O problema nunca fora o rapaz da foto, mas isso era até descobrir o que ele significava para Yoongi. Aquele retrato nunca fora um problema, não até Hoseok saber de toda a história por trás daquela moldura. Para Yoongi, era como se um fantasma estivesse preso naquele vidro e o atormentando todos os dias, não o fantasma de Taehyung, e sim o fantasma do que aconteceu naquela fatídica noite.
Noite esta que o destruiu.
O destruiu da pior maneira, o destruiu por dentro, de uma forma que parecia ser impossível de concertar, isso até Hoseok aparecer. E correr o risco de não ter mais Hoseok por perto, era como quebrar todas as pilastras que seguravam seu coração de pé.
— Taehyung e eu namoramos por dois anos. — as primeiras palavras vieram em tom baixo, Yoongi olhava para seus sapatos, mas sua mente recordava as imagens do rosto bonito do Kim — Com ele eu sentia que nada no mundo poderia me ferir, ele era meu super-herói, com ele eu não sentia medo.
Hoseok ficou em silêncio, ainda ao lado da porta, sentindo os braços de Yoongi o segurarem como se o menor tivesse medo de uma fuga. Podia ouvir a dor saindo nas palavras, o tom se transformava quando o nome do rapaz em questão era citado, ainda havia amor ali.
— Foi quando aquilo aconteceu.
O silêncio tomou conta outra vez, o Jung ficou parado, concentrava-se na respiração de Yoongi, que ficava cada vez mais pesada. Ele iria chorar, em cada palavra ele sentia que o Min choraria. E contar aquela história que lutou tanto para esquecer era como enfiar milhões de facas em seu coração, e ir as encravando cada vez mais.
— As pessoas não entendiam o nosso amor, elas não queriam ver dois homens felizes. — suspirou pesado — Para elas, aquilo era abominável. E numa noite dessas, alguns homens nos encurralaram em um beco, eles nos bateram. Mas Taehyung queria me proteger, ele tentou me proteger e por isso acabou apanhando mais, eles bateram na cabeça dele, eles o machucaram.
A primeira lágrima veio, e o silêncio também. Falar era tão difícil, ainda mais obtendo apenas o silêncio de Hoseok como resposta. Por que o Jung não esboçava nenhuma reação? Por que ele ficava calado? Será que não via o quanto Yoongi estava sofrendo?
O menor perdeu as forças, os braços soltaram Hoseok e seu corpo se afastou indo de encontro ao chão. Yoongi ficou no chão, seu corpo não tinha forças para ficar de pé. Sentado sobre os joelhos, ao lado dos calcanhares de Hoseok, o Min sentia tudo o que já fora de felicidade em sua vida se quebrar, agora tudo o que sentia era vontade de chorar, e não teria vergonha de agarrar-se nas pernas do mais alto e lhe implorar por perdão.
Já havia perdido um pedaço de si na noite que perdeu Taehyung, não podia perder Hoseok também.
— Yoongi, eu amo você.
O menor levantou seus olhos, Hoseok ainda estava parado de costas para ele, não havia saído do lugar e sua voz não expressava nada. Não havia entendido. Como Hoseok diz que o ama sem nem ao menos virar-se de frente ou olhar para ele. Esse não era o doce Hoseok que conheceu um dia, e essa sensação estranha no ar o deixava com medo.
— Se me ama, me perdoe então.
Um soluço alto ecoou pela casa toda, sem conseguir conter mais nada, Yoongi apenas chorou jogado no chão, chegando no fundo daquele poço que há tanto tempo estava descendo. Estava errado, esse deveria ser o momento em que Hoseok o beijava e dizia que estava tudo bem. Por que isso não estava acontecendo? Por que Hoseok não estava o perdoando?
— Conte tudo, Yoongi, não me omita mais nada.
— Taehyung não morreu.
Hoseok sentiu quando uma das mãos do Min segurou a barra de sua calça. Se Yoongi pudesse ver seu rosto, veria o quanto o Jung também estava sofrendo diante daquilo, o quanto estava sendo difícil para ele ver seu amado sofrer daquela maneira. Mas Yoongi precisava enfrentar seus medos, enquanto não contasse aquela história até o final, jamais seria liberto daquele fantasma que o acompanhava há tanto tempo.
— Mas ele nunca acordou, já fazem dois anos que ele está em COMA profundo, alguns médicos dizem que ele nunca vai acordar, e se acordar, não vai lembrar mais de nada e nem de ninguém, talvez não se lembre nem do próprio nome.
— Você ainda o ama?
— Amo, mas não da forma que eu amo você. — Yoongi olhou para cima, ainda não havia nada ali — Hoseok, meus sentimentos por você surgiram quando eu menos esperava amar alguém, você se tornou o dono da minha razão sem que eu ao menos desse permissão para isso. Então, por favor, me perdoe ou vá embora de uma vez, porque se me olhar com desprezo mais uma vez, eu não vou suportar mais.
O Jung finalmente se mexeu, olhou para Yoongi com seus olhos vermelhos, mostrando o quanto chorava em segredo. Recolheu o Min do chão o puxando para seus braços. Yoongi se agarrou ali, entrelaçando as pernas em redor da cintura do mais alto.
Hoseok o levou para o quarto e os dois deitaram-se sobre a cama macia de Yoongi. O maior foi para o meio o levando junto. Yoongi se aninhou sobre o peito de Hoseok de forma carinhosa, sentiu tanta falta de tê-lo por perto que seu coração estava à ponto de explodir.
— Isso significa que você me perdoou? — Yoongi perguntou baixinho, sua cabeça estava enfiada no peito do Jung, a voz ainda embargada pelo choro recente e abafada no peito do maior.
— Não há nada para ser perdoado, Yoongi, eu que exagerei, não deveria ter ficado tão zangado por você ter mentido, deveria ter te ouvido, deveria ter te entendido, as pessoas são preconceituosas, é normal sentir medo. — Yoongi estava feliz por escutar tantas palavras virem de Hoseok, sentia falta daquela voz, daquele tom — Você é quem tem que me perdoar por ter sido um i****a com você.
Yoongi levantou a cabeça, já estava deitado todo praticamente sobre Hoseok, aproximou seus lábios dos dele e finalmente fez o que tanto queria fazer. Sentia tanta falta dos beijos do Jung, sentia tanta falta de ter os braços de Hoseok ao redor de sua cintura, de sentir o calor de seu corpo, de tê-lo ali com ele. Poxa, amava tanto aquele homem, não deveriam brigar nunca.
— Hobi, eu amo tanto você. — o Min sussurrou rente à boca do ruivo — Se brigar comigo de novo eu acho que vou derreter todo e você vai ter que me juntar numa jarrinha.
— Vai ser uma jarrinha bem pequena.
— i****a.
Os dois riram e o beijo voltou a acontecer. Yoongi sentia a profundidade das coisas e a ânsia vinda de Hoseok, sabia o quanto ele queria intensificar as coisas. O Jung o segurou com mais firmeza e conseguiu o virar para o colchão, ficando sobre ele e continuando a beija-lo.
O beijo saiu dos lábios e a boca de Hoseok agora trilhava para seu pescoço. Yoongi sentia seu corpo inteiro estremecer e esquentar. As mãos do maior foram para os botões da camisa abrindo o primeiro e o segundo. Mas quando estavam a ponto de abrir o terceiro, Yoongi se alarmou.
— Hoseok, não. — quase gritou.
Imediatamente o ruivo parou, o olhou esperando alguma explicação, mas tudo o que tinha eram os olhos de Yoongi carregados de pânico. Um medo diferente dos outros, um medo carregado de dor.
— Por que você não quer t*****r comigo? — a pergunta tinha que ser feita, ao contrário Yoongi nunca falaria, e tudo se resumiria a repetir aquela cena diversas vezes.
Yoongi poderia inventar um milhão de justificativas, poderia dizer que não estava com a depilação em dias, ou que antes precisava tomar banho, ou poderia dizer que estava com dor de barriga, quem sabe dizer que estava com sono ou quem sabe sugerir verem um filme antes para se sentir mais no clima e dormir na metade. Mas não, naquele momento ele só queria ser sincero.
— É que desde o que aconteceu com Taehyung que eu não transo com ninguém, sempre que alguém me toca eu acabo lembrando dos toques dele, e eu não quero t*****r com você estando com outro na cabeça.
Talvez a verdade tenha magoado Hoseok, ele não esperava ouvir algo assim. Talvez Taehyung estivesse enterrado fundo demais dentro do coração de Yoongi, e que esquecê-lo era como arrancar a própria pele, pedacinho por pedacinho, todos os dias.
— Hoseok, você sente falta de sexo, não sente? — não sabia de onde tinha tirado coragem para perguntar — Sabia que tinha noites que seus parceiros gritavam tão alto que eu conseguia ouvir?
Deveria imaginar, o vizinho do outro lado já havia vindo reclamar várias vezes, e já havia tomado multa por “barulhos indecentes” várias vezes, mas nunca fizera questão de comentar isso com ninguém, e Yoongi seria a última pessoa para tal.
— Quer saber por que eles gritavam tão alto?
— Hoseok, eu já pedi pra parar. — o Min ameaçou se emburrar, mas depois de se calar lembrou-se de algo que queria perguntar — Mas por que você detesta tanto mentiras?
Hoseok ficou sério de novo, Yoongi sentiu que não deveria ter perguntado aquilo, deveria esquecer esse assunto e seguir suas vidas. Mas se Hoseok ficava assim ao lembrar, era porque alguma coisa havia acontecido no passado, e se já haviam começado a jogar as verdades na roda, era melhor irem até o final com aquilo, e saber de vez o que incomodava tanto seus passados.
— Porque no passado alguém já mentiu muito para mim. — um grito queria ter vindo junto, um grito de frustração e raiva.
— Me diz tudo, Hoseok, eu também preciso conhecer o seu passado, nós podemos curar todas as nossas feridas juntos.
O Jung suspirou e sorriu meio de lado, aquele sorriso que se abre quando uma história não quer ser contada, mas que mesmo assim ela vai. O maior se jogou para o lado e ambos ficaram deitados um ao lado do outro, admirando o teto do quarto.
— O nome dele era Park Jimin, eu morria de amores por eles, foi meu primeiro namorado. — a história começou, Yoongi ficou em silêncio para não perder nenhuma palavra — Sempre acreditei em tudo o que Jimin dizia, matava e morria por ele.
Hoseok ficou em silêncio de repente, Yoongi o olhou de lado, ele estava ainda mais sério.
— E o que aconteceu? — perguntou, não aguentava mais aquela tensão.
— Jimin me traiu. — Yoongi não conseguia acreditar na frieza que Hoseok falava isso, se fosse ele ali contando que já havia sido traído, estaria desabando em lágrimas — E por muito tempo mentiu pra mim, dizia que me amava quando na verdade ele só queria brincar comigo.
— Eu sinto muito.
— Não sinta, eu já superei, mas por favor, nunca mais minta pra mim.
Yoongi virou-se novamente para ele, voltou a deitar sobre seu peito, porque aquele era o melhor lugar do mundo para ele, queria ficar com Hoseok pelo tempo que a eternidade lhe permitisse.
Ouviram um barulhinho vindo da porta, era Minhyuk, que segurava seu ursinho e coçava os olhos. O menino estava com cara de choro e parecia assustado. Hoseok foi o primeiro a nota-lo ali.
— O que foi, Minhyuk?
— Tive um pesadelo.
Hoseok não resistiu o sorriso, ele ficava muito fofo com aquela carinha de quem só queria ser protegido. Aquele garoto merecia todo o amor do mundo, e seja lá o que tivesse passado com sua antiga família, Hoseok e Yoongi não deixariam mais que ele sentisse aquela dor.
— Vem cá, dorme com os papais.
Rapidamente o garoto subiu na cama, e logo já estava aconchegado entre os dois homens, abraçou Hoseok e ficou de costas para Yoongi. Mas o Min não se importou com isso, fora Hoseok quem o chamara mesmo. Yoongi passou a alisar seus cabelos negros e lisos.
— Nenhum Bixo papão malvado vai machucar você, Minhyuk, não mais.