Capítulo III

1267 Palavras
Tyler Algo mudou em mim, no momento em que entrei num avião e parti, sem saber quando e se voltaria algum dia. Nem nos meus piores sonhos, eu imaginei que demoraria tanto tempo até que eu finalmente voltasse a pisar em terras californianas. Que dirá pensei que eu fugiria por anos da pessoa que um dia foi o meu único motivo para querer ficar. Quando mais novo, eu não quis ir embora. Eu não queria estar num lugar onde Melina não podia estar. Pensei que não saberia viver sem ela, mas que ela se adaptaria a minha ausência. Nós éramos um conjunto, ela o cérebro, eu o coração. Ela era a cabeça da operação e quando eu fui embora, tive que aprender a liderar sozinho. Melina se saiu bem, muito melhor que eu! Ela era a minha inspiração para ser melhor, em todos os sentidos. Foi platônico, bobo e infantil, mas foi o sentimento mais profundo e verdadeiro que eu pude vivenciar. E eu pensei ter superado, ter me tornado uma unidade independente, mas quando eu a vi, foi como se o chão tivesse voltado a estar abaixo dos meus pés, como se nos últimos anos, eu estivesse sem rumo, flutuando pela atmosfera. Era como estar de volta a casa. O primeiro toque dos nossos corpos foi o encontro da minha mão na sua cintura. Desesperador, eu precisava aproximá-la de mim, encurtar as nossas corridas com direção ao outro. O meu braço rapidamente estava em volta do seu corpo, depois o outro, um abraço ansioso, um choque que arrepiou todos os pelos do meu corpo. Não sabia o que seria de nós, não entendia a aceitação dela, perante ao acordo. Ainda não tinha uma certeza de como agir, mas estar perto dela aumentava a minha tolerância àquela obrigação imposta pelos nossos pais. Melina. Era apenas por ela, que eu faria aquilo. Era em respeito e carinho a ela, que eu me submeteria a um casamento forçado. O planeta parecia ter parado de girar, mas assim que os meus dois braços se fecharam, no entorno da cintura de Melina, eu senti o peso das suas mãos nos meus ombros, pegando impulso, enquanto as suas pernas se enroscaram envolta do meu corpo. Em um gesto automático, desci as minhas mãos para as suas coxas, para evitar que ela escorregasse para fora do meu corpo. Senti os dedos de Melina por entre os meus cabelos e foi impossível não comparar aquele toque ao último e inocente abraço que trocamos, anos atrás. Ela não era a mesma, eu também não. Éramos adultos que, infelizmente, não tiveram a oportunidade de estarem juntos, enquanto cresciam. Talvez, em outro cenário, poderíamos estar nos encaminhando para um casamento de verdade, mas esse não era o caso. E não acho que nós permitiríamos que se tornasse, não depois da obrigação ofertada por nossos pais. Eu coloquei Melina de volta no chão. Um choque nos afetou, nós dois sabíamos o que precisava ser feito. Muitos celulares apontavam na nossa direção, haviam paparazzis. As nossas mães já tinham ditado as ordens por mensagem, não poderíamos deixar espaço para dúvidas e, bem, uma conversa não era o que precisávamos, naquele momento. O que um casal, desesperadamente apaixonado, faria, logo após um reencontro? Se beijaria. O que dois amigos fariam, depois de um reencontro e um abraço? Conversariam. E, naquele momento, precisávamos provar para todos que eu não era o amigo de infância de Melina, chegando na cidade para ser o seu padrinho de casamento. Não podiam continuar achando que ela estava inventando uma história, por inveja do meu suposto relacionamento. E mais uma vez, Melina era a razão. Eu ainda sentia a revolta correr pelos meus poros, eu ainda enfrentaria os meus pais e o porquê das suas decisões ruins gerarem consequências para mim. Mas naquele momento, eu os obedeceria, faria aquilo para calar a boca de todos, para que pagassem por humilharem Melina por tanto tempo. Eu não queria aquilo, mas eu sabia que precisava. Ela também sabia, eu podia enxergar isso na profundidade dos seus olhos verdes. Todos esperavam por aquele momento, eu percebi isso assim que nos afastamos do abraço. Era a hora da verdade, os rostos com expressões de dúvida, de todas aquelas pessoas, deixava claro: estavam tentando descobrir se eu era o amigo ou o noivo. E eles pareciam chocados, com qualquer uma das duas hipóteses. Então para aqueles que pareciam esperar tão pouco de Melina, nós ofereceríamos a resposta mais surpreendente. Era hora do show! Fechei os meus olhos, quando abaixei a minha cabeça, para encostar a minha testa na de Melina. Ela parecia alta, talvez um metro e setenta de altura, o que ainda a deixava bons vinte centímetros abaixo de mim. Abri uma fresta dos meus olhos, reparando que ela havia ficado na ponta dos pés e, por conta daquele ato, os seus lábios estavam mais próximos dos meus. As nossas respirações se cruzaram, eu podia sentir toda a tensão no corpo da minha noiva. Nenhum de nós parecia ter coragem para dar o próximo passo. Deveríamos ter nos visto antes, a culpa era toda minha. Vozes surgiram na minha mente, pisquei os olhos confusos pelas informações que surgiram ao meu cérebro, tão de repente. Lembrei-me de uma conversa dos meus pais, foi escutando atrás da porta, que descobri a diferença entra a minha situação e a da minha futura esposa. Acreditavam na minha palavra, mesmo sem provas, porque eu era homem. Ela, como mulher, era vista como a doida obcecada. “Ela está arrasada, Joseph” a minha mãe dizia. “Continuam desacreditando nela?” Meu pai a questionou. “Sim, continuam achando que ela inventou que está namorando, tudo para competir com Tyler” "Acreditam no relacionamento de Tyler?" Ele voltou a perguntar. "Acreditam, mas acham que ela é não superou uma paixão de infância e que agora está fazendo isso para tentar acabar com o relacionamento dele, para tentar tê-lo de volta" "Mas os amigos de Tyler imaginam que Melina seja a sua noiva, como podem os amigos dela pensarem diferente?" "Não são os amigos dela, é todo o resto. A faculdade inteira, a mídia. Acham que ela é obcecada por ele." Agora, olhando para todas aquelas pessoas que nos cercavam, como se esperassem num circo, para assistirem ao palhaço fazer o seu espetáculo, a diferença se materializou. Eu consegui ver maldade na forma como algumas das pessoas na nossa volta olhavam para ela, como se a mentira dela estivesse prestes a desmoronar. Mas eu não permitiria, eu jamais deixaria que alguém fizesse aquilo com Melina. Eles estavam dispostos a humilhá-la, a qualquer custo. Foi isso que tentaram fazer, no segundo seguinte: — O seu “noivo” não vai gostar de assistir esse vídeo, Melina —Ouvi alguém gritar na nossa direção, com a voz lotada de sarcasmo e ironia, mas não daria palco para aquela idiotice. Eu a protegeria, como ela fazia comigo, na nossa infância. Tomei coragem e juntei todas as pequenas porções de impulsividade espalhadas pelo meu ser, eu faria o que eu tinha que fazer. Mais que isso, eu faria o que eu precisava fazer, naquele exato momento. Coloquei a minha mão no pescoço de Melina, permitindo que a ponta do meu polegar encostasse no seu queixo. Olhei nos seus olhos e tentei lê-los, como havia feito segundos atrás. Não obtive resposta, recebi um curto e fraco aceno de cabeça, no lugar disso. Não pensei duas vezes, porque se tivesse pensado, talvez abortaria a missão antes de completá-la. Soltei o ar mais uma vez e então grudei os lábios de Melina nos meus.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR