Rubi Narrando
Mais uma noite em claro, trabalhando no bar. Meus pés latejam, formigam, como se agulhas invisíveis perfurassem minha pele a cada passo. Meu coração dispara, descompensado – sei que é o problema que carrego no peito, mas não posso parar. Não tenho escolha. Nunca tive. Desde que meu pai morreu, minha vida virou um inferno.
A grana que ele deixou? Laura queimou tudo. Drogas, bebida, qualquer coisa que a fizesse esquecer da própria miséria. E se eu tentasse falar algo? Vinha discussão, briga, gritaria. Então aprendi a me calar. Preferi correr atrás das minhas coisas sozinha, sem esperar um centavo dela. Sei que nunca daria. Uma viciada em crack só pensa na próxima dose.
Quando viemos parar aqui, no Complexo do Alemão, eu tinha acabado de fazer 18 anos. Foi o ano em que perdi o meu herói. Meu amigo. O único que me dava colo quando minha mãe me virava as costas. Ele era perfeito demais pra esse mundo. Meu coração aperta só de lembrar. A saudade é uma faca enterrada no peito, uma dor que nunca some. Mas a vida é assim. A gente nasce e morre. Aceitar isso não faz doer menos.
Hoje, sei que não tenho mais ninguém além da Thaíse. Ela se tornou minha única amiga, uma das poucas que fiz aqui no bar. Mas me vitimizar? Nunca. Não sou dessas. Aprendi a me trancar na bolha que criei pra mim mesma. Chorar? Só no banheiro. Só quando estou sozinha. Sentada na tampa do vaso, eu deixo tudo escorrer – raiva, frustração, saudade. Mas, quando saio de lá, ninguém vê uma lágrima sequer. Porque pra me fazer chorar na frente dos outros, tem que me quebrar de verdade. E eu não deixo ninguém chegar perto o suficiente pra isso.
Thaise — Ei mocinha, tá perdida nos seus pensamentos é ____ ouço a voz da minha amiga e saio do transe, sentindo meus olhos embaçados, ela percebe que não estou bem e me puxa pra um cantinho mais reservado — O que foi meu amor? Conta pra mim...
— São lembranças, mas fica tranquila que é só uma fase e muito em breve vai passar, sempre passa... ___ digo tentando parecer confiante. Mas na realidade, nem eu mesma sei, se isso realmente vai passar algum dia.
Thaise — É a sua mãe novamente né? ___ pergunta e eu concordo — Amiga, por que você não vem morar comigo no apartamento?
— Eu agradeço muito pela oferta amiga, mas eu realmente não posso, aquela casa é do meu pai, se eu sair de lá, aí sim que a Laura enche de homens e drogas naquele lugar, não posso permitir que ela faça isso... ___ digo passando a mão no rosto e ela comprime os lábios dando de ombros
Thaise — Então eu não sei de que forma te ajudar, sua situação realmente é bem complicada, mas de qualquer forma, você sabe que as portas do apartamento estão abertas pra você, é pequeno, mas nois duas cabe... ___ fala em um tom brincalhão e eu dou risada. — Mas falando sério Rubi, você tem certeza que não quer?
— Realmente Thaíse, você é um anjo na minha vida, mas dessa vez eu tenho que recusar, dar um passo grande desse, seria demais pra mim... ___ digo pensativa e ela concorda. No momento em que ela vai abrir a boca, pra me responder, ouvimos a voz irritante do dono do bar.
Hugo — Rubi... Venha aqui ___ saio de trás da parede e observo o mesmo na minha frente, seu semblante é sério, o que me deixa bastante preocupada.
— Pode falar, Hugo, estou aqui ___ digo colocando as mãos pra trás e ele aperta o olhar pra mim
Hugo — Tem várias mesas lá fora que precisam ser atendidas, se você não quiser perder o dia, faça o favor de ir trabalhar ___ diz ríspido, apontando o dedo pra porta e eu sinto meu sangue ferver de raiva, odeio que falem dessa forma comigo.
— Olha Hugo... ___ digo em um tom alto e ele me encara super bolado, suspiro fundo antes de falar, mas no mesmo momento sinto as mãos da minha amiga me puxando.
Thaise — Indo trabalhar seu Hugo, fica tranquilo ___ diz me arrastando dali sem me deixar responder o Hugo da forma que merecia.
— Cê tá maluca, Thaíse? Eu iria dar uma boa lição naquele metido, chato pra caralhoo pô... ___ digo negando com a cabeça e ela dá uma risada mas alta.
Thaise — Sim, dar uma boa lição e ficar sem emprego né gata, porque você conhece a peça, um tom alto com ele, é rua na certa, e no momento você não está podendo ficar sem trabalhar... ___ fala o óbvio e eu mesmo relutante acabo concordando
— AFF, você tem razão, mas é que esse cara me tira do sério em um nível sem explicação ___ digo um tanto irritada e ela dá risada
Thaise — Amiga, você não está sozinha, eu também não gosto dele, mas temos que aguentar as pontas, porque afinal, é o nosso ganha pão gata, sem isso aqui, estamos ferradas...
— Nem me fala! Só tô esperando o dia de tu arrumar o cabeça branca, o velho da lancha pra te bancar, aí nois pode viajar com o jatinho dele, adianta isso logo ein... ___ digo brincando e ela da risada
Thaise — Calma que ele tá chegando, em breve, aí nossa vida tá feita... _ diz entrando na onda e eu gargalho alto chamando atenção de uma roda de caras — Já que você chamou atenção deles, eles são seus, e eu cuido do balcão... _ fala sorrindo e saindo com pressa
— Rapariga... Deixa sempre o pior pra mim ___ digo mostrando a língua pra ela que manda beijo lá do balcão.
Respiro fundo e sigo no corre, atendendo os clientes no automático, mas um deles não desgruda os olhos de mim. O olhar é descarado, daqueles que atravessam a pele e vão direto pro pensamento. Tá de jaqueta de couro, cabelo castanho escuro, olhar apertadinho e postura largada, como quem já sabe o efeito que causa. E sabe mesmo.
Tem um jeito de cria, malandro nato, sorriso meio torto de quem se diverte vendo as mulheres caírem na teia. Um vagabundo charmoso, do tipo que brinca com fogo e ainda sopra pra chama aumentar. Meu corpo inteiro reage sem permissão, um calor sobe pelas bochechas e se espalha pelo peito.
Será que ele percebeu? Droga. Eu espero que não.Mas, do jeito que ele me olha... Talvez já tenha entendido tudo.
— Mais alguma coisa? ___ digo passando a caneta na boca e todos eles olham pra mim, inclusive o dono do olhar penetrante.
Kiko — Só isso mermo mina ___ fala e eu concordo, viro as costas pra sair, mas paro no mesmo instante que ouço uma voz grossa falando comigo.
Grego — Tu é a filha da Laura num é? Fala tu patricinha ... _ diz sarcástico e eu viro ficando de frente pra mesa deles, percebo ser o mesmo que me deixou encantada — O gato comeu sua língua? Cê mora lá no meu complexo né não_ pergunta rude e eu aperto meus olhos pro mesmo.
— Isso não interessa! Eu estou no meu trabalho, não em uma entrevista pro bolsa família... ___ digo irritada e os meninos que estão com ele, acabam dando risada.
Grego — Coé sua filha da putä, tá de tiração com a minha cara porrä! ___ brada altivo, puxando a cadeira pra trás e levantando, eu permaneço no meu lugar, mesmo sentindo medo não vou demonstrar isso a ele.
Kiko — Calma ae paizão, nois tá no asfalto, vai chamar a atenção se fazer qualquer parada ___ tenta parar o amigo que vem quente na minha direção, mas não adianta, porque quando eu vejo, já estou sendo pressionada na parede e as mãos dele no meu pescoço.
Grego — Cê é muito audaciosa filha da putä, eu não gosto nada disso ___ fala me segurando com firmeza e seus olhos, ah seus olhos, eles fitam os meus tão intensamente que eu fico quase sem fala — Tu tá achando que vai tirar onda com a minha cara porrä?
— Primeiro eu não estou tirando onda com a sua cara, aliás, eu nem te conheço direito___ digo entre os dentes e quando ele vai responder, o amigo dele puxa o mesmo que tira as mãos do meu pescoço mesmo relutante.
Kiko — Bora meter o pé irmão, vão chamar os bota, bora bora ___ fala apreçado e o tal que estava me segurando, parece não sentir medo, ele tira umas notas do bolso e joga em cima da mesa, ainda me olhando com firmeza, ele da as costas e sai do bar, junto com os seus amigos..
Solto o ar pesado, nem tinha me dado conta de que tava prendendo a respiração. Meu peito ofegante o coração ainda martelando depois do que acabou de acontecer. Me aproximo da mesa, pego as notas jogadas ali com a ponta dos dedos e sigo pro caixa, sentindo um par de olhos queimando nas minhas costas....
Hugo.... Ele me vigia como um predador na espreita, sempre esperando uma brecha. Vive dando em cima de mim, mas nunca dei moral. Isso fere o ego dele, e ele desconta do pior jeito: me tratando feito lixo, me jogando mais trabalho que qualquer outra pessoa aqui dentro. Sei bem o jogo sujo que ele faz, mas engulo a raiva porque, no momento, preciso desse emprego.
Respiro fundo, tentando controlar a tremedeira nas mãos. Thaíse segura o balcão enquanto eu me jogo no serviço, sem direito a pausa, sem direito a nada.
A noite tá só começando. E eu já sei que vai ser um inferno.
Contínua...