Gente, obrigada por acompanharem meu livro meu recomeço no morro, agora acompanhem Maktub. Uma saga que irá te enlouquecer!!!!
Características dos personagens:
Heloísa: Loira bem loira mesmo, branca, olhos azuis, magrinha.
Geovana: cabelo cacheado até a cintura, olhos castanhos e corpão, morena.
Laura: Cabelo preto até a cintura, olhos preto, morena e corpão.
Pk: Loiro, branco, tatuagens pelo corpo, olhos verdes e magro.
Ph: Preto, cabelo na régua, olhos preto, corpo definido.
Lucas: Preto, cabelo liso, olhos castanho escuro e corpo musculoso, tatuagens por todo o corpo.
~ Heloísa Mattos Narrando ~
(3 anos atrás)
Me sinto sozinha, perdida, abandonada, ela me deixou.
Eu só tenho 14 anos, como ela teve essa audácia?
De quem eu to falando? Daquela que dizia ser a minha "mãe", ela foi embora. Me deixou com a minha irmã recém nascida e foi embora.
Ela não me deu explicações, ela simplesmente foi.
Eu não trabalho, eu só estudo. Como vou sustentar uma criança de 1 mês? Como vou pagar essas contas? Como nós vamos viver?
Me sento naquele sofá com aquele bilhete miserável nas mãos que simplesmente dizia:
"Não me odeie, mas não posso ficar. Amo vocês e sempre vou amar.
Bjs Mamãe"
Uma lágrima cai pelo lado direito do meu rosto, imediatamente logo outras caiem sem que eu ao menos impeça.
Abaixo a cabeça e a única coisa que sei fazer é chorar, dói, dói demais, dói como nunca me doeu antes. Dói por que ela dizia que nunca iria nos abandonar, mesmo depois que o papai tinha morrido e que só tenha ficado nós três.
O papai morreu quando minha mãe estava grávida ainda, ela estava completando seus sete meses de gravidez quando recebemos a notícia de que o papai tinha sido morto. A Polícia invadiu o morro e levou o que eu tinha de mais precioso. O meu pai.
E agora minha "mãe" faz isso?
Ela sabia que eu não sabia nem cuidar de mim direito, que eu não tinha responsabilidade alguma. O que as pessoas vão dizer? O que eu vou fazer?
É tão angustiante se sentir sozinha, é tão angustiante precisar de alguém.
Levanto a cabeça, seco as lágrimas, respiro bem fundo e olho pro pacotinho bem na minha frente. Busco forças de onde não tenho e a pego no colo. Olho pro seu rostinho, a abraço e recebo um sorrisinho banguela e fraquinho.
Sorrio, olho para dentro dos seus olhos mais uma vez, e sussurro prometendo:
'' Agora somos só nos duas, e eu te prometo que tentarei fazer de tudo pra te fazer feliz. "
(...)
ATUALMENTE.
Heloísa: Ana Júlia tira sua mão daí.. - falo a pegando no colo e colocando-a no sofá pela terceira vez. Essa garotinha é impossível, cada dia mais esperta e desobediente.
Faço cosquinhas na mesma e ela gargalha alto me tirando boas risadas também.
Ana Júlia: Pala mamãe. - ela diz e eu paro sorrindo. - A senhola ganhou, vou dicar quetinha mamãe. - ela sorri.
Pego um brinquedo no chão e entrego pra ela e volto a arrumar a casa.
Nesses 3 anos que passaram, foram os 3 anos mais difíceis da minha vida. Eu tive que me acostumar com uma vida que eu não tinha, uma vida totalmente nova.
Tive que aprender a cuidar de um neném recém nascido, aprender a fazer comida e limpar a casa.
Tive que aprender a trabalhar e conciliar os estudos juntos.
Tive resiliência e aprendi a amar a Ana Júlia mais do que a mim mesma.
No dia seguinte que aquela mulher me deixou eu fui na escola e conversei com a diretora que me entendeu perfeitamente. Contei todos os detalhes e tudo o que aconteceu, ela deixou eu fazer um supletivo e terminar os estudos.
No mesmo dia sai atrás de um emprego e consegui na lojinha de roupas da dona Margarida, que se tornou uma mãe pra mim. Virei melhor amiga da filha dela, a Laura. Ela é mais velha que eu, ela me ajudou demais, cuidava da Júlia quando eu não podia. Quando eu tinha que fazer hora extra ou até mesmo prova no supletivo ela que cuidava da Júlia. Ela se tornou uma irmã pra mim.
Conheci também o Ph, o Pedro Henrique. Ele é braço direito do dono e do sub dono do morro à qual eu nem conheço. Só ouço falar.
O Pedro Henrique me ajudou por demais, e continua me ajudando.
Ele me acolheu na casa dele, sim eu fui despejada da minha própria casa. Como? A mulher que se dizia minha mãe, fez a p***a de um documento onde dizia que aquela casa não me pertencia mais.
A dona Margarida não podia me receber na sua casa por conta do marido bêbado dela. Foi quando conheci o Ph.
Estava eu e Júlia, debaixo de uma marquês embaixo de chuva e ele passou. Parou, e me levou pra casa dele. No início eu disse que só ia ficar por um mês, que era quando eu recebia o meu primeiro salário, e iria embora de lá.
Depois de 1 semana morando com ele, ele me fez prometer que não iria embora nunca. Ele tinha se apegado à mim e a Júlia, ele dizia que eu e ela era a vida dele. Que eu e ela trouxe alegria, paz e tudo oque restava pra ele.
Ele nos deu roupa, casa, comida e tudo que faltava. E quando eu ia dar um dinheiro pra ele, ele dizia que não precisava por que a recompensa dele era ver eu e a Júlia feliz.
Ele me adotou como irmã e a Júlia como filha, dá pra entender? A Júlia chama ele de pai e eu de mãe, o morro inteiro pensa que eu e ele tem um caso, ou algo do tipo. Mas, se soubessem a verdadeira história por trás disso tudo.
A última pessoa que eu conheci foi a Geo, a Geovana. Ela fez supletivo comigo e quando eu contei minha história pra ela, ela chorou. Ela me contou a história dela também mas vocês só vão saber quando ela contar. Ela também se tornou uma irmã pra mim, e hoje eu posso dizer que mesmo que a vida tenha me tirado 2 pessoas que eu amava por demais, eu ganhei 4 pessoas ao qual não troco por nada.
Ana Júlia, Laura, Pedro Henrique e Geovana. ❤
☆☆☆☆☆☆☆☆☆
~ Gabriel/Pk Narrando ~
(3 anos atrás)
Aqui estou eu, com o meu pai nos braços, rodeado de sangue. Os bota subiu e tudo foi tão rápido, atiraram nele 3 vezes. 1 tiro na perna, 1 no abdômen e outro no peito.
Ele me olhava, com o olhar que ele sempre teve. Olhar de respeito, afeto, carinho e acima de tudo AMOR.
Observava ele dar os suspiros que ficavam cada vez mais difíceis de sair, quando ele me chamou.
Pai do Gabriel: Filho?.. - me aproximei mais ainda dele.. - Eu te amo, promete ser forte? Agora só restou você.
Uma lágrima caiu dos seus olhos, e então uma caiu do meu e logo em seguida várias outras.
Gabriel/Pk: Eu vou ser forte pai.. - respirei fundo tentando parar de chorar.. - Prometo aguentar a barra, o medo e até quando a tristeza bater, eu vou ser forte. Mas promete que vai estar olhando por mim? Promete que nao vai me deixar sozinho em nenhum momento?.. - ele assentiu.. - Como eu vou viver sem você pai? Como? - o abracei e chorei mais ainda.. - Eu te amo pai, me perdoa por todas as nossas brigas por favor.. - ele nos separou.
Pai do Gabriel: Eu te amo filho e pra sempre vou te amar.. - e então seus olhos se fecharam.
E eu? Eu fiquei ali ajoelhado, gritando com toda a força que tinha. Me permitindo sentir a dor de ter meu pai arrancado de mim desse jeito.
Ah muito tempo eu não chorava ou gritava desse jeito. Nunca tive mãe por que ela morreu no meu parto, então sou filho único.
Tenho os meus parças mas ninguém se compara ao meu pai, que agora está aqui, morto.
Me permito gritar mais uma vez, me permito sentir aquela dor, nunca sentida antes. Afinal, a dor precisa ser sentida.
Me levanto daquele chão gelado, peço pra retirarem o corpo dele e prepararem o funeral.
Mandei ter luto na favela por 3 dias, ninguém entra e ninguém sai. Mandei fecharem todas as lojas e só seriam abertas após esses 3 dias de luto. Mandei fazer um enterro digno à todos que morreram nessa invasão. E no final, pedi aos céus pra aquela dor sair de mim.
Fui direto pra casa e vi a Letícia arrumando as malas, ela era minha mulher. Estávamos juntos à 1 ano, e agora ela vai me deixar quando eu mais preciso dela?
Puxo ela pelos braços e olho dentro dos seus olhos.
Gabriel/Pk: Pra onde você vai amor? - ela dá um sorriso de lado.
Letícia: Pra onde eu vou? Eu vou embora Pk, a casa caiu. - olho pra ela sem acreditar a soltando.
Gabriel/Pk: Como é que é? Você vai me deixar logo agora? Você não pode fazer isso com o nosso amor não! - digo meio exaltado.
Letícia: Que amor Pk? Amor ao dinheiro que você me dava? Pelo amor de Deus, como você pode ser tão burro? Eu amava teu dinheiro, e agora que teu pai caiu esse morro vai cair junto, e não pense que eu vou ficar aqui pra te visitar em prisão, por que eu não vou! - ela falava enquanto colocava as coisas na mala.
Gabriel/Pk: Amor, vamos conversar. Eu preciso de você. - falei tentando abraçar ela que na mesma hora me empurrou.
Letícia: SAAAAAI.. - gritou me fazendo olhar pra ela assustado. - Eu tenho nojo de você, não sei como aguentei ficar contigo todos esses anos. - mais uma vez, me encontrei chorando.. - aaah agora o bebezinho vai chorar? Que pena, estou indo embora baby.. - fechou as malas e se foi.
Sentei no sofá vendo tudo rodar, com sangue nos olhos. Meu pai morreu e no mesmo dia a mulher que dizia me amar, vai embora, dizendo que só amou o meu dinheiro.
Minhas mãos tremem de ódio e raiva, meu maxilar fica duro e meu rosto se fecha, as lágrimas secam rapidamente.
Pk bonzinho me dá um adeus, e o Pk demônio me dá um Olá.
(ATUALMENTE)
3 ANOS DEPOIS.
Gabriel/Pk: Rala.. - mandei a p**a sair do escritório assim que acabou de fazer o que sabe.
Minha vida tem sido assim, escura, sombria e sem alegria alguma.
Tenho meus manos que me ajudaram a reerguer e a reconstruir tudo o que tenho hoje, O Lucas e o Pedro Henrique mais conhecidos como Lc e Ph. Eles foram o que mais me fortaleceram depois da morte do meu pai e o abandono da Letícia.
Por falar nela, nunca mais ouvi nada sobre ela. Nem se ela está viva ou morta, e agradeço por isso.
Me fechei e me tranquei pro tal do "amor", não que eu não acredite mais nele, só não acredito mais nas pessoas.
Os únicos que vêem meu lado bonzinho são o Lc e Ph. Pro resto, eu sou o próprio demônio.
Quando as pessoas me vêem, elas abaixam a cabeça, foge, mudam até de calçada.
Saio comendo geral, mas sem amor nenhum. Apenas por t***o. Depois que a vagabunda da Letícia me deixou, prometi a mim mesmo que nunca mais me apaixonaria ou amaria alguém.
Já me olhei diversas vezes no espelho, não me reconheço mais. Depois daquele dia trágico eu nunca mais chorei. Nunca mais.
Eu era uma pessoa boa, aliás, uma pessoa ótima. Sorria, brincava com todos, deixava me levar pela compaixão. Não que hoje em dia eu não seja bom com os moradores, quando alguém me procura com necessidades eu ajudo e tals. No Morro eu fiz creche, hospital e os c*****o a quatro, mas não me socializo com ninguém mais.
Hoje eu mato sem dó sem piedade, hoje nada mais importa à não ser eu.
Hoje passo por cima de todos, e a única coisa que importa é a minha opinião.
Às vezes olho pros meus amigos, Lc e Ph.
Lc com toda à história dele, todo sofrimento dele continua a mesma pessoa. O mesmo ser humano bom.
O ph então nem se fale. O ph ja sofreu tanta coisa nessa vida, mas mesmo assim, no pior dia da vida dele, eu vi ele ajudando uma menina e uma bebê de colo. Hoje em dia ele trata a menina como irmã e a neném como filha. Quase nunca vejo elas na rua, em três anos só vi 3 vezes. O cuidado que ele tem com elas é sensacional.
E eu me tornei a pessoa mais sombria que já pude conhecer, vivendo um dia de cada vez, apenas esperando a morte.
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~ Laura narrando ~
(3 anos atrás)
Tudo mudou à 1 semana atrás quando ele perdeu o emprego e se viu bêbado no bar.
Ele chegou e o inferno começou, eu não pude nem ao menos defender a minha mãe. Eu tenho 1,70m, mas ele tem 2m. A força dele é mil vezes maior que a minha.
Eu nunca vi ele desse jeito, ele sempre foi o meu herói, meu anjo da guarda, o meu bem maior sabe? Mas é incrível como tudo pode mudar de uma hora pra outra.
Agora, trancada dentro do quarto, escutando os gritos da mulher que eu amo, escutando o choro desesperado da mulher que me criou, ela está apanhando só por que não passou o pano no chão hoje.
Apesar de tudo eu sei que amanhã ela estará com um sorriso no rosto, com uma maquiagem bem feita e a tristeza terá sumido com um passe de mágica.
Eu só quero dormir e não acordar mais para não precisar vê-la chorar. Uma sensação de incapacidade toma o meu corpo por completo me fazendo chorar como uma criança que acabou de perder o seu doce.
Eu nunca fui e nunca vou ser uma pessoa r**m, sou uma pessoa doce, amigável até demais e sempre fui feliz, até uma semana atrás.
Nunca fiz m*l pra ninguém, e não sei sinceramente até quando vou aguentar isso.
Às vezes me pego pensando por que minha mãe não se separa? Por que ela não manda meu pai ir embora, mas logo mando esses pensamentos embora e lembro do que ela sempre me diz:
"Eu amo ele acima de tudo e mantenho a fé de que ele volte à ser como era antes."
Os gritos e choros da minha mãe se cessam, ouço o estrondo do portão e então me dou conta de que ele voltou pra rua.
Saio do quarto e vou socorrer a minha mãe, com a esperança de que isso acabe.
ATUALMENTE
(3 ANOS DEPOIS)
Laura: Tchau gato.. - bato a porta do carro e entro pra dentro de casa olhando no celular a hora que ia dar, 03:00hrs da manhã. Acho que vou escutar bastante quando acordar.
Nesses 3 anos nada mudou aqui em casa, meu pai continua chegando da rua e espancando a minha mãe. Já intervi várias vezes, teve uma vez que ele quase matou ela. Chamei o Ph pra tirar ele de cima dela, nesse dia nós dormimos em paz. Ele passou o dia no forninho.
Ph é como se fosse um anjo, ele sempre me ajuda quando nao consigo impedir que o pior aconteça e sempre me diz a mesma coisa:
"Isso vai acabar princesa."
O admiro tanto, ele já passou tantas coisas e mesmo assim continua a mesma pessoa.
Já eu mudei demais, achei refúgio nas baladas, nas transas de uma noite. Continuo doce com todo mundo, continuo tratando todo mundo bem, continuo aquela menina boa. Porém, de noite ninguém me reconhece, é como se só encontrasse paz nas baladas, o que não é mentira né? Em casa só tem porrada e gritaria.
Esse foi o meio que eu encontrei de fugir disso tudo. Agora também tenho 2 irmãs, a Heloísa e a Geovana. A Heloísa com a irmãzinha dela Ana Júlia me tirou da depressão, porém odeio falar sobre isso. A Geovana sempre me aconselha em tudo o que eu vou fazer. Amo por demais eles 4.
Tenho aquela paixão secreta pelo Lc, mas ele nunca me olhou e nem vai olhar. Então, segue o baile.
Acabo adormecendo com esses pensamentos e acordando com a minha mãe entrando no meu quarto.
Dona Margarida: Chegando tarde de novo, Laura?. - ela se senta na cama ao meu lado e eu percebo o roxo no olho dela. n**o com a cabeça.
Laura: Apanhando de novo dele, mãe? - ela suspira, assentindo.
Dona Margarida: Filha, tenta me entender.. - eu n**o com a cabeça a interrompendo.
Laura: Entender o que mãe? Pelo amor de Deus, vamos dar um jeito nisso. A gente pode chamar o Pk, ele vai resolver. Ele odeia isso. - ela n**a e leva as mãos a cabeça.
Dona Margarida: Tá louca menina? Pk não é o mesmo, ele agora só liga pra ele. - suspiro e reviro os olhos me sentando na cama.. - Eu amo o seu pai, Laura. Apesar de tudo, eu o amo. - respiro fundo, bem fundo pra não perder a paciência.
Laura: Que amor é esse cara? Você tá vendo amor onde não tem mano.. - respiro mais fundo ainda pra não me exaltar.. - Olha é necessário mudança, coloca ele pra fora, dá um basta nisso! - ela desvia os olhos dos meus.
Dona Margarida: Filha você não entende, eu e ele estamos juntos à 20 anos. Tem noção? Eu o amo com todo o meu coração. - ela diz com lágrima nos olhos.
Laura: Você ama o Lucio de 3 anos atrás, você não ama esse bêbado encostado. Você ama os momentos bons que viveu com ele, e agora já se passou 3 anos me diz que momento bom que você viveu? - vejo uma lágrima cair dos olhos dela e seco prontamente.. - Eu não sou boa com conselhos, mas olha pra você, nem sair voce pode mais, não pode mais usar um batom, não pode mais colocar um vestido, isso não é amor! Ele vai acabar te matando. - na mesma hora ela se levanta da cama e me olha.
Dona Margarida: Ele não seria capaz disso, ele me ama! Ele vai mudar. - não aguento e levanto também.
Laura: ESSE CARA MORREU MÃE! - grito com todas as minhas forças e então o silêncio se faz presente. - Você acha que não dói em mim também? Eu era a princesa dele, eu era a filhinha amada dele e agora o que eu sou? - respiro fundo e minha garganta se fecha com o choro entalado querendo sair.. - O que eu sou mãe? - ela desvia o olhar.. - Olha pra mim.. - eu peço e ela continua olhando pro outro lado chorando.. - Olha pra mim mãe.. - peço e então ela olha.. - Você acha que eu não escuto ele abusando de você de madrugada?.. - ela tenta me interromper.. - Não me interrompe, você acha que eu não escuto seus gritos, as porradas que ele te dá? Você acha, mãe? Por que que a senhora acha que eu saio toda vez de madrugada? Eu saio pra fugir desse inferno que é escutar você gritando a noite toda por causa dele. - Uma lágrima escorre dos meus olhos e então ela se senta no chão.
Sento junto com ela e a abraço. Ela chora, chora de soluçar, como se a filha fosse ela e eu a mãe.
Dona Margarida: Eu não sei mais o que fazer, eu não sei.. - sinto minha camiseta que usei na noite anterior, molhar com suas lágrimas.
Laura: Desiste mãe, desiste. - ela n**a com a cabeça ainda chorando. - desistir não é feio. Feio é perder noites de sono, se humilhar por uma atenção, por uma boa noite que nunca, nunca vai chegar.. - respiro fundo.. - Para, por que a partir do momento em que você desistir dele e se sentir sozinha, eu vou estar aqui. Eu te amo mãe.
Ela me aperta naquele abraço e me solta, se levanta e eu me levanto junto com ela.
Dona Margarida: Hoje as coisas vão mudar. - sorriu e saiu do quarto.
*Naquele mesmo dia, 18:00hrs da noite*
Estava tomando um suco de laranja, na sala com a minha mãe, quando ele chega. O cheiro de álcool chega junto com ele. Eu estava com a cabeça apoiada no ombro da minha mãe quando ele nos olhou. Levantei a cabeça rapidamente.
Ele veio pra tentar bater nela e eu segurei com todas as forças que eu tinha a mão dele.
Laura: Você.. - apontei pra ele.. - nunca mais vai encostar a mão nela. - disse com toda a calma do mundo e ele riu.
Lucio: E quem vai me impedir? Você? - eu sorri amargamente, não acredito que o meu pai se tornou esse homem desprezível.
Ele deu um passo na minha direção como se fosse avançar pra cima de mim e eu pude jurar que escutei um gritinho abafado da minha mãe.
Quando ele levantou a mão para me bater a porta se abriu num estrondo.
Ph: Faça isso e voce será um homem morto. - Suspirei aliviada. Eu já tinha mandado uma mensagem pra ele pedindo pra ele vim aqui. - Você está expulso dessa comunidade, se eu ver ou algum vapor ver você olhando pra favela, considere-se um homem morto e enterrado! - Lucio o olhou assustado com aquelas palavras.
Minha mãe não pronunciava uma palavra se quer, eu sabia como estava sendo difícil pra ela.
Ph: Pega tuas coisas e rala. - O ph apontou a arma na direção dele. - ordens do patrão. - Lucio nem fez questão de pegar nada, somente foi embora.
E então pude ouvir o choro abafado da minha mãe, o pesadelo tinha acabado.
Me abaixei e a abracei.
Laura: Mãe acabou seu sofrimento, acabou mãe.. - ela sorriu entre o choro.
Dona Margarida: Obrigada filha, muito obrigada. - secou as lágrimas, sorriu para o Ph e foi pro seu quarto.
Olhei pro Ph ainda parado na porta sorrindo e corri pra abraça-lo.
Ph: Demorei mas cheguei princesa. - sorri.
Laura: E eu nem sei como te agradecer. Muito obrigada, você nos salvou. - ele me apertou mais ainda nos braços dele.
Ph: Eu disse que esse inferno ia acabar. - sorri, agora sim minha vida começou.
♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡
~ PH Narrando ~
(3 anos atrás)
Perder alguém que você ama não se compara com nenhuma dor do mundo, essa dor não tem cura, essa dor não passa por mais que você tente tirar ela do peito.
E eu perdi alguém, quer dizer, eu perdi dois alguém. Pessoas importantes, pessoas que eu amava e amo mais que a mim mesmo.
Não tive tempo de me despedir, não tive tempo pra dizer o quão elas eram importantes e o quão a amavas.
Já imaginou você receber um "Eu te espero amor" e um "Te amo papai" e quando você enfim volta pra casa, elas estão mortas, totalmente cobertas de sangue? Pois é!
Eu to passando por isso tudo e o pior, estou tendo que ser forte.
Parado, encostado naquela parede fria, olho pros dois caixões na minha frente. Minha filha e minha mulher estão mortas.
Eu não tenho reação perante isso, não consigo falar com ninguém, apenas encaro os dois caixões na minha frente e penso que se talvez eu não tivesse saído naquela p***a de invasão elas estariam aqui, elas estariam comigo!
Não consigo mais chorar, todo choro foi derramado ontem ao ver elas no chão. Eu chorei tanto, mas tanto, que acho que nunca mais terei lágrimas em meus olhos.
No velório não tinha ninguém, apenas eu e o padre. As outras famílias estão ocupadas demais cuidando do enterro de seus parentes. Todo mundo perdeu alguém nessa invasão. Meus amigos me deram a moral que eles podiam, aliás eles também perderam alguém.
Me aproximo do caixão da minha mulher e me permito lembrar da sua risada contagiante, me permito lembrar do seu toque quente na minha pele fria, me permito lembrar do seu "Eu te amo preto" toda vez que eu saía pra luta.
Toco sua pele fria, meu corpo se arrepia e mais uma vez me lembro como era amar essa mulher.
Nós dois quase nunca brigava, e quando brigava se resolvia na cama. Com a gente não tinha meio termo, ela sempre mandava em tudo.
Me lembro de cada momento que passei com ela, do nosso primeiro beijo, primeira transa, pedido de namoro e de casamento, a notícia que recebi quando ela tava grávida, a notícia que seria uma menina, e agora a notícia da sua morte.
Me lembro das noites em claro que conversávamos por mensagem, das vezes que eu estava na pior e ela sempre me fazei enxergar o melhor, das risadas que dávamos juntos, das caretas, músicas, sensações e até nos assuntos estranhos.
Lembro da última foto que tiramos juntos, a gente tinha acabado de se arrumar pra ir pro baile. Era noite de comemoração, 4 anos juntos.
Amar ela foi a melhor decisão que eu já tomei em toda a minha vida, eu sempre vou amar ela. Mulher nenhuma vai conseguir substituir o lugar dela, ela sempre será a única!
Me aproximo do rosto dela, agora pálido, e sussurro como se ela pudesse escutar.
Pedro Henrique/Ph: Eu sempre vou te amar. - disse e dei um beijo na testa dela.
Olhei pro caixão da minha filha, minha princesa iria completar 3 aninhos. Meu bem mais precioso foi arrancada de mim dessa forma.
Me aproximo do caixão dela, pego sua mãozinha que antes tão quente e agora mais gelada que um iceberg. Acaricio sua mãozinha, e quando percebo me pego falando em voz alta.
Pedro Henrique/Ph: Perdoa o papai filha, perdoa?.. - minha garganta se fecha e eu imediatamente me privo de chorar.. - Eu não consegui te salvar, eu não consegui ser o seu herói, não consegui esta lá quando você mais precisou de mim. - respiro fundo.. - Eu ainda consigo ouvir você me chamar de papai, dizendo o quanto me amava e que quando você crescesse, você iria se casar comigo. Você dizia que eu era o seu herói, mas eu não consegui te salvar... -.. - Eu amo você pequena, olha por mim aonde você estiver e me acompanhe sempre. - dei um beijo na mãozinha dela e sai daquele lugar.
1 MÊS DEPOIS!
Logo o tempo se fechou e eu corri pra dentro do carro, peguei o celular e pude ver que já estava anoitecendo. Mas quando eu desbloquiei o celular, eu vi a foto dela, eu tinha tirado essa foto antes de sair, gostei tanto que coloquei até de papel de parede. Sorrio e penso que agora só ficará as lembranças boas e saudades.
Bloqueio o celular e começo a dirigir, logo começa a chover e então eu parto pro Morro.
Estava quase chegando em casa quando avistei uma menina magrinha com uma neném no colo, na chuva e embaixo de uma marquês que nao duraria muito tempo com aquela ventania.
Aproximo mais o carro e finalmente paro do seu lado, abaixo o vidro do carro e vejo ela protegendo a neném da chuva.
Pedro Henrique/Ph: Entra no carro. - ela se vira e se assusta negando.. - Eu não vou fazer nada com vocês, entra logo. - peço com a maior calma.
Ela dá a volta no carro protegendo a menina à qualquer custo e entra com apenas uma bolsa.
Pedro Henrique/Ph: Pra onde vocês estão indo? - ela abaixa a cabeça e suspira.
Heloísa: Pra lugar nenhum. - Não entendi.
Pedro Henrique/Ph: Como assim?
Heloísa: Não temos casa, fomos despejada hoje. - ela fala olhando pra neném no colo e se segurando pra não chorar.
Pedro Henrique/Ph: Cadê sua mãe? Você é a mãe dela? - aponto pra neném.
Heloísa: Minha mãe foi embora, e eu não sou mãe dela. Sou apenas a irmã.- ela suspira mais uma vez.. - você pode me levar pra um abrigo?. - ela pede e abaixa o olhar.
Pedro Henrique/Ph: Relaxa que agora eu vou cuidar de vocês. - liguei o carro e fomos embora.
ATUALMENTE
(3 anos depois)
A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi ter conhecido a Heloísa e a Ana Júlia.
Considero a Heloísa minha irmã mais nova e Ana Júlia minha filha. Ela me chama de papai e me faz lembrar de tudo novamente.
Esses anos que passaram muita coisa mudou, mas eu continuei a mesma pessoa de sempre.
Tenho os meus manos e considero pra c*****o a Laura e Geovana que são amigas da Heloísa.
Depois que resolvi o problema da Laura, parti direto pra minha casa e pude sentir o cheiro de comida no portão mesmo.
Ao entrar em casa pude ver uma anã correndo e abrindo os bracinhos.
Ana Júlia: Papaaaaaai.. - ela pula nos meus braços e me faz esquecer totalmente de como o dia foi cansativo renovando minhas forças.
Pedro Henrique/Ph: Oii meu amor, como foi seu dia? - com ela no braço esquerdo, uso a mão direita pra colocar a Glock e a carteira em cima da estante.
Ana Júlia: Mamãe bigou com eu.. - ela sorri..
Pedro Henrique/Ph: O que você aprontou hein? - ela me olha e coloca a mão na boca como se não pudesse contar.
Logo a Heloísa entra na sala me dando um beijo na testa e me fazendo sentar no sofá com ela e a Ana Júlia no colo.
Heloísa: Não vai contar Júlia? Quer que eu conte? - ela negou com a cabeça.
Ana Julia: nada disso mamãe, eu conto. A senhola plecisa palar de se ensselida (enxerida).. - ela fala me fazendo cair na gargalhada junto com a Heloísa.
Continuem lendo que não vão se arrepender, eu garanto juro!