Capítulo V

1679 Palavras
A jovem Analú observava atenciosamente a movimentação dentro e fora da casa. Mesmo sem poder sair do quarto, seu único acesso ao sol e as estrelas era pela pequena sacada de seu quarto. Ela tinha planos para a noite, ela observou o carro que levava o guarda-costas e o monstro que ela se recusava a chamar de pai, eles estavam saindo, e pelo menos três carros os acompanhavam. Analú pensou que talvez não tivesse ficado muitos homens na propriedade, e juntando toda a coragem que pôde ela saiu do quarto fazendo um forte o cordão com os lençóis da sua cama e o amarrou na grade da sacada. Pensou ser o deu dia de sorte, pois ninguém apareceu quando ela caiu como uma fruta podre no chão. O som de vozes masculinas que vinham de dentro da casa junto com risadas altas delatou que um jogo de pôquer estava em andamento. Ela tinha que correr, em breve alguém levaria o seu lanche da noite e sua fuga seria descoberta. Analú apenas olhou a mata escura a sua frente, ela nunca teve medo de escuro. Então puxando o ar para seus pulmões ela correu como louca. Galho de árvores batendo em seu rosto, ela ergueu as mãos para se proteger e continuou fugindo. Ela soube o momento em que eles descobriram a sua fuga, e sabia que eles a procurariam desesperadamente. ela precisava se esconder se continuasse correndo eles a alcançariam rapidamente. Analú ouviu barulho de corrente de águas e seguiu correndo nessa direção, ao encontrar um pequeno riacho, ela seguiu seu curso na esperança de que isso apagasse suas pegadas. — Analú vira isto em um filme. — Os sons pareciam muito mais perto e assustada, perdeu o equilíbrio e caiu e sentiu uma dor lancinante na perna ao se chocar contra as pedras no riacho. Sem tempo para sentir pena de si mesmo, ela se levanta engolindo a dor e a vontade de chorar e continua tentando encontrar um lugar para se esconder e se acalmar. Sua alma desejava poder gritar por sua mãe, ela sempre vinha. Todas as vezes que Analú sentia medo sua mãe estava por perto, mas desta vez não seria assim. Em um trecho que parecia muito longe de onde ela fugiu, Analú viu uma pequena gruta, parecia feita pela erosão e o efeito das águas da chuva. Ela se arrastou e entrou na pequena caverna sem se dar tempo de pensar que oque estaria lá dentro poderia ser tão maléfico quanto o que a perseguia do lado de fora. Analú se esconderia durante todo o dia e seguiria durante a noite, ela não tinha tempo para ter medo, não tinha tempo para pensar em perigos iminentes, não tinha tempo para pensar sobre os cenários desconhecidos que ela trilhava tudo o que ela pensava era conseguir chegar a um vilarejo, uma casa, um telefone. Embora ela nem se quer soubesse para quem ligar. Sua mãe era tudo o que ela conhecia, era o seu mundo. — Mãe você me ensinou tanto sobre a vida, mas não ensinou como viver sem você. Analú não tinha para aonde voltar, não tinha razão para continuar a viver, mas ela não entendia o porquê de não conseguir desistir. Ela até queria, mas não podia, tinha que sair dali e faria tudo o que pudesse para alcançar seus objetivos, ela precisava viver. O dia já estava amanhecendo, ela ficou na pequena gruta fechada por arbustos na entrada. Ela encostou-se à parede da gruta cansada por tanto esforço, tentou organizar seus pensamentos e repensar suas ações. Tentou pensar em quem realmente era sua mãe, visto não ser quem ela acreditou ser a sua vida toda. Ela era da máfia como eles? E, porque ela nunca havia contado sobre a existência de seu pai? A menina tentava pensar em onde ela se encaixava em tudo aquilo, em como sua mãe poderia fazer parte de uma organização criminosa. Sua mãe era a pessoa mais bondosa que Analú conhecia. Todos a amavam, ela ia à missa todos os domingos, ajudava nas festas da paróquia, sua mãe estava sempre presente nas reuniões de escola, Analú jamais vira a sua mãe brava com qualquer pessoa. Dona Rosa era calma e educada, falava macio em seu portunhol, forçando ao máximo para que sua origem não chamasse tanta atenção. Quanta vez Analú pensara sobre o motivo de sua mãe não falar sobre o seu país, ela jamais lhe revelara de onde era. Analú costumava brincar quando era criança, com a nacionalidade da mãe. — A senhora é do Paraguai? — Analú perguntava; — Se você quiser que eu seja, serei minha filha. — respondia a mãe. — Então és da Bolívia! — a resposta era a mesma para todas as nações latinas que Analú repetia vez após vez. — Se você quiser que eu seja eu serei minha pequeña. Mas a pergunta mais difícil era o porquê de sua mãe jamais ter falado sobre tudo aquilo e sobre Pedra santa, e de alguma forma ela sentia saber a resposta, sua mãe apenas tentou protegê-la de um monstro. Sua mãe tinha razão em temê-lo, o que Analú não compreendia era como sua mãe tão doce e simples, foi se envolver com um homem Mariano Pedra Santa? O que houve entre eles? Analú tentou se lembrar das últimas conversas e do quanto sua mãe parecia estar paranoica nos últimos meses, ela estava sempre assustada, sempre olhando para as estradas de acesso à cidade. Conceição Das pedras era assim, havia apenas duas estradas de acesso e de qualquer ponto da cidade era possível vê-las. A jovem tocou em seu pingente com um formato mais do que especial e chorou, ela já não queria mais entender o porquê de tudo aquilo, ela apenas queria poder fugir dali, sua mãe fugiu e ela também o faria. Analú começou a cantarolar em sua mente as canções que sua mãe cantava para ela. Repetia mentalmente as histórias, enquanto lágrimas caiam por seu rosto. Ela adormeceu, sentindo esperança pela primeira vez desde que sua pobre mãe fora tirada dela. Analú despertou com o coração acelerado no peito, barulhos estranhos soavam ao redor dela, ela então para e tenta controlar sua respiração e tenta identificar os sons, ao entender que nenhum deles parecia humano ela sai da gruta e continua sua jornada pela sua liberdade, sua reserva de água estava acabando e Analú precisaria encontrar um lugar para abastecer, e quem sabe comer algo. Seu estômago gritava por alimentos. Ela ouviu barulho de carro, pensou estar próximo a uma estrada, Analú caminhou paralelamente a ela, atravessando em alguns trechos quando se sentia segura. Mais a frente uma pequena casa, um pouco afastada da estrada, chamou sua atenção, ela a observou de longe, procurando por cachorros ou movimentação humana e ao perceber que não tinha nenhuma das duas coisas. Analú se aproximou por trás e se escondeu em uma espécie de celeiro. Agradeceu aos céus pela lua cheia e tão clara, quando viu algo parecido com uma mina d'água que ia direto até o cocho dos animais. Analú retirou sua garrafinha de água e a encheu bebendo mais que o bastante para m***r sua sede, ela não sabia até que ponto era sede, mas bebia porque a água parecia refrescante e maravilhosa. — O dia vai clarear logo. — pensou — preciso de um lugar para me esconder. Analú encontra uma pequena capela, ela não sabia até onde ia o controle de seu pai sobre as pessoas da região, por isso decidiu não confiar em ninguém, nem mesmo no padre. Atenta a tudo ao seu redor ela entrou na capela e se escondeu na pequena torre da igreja. Mais uma vez ela sorriu aos céus, o lugar era perfeito havia umas sacas estranhas no local que proporcionava um bom esconderijo para ela mesmo se o padre ou alguém da igreja entrasse no local. E, além disso, pelos buracos nas paredes ela tinha uma visão de toda a rua, poderia ver algo suspeito de longe. Graças às bananas roubadas no casebre na estrada ela teria energia por mais um tempo. Analú sentiu um desejo enorme de chorar, e decidiu que faria isso em breve, ela choraria por sua mãe, choraria por ela, mas por enquanto ela precisava engolir o nó que se formou em sua garganta. Jurou para si mesma que sairia dali e colocaria esse grito para fora. Engolindo a dor ela adormece. Horas depois se sentindo alimentada e descansada ela ouviu um barulho de carros na rua, pela fresta viu os homens da mansão andando e falando em rádios. Paravam algumas pessoas na rua, mas elas apenas balançavam a cabeça em negativa. Analú os viu entrar em seus carros, uns voltavam pelo mesmo caminho e outros seguiam adiante na direção oposta. Analú sabia precisar de um meio seguro de ir adiante, e uma alternativa perfeita surgiu ao ver um caminhão repleto de sacas de café parado em frente à capela. Já estava anoitecendo e o motorista entrou na capela e ela pode ouvi-lo chamar o padre de tio José e também a frase “venha comer, está pronto!” seu estômago roncou, mas ela teria que se contentar com as bananas que carregava em sua mochila. Analú desceu da torre e se escondeu em meio às sacas de café puxando como pode algumas por cima dela, orando para que fosse suficiente e que não houvesse nenhuma serpente à espreita, ela observou atenta e seu coração se acalmou ao ouvir as palavras; “Vou até o porto tio, volto depois de amanha!”. Analú pensou estar com uma sorte muito grande, se ela entrasse em uma embarcação teria grandes chances de conseguir escapar, e quem sabe chegar à embaixada do Brasil. O caminhão rodou o que parecia ter sido a noite inteira e já estava quase amanhecendo quando o motorista parou em pequeno posto de gasolina ela travou assustada, mas logo o caminhão continuou a rodar e Analú respirou se sentindo forte e muito confiante, e voltou a dormir com um sorriso de esperança no rosto.
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