott e Melinda – sobre a sua viagem de dois dias de Omaha, onde tinham passado a noite e como estivera o tempo nesse período de tempo. Jilly parecia estar bem-disposta, mas Riley detetou tristeza na atitude alegre de April. No final de contas, de todos, ela era a pessoa mais próxima de Liam. Enquanto ouvia, Riley observava o casal atentamente. Scott e o sobrinho eram muito parecidos – a mesma constituição magra, cabelo ruivo e sardas. Melinda era mais robusta e parecia uma dona de casa convencional e amigável. Gabriela rapidamente voltou com um tabuleiro com café, açúcar e natas, e uns biscoitos Guatemaltecos caseiros chamados champurradas. Serviu todos enquanto conversavam. Riley reparou que a tia de Liam olhava para ela. Com um sorriso caloroso, Melinda disse, “Riley, eu e o Scott não sabemos como lhe agradecer.” “Oh – o prazer foi todo meu,” Disse Riley. “É uma maravilha tê-lo por perto.” Scott abanou a cabeça e disse, “Não fazia ideia de como as coisas estavam m*l com o meu irmão Clarence. Não nos falávamos há tanto tempo. A última vez que soube dele foi há anos quando a mãe do Liam o deixou. Devíamos ter mantido o contacto, nem que fosse para o bem do Liam.” Riley não sabia muito bem o que dizer. O que é que Liam contara ao tio e à tia sobre o que acontecera? Ela lembrava-se muito bem. April acabara de começar a namorar com Liam e Riley simpatizara com ele de imediato. Mas depois de um telefonema frenético de April, Riley fora a casa de Liam e encontrou-o a ser espancado selvaticamente pelo pai bêbedo. Riley levara Liam para casa e ali o instalara. É claro que aquela situação era precária. O pai de Liam ligava-lhe e enviava-lhe mensagens, prometendo mudar e não beber mais – pura e simples chantagem emocional. E fora terrivelmente difícil para Liam. Scott prosseguiu, “Fiquei surpreendido quando o Clarence e ligou do nada a semana passada. Parecia louco. Queria a minha ajuda para recuperar o Liam. Ele disse… bem, disse algumas coisas, deixe-me que lhe diga.” Riley podia imaginar perfeitamente algumas das “coisas” que o pai de Liam dissera – provavelmente descrevendo Riley como uma pessoa vil e h******l por lhe ter tirado o Liam. “O Clarence disse que parou de beber,” Disse Scott. “Mas tenho a certeza de que estava bêbedo mesmo quando ligou. Enviar o Liam de volta para ele estava fora de questão. Só havia uma coisa a fazer.” Riley sentiu um abanão emocional ao ouvir aquelas palavras… “Só havia uma coisa a fazer.” Claro, Essa coisa não era deixar Liam a viver com a família de Riley. Era senso comum básico. Ele devia ir viver com os parentes mais próximos. Melinda apertou a mão de Scott e disse a Riley, “Eu e o Scott não temos filhos a viver connosco. Criámos três filhos, dois rapazes e uma rapariga. A nossa filha está no último ano da faculdade e os rapazes estão casados e preparados para terem as suas próprias famílias. Por isso estamos sozinhos na nossa casa enorme e sentimos a falta de ouvir vozes jovens. Este é o momento perfeito para nós.” Mais uma vez, Riley sentiu um abanão agudo. “… o momento perfeito…” É claro que era o momento perfeito. E mais ainda, era óbvio que estas pessoas era perfeitas – ou tão perfeitas quanto os pais podem ser. Provavelmente muito melhores que eu, Pensou Riley. Ela estava muito longe de equilibrar tudo na sua vida complicada – os deveres de mãe e os muitas vezes contraditórios e às vezes perigosos deveres de ser agente do FBI. Na verdade, por vezes era praticamente impossível e ter o Liam ali não tornara a sua vida mais fácil. Sentia muitas vezes que não dava a atenção que devia às filhas – e também a Liam. Para além disso, como poderia ele continuar a viver naquelas instalações até ir para a faculdade? E como iria Riley enviá-lo para a faculdade? Não, isto era mesmo pelo melhor. Jilly e April continuaram a conversar, fazendo perguntas sobre os filhos do casal. Entretanto, a cabeça de Riley enchia-se de preocupações. Ela sentia que se familiarizara com Liam num curto espaço de tempo. Após anos de afastamento, o que é que aquelas pessoas sabiam sobre ele? Ela sabia que Scott era proprietário de uma loja de bicicletas. Também parecia estar numa forma fantástica para a idade que tinha. Será que compreenderia que Liam era por natureza desastrado e não atlético? Liam adorava ler e estudar, e era o capitão da sua equipa de xadrez na escola. Saberiam Scott e Melinda relacionar-se com ele? Apreciariam conversar com ele tanto quanto Riley? Partilhariam algum dos seus interesses? Ou será que Liam acabaria por se sentir sozinho e deslocado? Mas Riley lembrou-se que não tinha que se preocupar com aquelas coisas. Isto é mesmo pelo melhor, Repetiu a si própria. Rapidamente – demasiado rapidamente para Riley – Scott e Melinda terminaram os seus biscoitos e café, agradecendo a Gabriela. Chegara o momento de partirem. Afinal, ainda os esperava ua longa viagem de regresso a Omaha. Scott pegou nas malas de Liam e dirigiu-se para o carro. Melinda pegou calorosamente na mão de Riley. Disse, “Mais uma vez, não sabemos como lhe agradecer por estar com o Liam quando ele mais precisou.” Riley limitou-se a anuir e Melinda seguiu o marido até ao exterior. Depois Riley viu-se frente a frente com Liam. Tinha os olhos muito abertos e olhou para Riley como se só agora se apercebesse que se ia embora. “Riley,” Disse ele com a voz trémula, “nunca tivémos a oportunidade de jogar um jogo de xadrez.” Riley sentiu uma pontada de arrependimento. Liam estava a ensinar o jogo a April, mas de alguma forma Riley nunca jogara com ele. Agora sentia que nunca fizera muitas outras coisas. “Não te preocupes,” Disse ela. “Podemos jogar online. Quero dizer, vais manter o contacto, não vais? Queremos ouvir notícias tuas. Muito. Se não disseres nada, vou a Omaha. Acho que não vais querer que o FBI te apareça à porta.” Liam riu. “Não se preocupe,” Disse ele. “Eu dou notícias. E vamos jogar xadrez de certeza.” Depois acrescentou com um sorriso endiabrado, “Vou dar-lhe uma coça, sabe.” Riley riu-se e abraçou-se a ele. “Nos teus sonhos,” Disse ela. Mas é claro que ela sabia que ele tinha razão. Ela era uma boa jogadora de xadrez, mas não tão boa para ganhar a um miúdo brilhante como Liam. À beira das lágrimas, Liam saiu porta fora. Entrou no carro com Scott e Melinda, e começaram a viagem para casa. Enquanto Riley ficou a observá-los a afastarem-se, ouviu Jilly e Gabriela a limpar a cozinha. Depois sentiu alguém a apertar-lhe a mão. Virou-se e viu que era April, olhando para ela com um ar preocupado. “Estás bem mãe?” Riley m*l conseguia acreditar que era April a fazer aquele papel. Afinal de contas, Liam fora seu namorado quando se mudara para ali. Mas desde essa altura que o namoro ficara pendente. Tinham que ser “hermanos solamente” como dissera Gabriela – apenas irmão e irmã. April lidara com a mudança com graça e maturidade. “Estou bem,” Disse Riley. “E tu?” April piscou os olhos, mas parecia estar a controlar as emoções de forma notável. “Estou bem,” Disse ela. Riley lembrou-se de algo que April planeara fazer com Liam quando a escola terminasse. Disse, “Ainda planeias ir para o campo de xadrez este verão?” April abanou a cabeça. “Não seria o mesmo sem o Liam.” “Eu compreendo,” Disse Riley. April apertou a mão de Riley com mais força e disse, “Fizemos uma coisa muito boa, não foi? Quero dizer, ter ajudado o Liam.” “Sem dúvida que fizemos,” Disse Riley, apertando a mão de April. Então ficou a olhar para a filha por um momento. Parecia tão incrivelmente adulta naquele instante e Riley sentiu um orgulho profundo dela. É claro que como qualquer mãe se preocupava com o futuro de April. Ficara especialmente preocupada recentemente quando April lhe anunciara que queria ser agente do FBI. Era aquele tipo de vida que queria para a sua filha? Lembrou-se mais uma vez… Não importa o que eu quero. A sua função enquanto mãe era fazer os possíveis para realizar os sonhos da filha. April começava a sentir-se inquieta sob o olhar intenso e repleto de amor de Riley. “Um, passa-se alguma coisa mãe?” Perguntou April. Riley limitou-se a sorrir. Esperara pelo momento certo para dar algo especial a April. E se aquele não era o momento certo, não sabia quando seria. “Vamos até lá acima,” Disse Riley a April. “Tenho uma surpresa para ti.”
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