A CIDADE DESCONHECIDA

1497 Palavras
Bela acordou com um susto. Não houve barulho algum, mas seu corpo reagiu como se estivesse sendo perseguida. O coração batia rápido, as mãos suavam e o quarto, por alguns segundos, pareceu pequeno demais. Ela se levantou devagar, respirando fundo. Era o apartamento novo, seguro, silencioso. Mas o medo ainda morava nela. Abriu a porta do quarto. E se surpreendeu. Caio estava sentado no chão, encostado na parede do corredor, exatamente onde disse que ficaria. Dormira ali. Protegendo. Vigiando. Cansado, mas presente. O peito de Bela apertou. De um jeito bonito. De um jeito perigoso. Ela caminhou até ele devagar. — Caio… — sussurrou, tocando o ombro dele. Ele abriu os olhos imediatamente, como se estivesse dormindo com um sensor ligado. — Está tudo bem? — perguntou, a voz rouca de sono, mas cheia de alerta. — Eu… eu só… você dormiu no chão — ela disse, sentindo o peso daquilo. Caio passou a mão pelos cabelos, ainda acordando. — Eu disse que ia ficar aqui. Eu não mentiria sobre isso. Ela engoliu seco. — Você não precisava… — Precisava sim — ele interrompeu, calmo, decidido. — Você dormiu. Isso já é um avanço. Então, valeu a pena. A frase acertou Bela com força. Um tipo de cuidado que ela não sabia receber. — Quer café? — ela perguntou, ainda tímida. — Só se você tomar também — Caio respondeu, se levantando. Não era uma pergunta. Era preocupação. A cozinha era pequena, mas agradável. Bela serviu café com as mãos um pouco trêmulas, ainda processando o fato de que tinha alguém como Caio tão perto… e tão disposto. Ele a observava em silêncio. Não invadia. Não pressionava. Só estava ali. — A médica disse para você comer algo leve pela manhã — Caio lembrou. — Eu vou comer — ela respondeu, pegando uma maçã. — Não estou mais enjoada. Ele analisou o rosto dela. — Se sentir qualquer coisa, me avisa. — Eu aviso — Bela garantiu, mesmo sabendo que a tendência dela era esconder tudo. Ele percebeu a dúvida silenciosa e acrescentou: — Sem heroísmo, Bela. Você não precisa provar nada para mim. Ela desviou o olhar, tocada. — Eu sei. Mas não sabia. Não ainda. Depois do café, Caio a levou para o trabalho como combinado. O caminho foi silencioso, mas confortável. O tipo de silêncio que não pede explicações — apenas presença. No escritório, as pessoas cochichavam. Claro que cochichavam. Caio, o diretor mais reservado da empresa, entrando na sala com uma mulher que m*l havia começado a trabalhar ali… não passaria despercebido. Bela tentou ignorar. Focou na mesa, na tarefa que lhe deram, no computador. Mas Caio não ignorou. Ele saiu da sala dele duas vezes. Não para olhar documentos. Mas para ver se ela estava bem. E toda vez que o olhar dele encontrava o dela, Bela sentia um calor estranho no peito. Por volta das dez e meia, Marina se aproximou, sorrindo com aquele toque de curiosidade que ninguém tenta esconder muito bem. — Ei… você está melhor hoje? — Sim — Bela respondeu. — Ontem você assustou todo mundo — Marina comentou, mais baixo. — E o jeito que o Caio correu atrás de você… menina… Bela ficou vermelha. — Ele só é meu chefe. Marina riu. — Claro que é. E saiu. Bela suspirou, tentando retomar o foco. Mas trabalhar em uma cidade nova, em uma empresa onde ela m*l conhecia as pessoas… com um ex-noivo perigoso rondando… e com uma gravidez que mudava tudo… era quase impossível. Ela fechou os olhos por um instante. Então o cheiro dela subiu — uma mistura de perfume leve e café. O corpo dela tensionou. Caio estava atrás. — Está tudo bem? — ele perguntou, voz baixa. Bela o encarou, surpresa. — Está. Só… pensamentos demais. — Quer dar uma volta lá fora? Tomar ar? — ele sugeriu. — Não. Eu posso ficar… — Não estou perguntando se você pode — Caio a interrompeu. — Estou perguntando se você precisa. Ela mordeu o lábio. — Talvez um pouco de ar ajude. Ele assentiu. — Vamos. Do lado de fora da empresa, o movimento da cidade parecia outro universo. Pessoas indo e vindo, correndo, falando, gritando, vivendo. E Bela? Bela tentava renascer. Eles caminharam sem pressa. Lado a lado. Sem tocar. Mas tão próximos que os braços quase se encontravam. — Como você está se sentindo agora que… — Caio hesitou, respeitando — que sabe do bebê? Ela respirou fundo. — Assustada. — Isso é normal. — Mas também… — ela suspirou — sinto algo bom. Algo… novo. Caio observou o rosto dela com um tipo de admiração silenciosa. — Você parece mais forte do que pensa — ele disse. — Eu não sei… — Eu sei — Caio afirmou, sem espaço para dúvidas. Ela desviou o olhar, porque o peso daquelas palavras era demais. Demais para alguém que passou a vida ouvindo que era “sensível demais”, “frágil demais”, “boa demais”. — Eu só quero que esse bebê fique bem — ela confessou. — Vai ficar — Caio disse, e havia tanta certeza na voz dele que Bela acreditou. Ele tinha esse efeito: transformava medo em chão. — E Daniel? — ela perguntou, hesitante. Caio parou. Virou para ela. Os olhos dele escureceram com uma intensidade firme. — Nós vamos lidar com ele — Caio disse. — Juntos. Bela sentiu o ar sumir. Juntos. A palavra não era romântica. Era protetora. E perigosa. Porque parte dela queria acreditar demais. Quando voltaram para a empresa, Caio recebeu uma ligação e precisou subir sozinho. Bela ficou no setor e tentou focar, mas seu corpo ainda estava cansado do susto da manhã. Por volta do meio-dia, a recepcionista subiu com expressão aflita. — Bela? — Oi? — Tem alguém perguntando por você na entrada. O coração dela congelou. — Quem? — Não sei. Não deu nome. Mas está… estranho. E insistiu muito. O ar dela falhou. Daniel. Tinha que ser Daniel. — Ele está lá embaixo? — Bela sussurrou, com pânico crescendo. — Está. Quer que eu diga algo para ele? Antes que ela pudesse responder, Caio surgiu atrás das duas como um raio. Ele ouviu. Ou percebeu. Ou os instintos dele explodiram. — Ele está onde? — Caio perguntou, sério. — Na recepção — a moça repetiu. Caio virou para Bela. — Fica aqui. Não sai por nada. Bela agarrou o braço dele. — Caio, não… ele é perigoso… — E eu também sou — Caio respondeu, com uma calma que arrepiou cada parte do corpo dela. Ele saiu antes que ela pudesse impedir. Bela correu até a janela do setor. E viu. Daniel estava realmente na entrada. Ao telefone. Ansioso. Andando de um lado para o outro. E Caio surgiu atrás dele. Daniel virou. E o choque aconteceu. Mesmo sem som, Bela entendeu tudo pela linguagem corporal. Daniel tentou avançar. Caio bloqueou. Daniel gesticulou. Caio permaneceu firme. Daniel pareceu gritar. Caio deu um passo à frente — e Daniel recuou, mesmo que tentasse esconder o medo. Os dois ficaram um tempo ali. Tenso. Duro. Fatal. E então… Daniel virou e saiu, socando o ar com raiva. Caio ficou parado olhando ele ir embora. Só depois de alguns segundos, Caio subiu — e veio direto até Bela. Ela estava branca. Trêmula. Com a mão sobre a barriga. — Ele… ele… — Bela tentava formar palavras. — Ele foi embora — Caio disse, aproximando-se. — E não volta hoje. — O que você disse para ele? Caio passou a mão pela nuca, tenso. — O que precisava ser dito. Ela engoliu seco. — Caio… isso está te colocando em perigo. — Eu me coloco em perigo quando quero — ele respondeu, firme. — E no seu caso, eu quero. Bela engoliu a emoção. — Eu não queria que minha vida complicasse a sua… Ele segurou o rosto dela com ambas as mãos. Devagar. Com cuidado. Com intensidade. — Sua vida não complica a minha — ele disse. — Sua vida… importa para mim. Ela quase chorou. — Eu não sei o que fiz para merecer isso. — Fez tudo — Caio respondeu. A respiração dela falhou. Os olhos dele baixaram para a boca dela por um segundo — rápido demais para ser certeza, mas lento o bastante para incendiá-la por dentro. Ele recuou um passo. Apertou os dedos — como se estivesse segurando o próprio impulso. — Eu… preciso voltar para minha sala — ele disse, rouco. — Se sentir qualquer coisa, qualquer, me chama. Bela assentiu. Quando ele se afastou, ela encostou na parede, sentindo o peso do mundo mudar completamente. A cidade era desconhecida. Assustadora. Nova. Mas Caio… Caio era a única coisa familiar, segura, firme. E pela primeira vez, ela percebeu algo: Talvez a fuga dela não a tivesse levado apenas para longe de Daniel. Talvez tivesse levado para perto de quem ela deveria ter encontrado há muito tempo.  E isso… mudava tudo.
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