Capítulo I

2411 Palavras
Melina  Eu gostava de acreditar que todos nós éramos destinados a algo. Algo que fugia do nosso controle, que já estava escrito na nossa história antes que nós viéssemos ao mundo. Eu preferia acreditar que deveríamos ser bons, para mudar um destino r**m e que precisávamos fazer algo muito m*l, para jogarmos um destino bom no lixo. Não sei se eu vinha sendo, suficientemente, uma boa garota. Porque o meu destino havia chegado. E ele era nosso, meu e de Tyler. Eu não me revoltei, acho que isso já seria prova suficiente, do meu esforço em tentar fazer a coisa certa, em respeitar os meus pais, mesmo quando eu sabia que eles estavam errados, quando tinham sido invasivos ao ponto de tomarem decisões que afetavam diretamente a minha vida. Eles fizeram algo que deu errado e eu pagaria o preço, a punição era minha. Estava longe de ser justo. Ainda assim, eu aceitei. Eu me acostumei com aquela possibilidade. Afinal, era o meu destino. Eu não me mantive de braços cruzados, eu demonstrava o quão insatisfeita eu estava, eu dizia que aquilo tudo era uma loucura. Mas eu nunca cogitei não fazer, eu nunca deixaria os meus pais na mão. Poderia soar como ingenuidade, mas eu nunca demonstrava a insegurança e o desapontamento com o casamento. Por um período eu até gostei da hipótese, mas eu era apenas uma criança quando descobri, era normal que parecesse um conto de fadas, quando na realidade estava mais próximo de ser um pesadelo, um filme de terror. Eu sabia que o subconsciente dos meus pais já era duro demais com eles, percebia como eles pareciam tristes e arrependidos. Eu não queria ser mais uma a esfregar o erro que cometeram na cara deles, mas não posso mentir, aconteceu: em alguns momentos de revolta, de desespero, eu não pensei duas vezes antes de culpar os meus pais pelo meu trágico destino. A data do casamento se aproximava, Tyler voltaria para Los Angeles em breve. Enquanto isso, nós continuávamos a nos falar numa dinâmica muito seca, breve e impessoal, o que não ajudava em nada na minha tranquilidade. Eu me culpava diariamente por esconder a verdade dos meus amigos. Me tornei uma mentirosa, talvez a pior de Calabasas. E eu nem estava mentindo, teoricamente. Eu não mentia quando dizia ter um noivo, que me casaria em breve. Eu podia não estar apaixonada, mas eu nunca disse estar. Quando Tyler foi embora, nós éramos muito novos para termos uma perceção sólida sobre relacionamentos. Eu o considerava como um irmão para mim, portanto, saber que nos casaríamos foi um baque. Apesar disso, com o amadurecimento da ideia, eu passei a gostar da possibilidade. Obviamente, isso não durou muito tempo, conforme eu crescia e perdíamos o contato, passei a perceber que aquilo não era tão comum ou bom, mas me conformei. Tyler se revoltou e passou os últimos muitos anos dessa forma, desde que a magia terminou, até os dias de hoje. E eu só descobri isso recentemente. Pelos últimos dois anos, imaginei que Tyler estava tão conformado quanto eu. Eu vivia em celibato, pelos últimos vinte e quatro meses, desde que começamos a fingir um relacionamento. Me mantive fiel, como mandava o figurino, esperando que o meu noivo mantivesse a mesma consideração por mim e não manchasse a minha imagem com o título de mulher traída. E por mais difícil que fosse manter a lealdade num relacionamento onde não existia laço, nem de maneira emocional, muito menos fisicamente, não deixava de ser um sinal de respeito mútuo. Os meus pais me diziam para aproveitar a adolescência. Provavelmente foi o momento da minha vida em que mais fui feliz, pude viver, criar asas e ter espaço para voar. Conquistei todas as experiências que eu desejaria ter vivido, antes de me casar. Me aventurei, viajei pelo Brasil com a minha família materna, passei um ano morando em Roma com os meus avós paternos, estudei em uma escola viajante, durante o ensino médio, viajando por todos os continentes. Sair da Califórnia foi a melhor coisa que eu fiz nessa época, o meu ambiente escolar não era o mais saudável e viver longe daqui me permitiu desenvolver como ser humano. Se antes a minha má relação com outros californianos da minha idade era apenas uma hipótese, agora como jovem adulta eu tinha certeza. Eu tinha amigos, Cara era a única que tinha a minha total confiança, mas Dom e Ethan eram próximos e bons amigos. Eu estava longe de ser popular, apesar de ser conhecida por todos ali. Eu estudava na UCLA, era uma grande universidade de renome. A turma de direito era grande, mas nós tínhamos contato com pessoas de outros turnos. Apesar de não ter i********e com mais do que os meus três amigos, eu sabia que toda a faculdade tinha os olhos voltados para mim. Eu já estava há dois anos na faculdade, quando comecei a fingir estar num relacionamento. Os meus pais e de Tyler acharam melhor que fingíssemos por bastante tempo, antes do casamento, para que ninguém pudesse pensar que aquela era uma união fingida ou realizada por impulso. Nós tínhamos certa visibilidade na mídia, o que era uma das minhas maiores preocupações. Éramos observados, eu tinha medo do que podiam descobrir, de apontarem uma possível traição, por exemplo. A família Brunet vivia de forma mais privada, desde a mudança para a Europa. Por isso não especulavam sobre a vida de Tyler, como faziam como a minha. Eu fiz tudo o que foi pedido, disse para os meus colegas de faculdade que estava conhecendo melhor alguém, começando a usar essa desculpa em festas, como justificativa para não ficar com outros caras. Assim, a notícia se espalhou pelo campus, como eu imaginei que aconteceria. Depois de uma viagem para a França, onde não encontrei Tyler, fingi ter iniciado um namoro a distância, já dando pistas de que o meu então namorado vivia em Paris, onde eu havia me hospedado. Imaginei que logo associariam o meu relacionamento ao meu amigo de infância, mas pelo contrário, começaram a dizer que eu havia me encontrado com ele e com a sua namorada e, na volta para casa, decidi fingir também estar namorando para não sair por baixo. Eu imaginei que teria a oportunidade de encontrar com Tyler no verão seguinte, mas não aconteceu, mais uma vez. Os seus pais chegaram em Los Angeles alegando que ele precisou ficar na Europa, para um curso extra do seu intercâmbio na Alemanha. Eu sabia serem todas desculpas que Tyler arrumava para não me ver, ninguém me convenceria do contrário. Eu me casaria com um homem que não fez questão de manter contato comigo, durante os últimos anos. Ele não parecia fazer questão de me reencontrar, para termos a possibilidade de criarmos laços de i********e, antes do casamento. Naquele tempo, eu não sabia da sua revolta, portanto não entendi a sua fuga indiscreta. Eu me afastei cada vez mais das redes sociais, as tão comuns postagens em festas, praias e momentos de diversão, no meu período fora dos Estados Unidos, pouco a pouco deixaram de existir, depois da minha volta para o país e principalmente depois do início da minha farsa de relacionamento. Eu não tinha nenhuma vontade de manter um compromisso sério com alguém, durante a minha fase mais festeira. Isso se refletiu nos boatos, quando eu afirmei estar namorando a distância, com um cara secreto. Eu entendia as desconfianças, mas havia um abismo entre achar estranho e criar boatos maldosos. Tudo piorou quando eu desapareci por um verão inteiro. Eu disse que estava na França e não dei mais sinais de vida, quando na verdade eu passei as férias trancada dentro da casa dos meus pais. As fofocas se tornaram tão grandes que até os meus amigos passaram a desconfiar de mim, eu sabia disso, por mais que eles tentassem disfarçar. Eu já não tinha muitos, esse foi o motivo que me fez manter contato com apenas três pessoas da faculdade, a partir de então: Cara, Ethan e Dom. Os boatos eram tão grandes que o que saía da minha boca se perdia, acho que nem eu conseguia mais separar o que disse e o que criaram. Falaram até que eu estava frequentando uma igreja rígida, vivendo um processo para "me tornar pura novamente", mas que eu tinha vergonha em admitir, por isso vinha fingindo um namoro. Também falaram que eu estava grávida e não sabia quem era o pai, contraditório, eu sei. Mas a maioria dos meus colegas de faculdade concordaram em acreditar que o meu namoro foi inventado para competir com a minha "paixão de infância" e o seu mais novo relacionamento. Me chamaram de invejosa, disseram que eu não havia superado Tyler e que não o queria namorando com outra, que eu não aceitava o seu relacionamento sério e privado. Como era ridiculamente mais difícil ser mulher do que homem! Ele nunca teria a sua palavra posta a prova, como acontecia comigo o tempo inteiro. E se isso era o que eu sabia, não conseguia nem imaginar as coisas piores que foram inventadas no meu nome e que não chegaram aos meus ouvidos. Era ridículo, mas ao menos os meus amigos acreditavam em mim. Nas épocas de fim de ano, fui para o Brasil e tive que fingir estar com ele no país, assim como também simulei o pedido de casamento. A foto do anel de noivado que foi parar na internet tinha somente a minha mão e o mistério seria com quem eu ia me casar e porque eu havia escondido a identidade do meu noivo pelos últimos dois anos. Quer dizer, os que acreditavam que ele existia pensavam assim, os outros provavelmente achavam que eu era uma doida levando uma farsa adiante. E bem, a carapuça serviu direitinho. Eu realmente era isso tudo que diziam por aí: uma doida levando uma farsa adiante, só não da maneira como eles imaginavam que as coisas tinham acontecido. E o meu noivo era quem eles menos esperavam: Tyler, o homem que para eles originou toda a farsa, a minha paixão m*l resolvida de infância. Eu odiava dar satisfações, mas sabia que precisava disso, se quisesse que, minimamente, acreditassem na veracidade do nosso relacionamento, pelo menos depois que descobrissem a identidade do noivo. Por isso, tentei explicar que decidimos nos casar naquele momento devido à distância, queríamos acabar com ela e nos amávamos demais para continuarmos separados por um oceano, quando podíamos estar juntos. Disse querer privacidade e que todos saberiam quem ele era em breve. Apesar disso, os veículos de notícias colocavam Tyler como uma possibilidade, mesmo que distante, pelas minhas últimas viagens até a França, mas não demos nenhum tipo de pronunciamento ou confirmação. A mídia era machista o suficiente para acreditar que Tyler estava vivendo um relacionamento privado (e que era impossível que fosse comigo), porque eu era a garota desequilibrada que estava tentando competir com ele e me casar antes, isso é, se eu conseguisse arranjar um noivo para colocar no altar. Eles não diziam o que pensavam com todas as palavras, entretanto. Os meus colegas da faculdade não precisavam se fingir de educados, diziam para quem quisesse ouvir que eu estava ficando louca. Eu me sentia mais humilhada a cada dia que passava, só aguentava aquilo pelo meu projeto de vingança pessoal. Eu queria ter o prazer de observar a reação deles, quando descobrissem que o meu noivo era Tyler. E ele não deveria saber de nada, Tyler provavelmente não fazia ideia de tudo o que eu estava passando, para sustentar a mentira do nosso relacionamento. Eu sabia que até mesmo os meus amigos tinham certa desconfiança, depois que comecei a falar de casamento. E tudo bem, talvez eles apenas me conhecessem o suficiente para perceberem quando eu estava mentindo, mas era tão doloroso saber que nem mesmo os seus amigos acreditam na sua palavra (mesmo que talvez, depois de tantas mentiras, eu não fosse realmente digna da lealdade dos deles). Eu não tinha, internamente, moral para exigir que eles acreditassem em mim, então fazia o máximo que conseguia, que podia: dar o meu melhor nas aulas online de teatro, que comecei a fazer assim que entrei na faculdade, e mentir da maneira mais profissional que eu conseguia. Mentira em cima de mentira, até formar uma bola de neve. Tudo poderia ter sido diferente, a humilhação cultivada pelos meus colegas de faculdade não teria existido, se Tyler tivesse passado ao menos algumas horas ao meu lado, nesses últimos dois anos. Uma foto de nós dois poderia reduzir os meus problemas pela metade. Mas ele não estava disposto a isso e, provavelmente, nem sabia do meu sofrimento. Ele parecia não querer facilitar a história do casamento, o que eu entendia bem, já que também agiria dessa maneira se fosse um pouco mais corajosa. E não era como se eu pudesse revelar para todo mundo que ele era o meu “namorado”, se já achavam que eu estava mentindo, usando um nome genérico, imaginem o que não aconteceria comigo se eu afirmasse com todas as letras que o cara que dizem que eu persigo, na verdade, namorava comigo? Quando eu falei que a data do casamento já estava marcada e os convites seriam entregues em breve, comecei a ser realmente atacada pelas pessoas que estudavam comigo e até mesmo pela internet. Pensei que não aguentaria a barra, eu me sentia mais fraca a cada dia e lutava para não demonstrar para os meus pais, para que eles não se sentissem ainda mais culpados por tudo o que me fizeram passar. Eu tive que preparar um casamento sozinha, evitava pedir a ajuda de Tyler e quando o fazia, era para que ele pudesse dar a sua opinião em pontos de extrema importância, como o local e o horário do casamento. Todas as milhares de pequenas decisões, eu tomei sozinha. Eu estava lidando com muitas responsabilidades a serem cumpridas, com pressão. E Tyler, enquanto isso, só voltaria para Los Angeles três dias antes do nosso aniversário, pouco mais de uma semana antes da data do casamento. Enquanto isso, todos se perguntavam se existiria mesmo casamento (e noivo), já que nem os convites haviam sido enviados ainda, para não revelarem o mistério da identidade do noivo. O que eu podia esperar? Só restava que eu me conformasse com o casamento e montasse o plano perfeito, para a chegada do meu noivo, porque por enquanto, as coisas estavam nas minhas mãos.
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