Bela não conseguiu falar por alguns segundos. O corpo ainda tremia, e a presença de Caio era a única coisa que a mantinha de pé. Ele não tocava nela de forma invasiva — mas estava ali, firme, estável, sólido como uma muralha entre ela e o caos que Daniel representava.
— Entra no carro — Caio disse, abrindo a porta para ela com autoridade tranquila.
Não era um pedido.
E naquele momento, Bela não queria discutir.
Ela entrou, sentou e respirou fundo. As mãos continuavam trêmulas, e ela tentou esconder isso apoiando-as no colo.
Caio entrou logo depois, fechando a porta. O motorista aguardava, silencioso.
— Leva ela para casa — Caio ordenou, mas não saiu do carro.
— Caio…? — ela murmurou, confusa.
Ele virou o rosto para ela.
— Vou com você. Não vou te deixar sozinha. Não hoje.
A frase bateu fundo. Quase derrubou o pouco controle que ela ainda tinha.
O caminho até a pousada foi silencioso. Ou pelo menos do lado dela. Caio, por outro lado, observava tudo pela janela: os carros atrás, as motos que passavam perto demais, qualquer pessoa parada por mais de três segundos em uma esquina.
O homem estava em estado de alerta absoluto.
Quando chegaram, o motorista estacionou na porta. Bela desceu devagar, ainda tentando controlar a mente que insistia em repetir a ameaça de Daniel em loop.
Caio desceu atrás dela.
— Eu te acompanho até o quarto — ele disse.
— Caio, não precisa…
— Preciso, sim — ele cortou, com firmeza.
Ela subiu as escadas, sentindo o peso dele atrás. Não era pressão, era… presença. Uma sensação de segurança que ela quase estranhava, porque fazia muito tempo que alguém a defendia sem exigir nada em troca.
Quando chegaram à porta do quarto, ela parou.
— Aqui — disse, sem jeito. — É simples, mas é o que eu consegui…
— Não tem nada errado com simplicidade — Caio respondeu.
Ele observou o corredor. O teto baixo. A porta fina. A recepção distante.
E então disse o que ela temia — e esperava:
— Este lugar não é seguro para você.
O estômago dela apertou.
— Eu… eu não tenho outro lugar, Caio.
Ele passou a mão pelos cabelos, fechou os olhos um instante — como se contasse até dez para não tomar uma decisão impulsiva. Quando abriu, estava decidido.
— Você não fica mais aqui.
— Como assim? — Bela deu um passo para trás. — Caio… eu não posso depender de você desse jeito.
— Não é dependência — ele disse, firme. — É proteção.
— Eu… eu não sei se é certo. Eu m*l comecei no emprego…
— Você acha que eu estou preocupado com a formalidade do emprego? — Caio rebateu, irritado com a própria ideia.
Ela abriu a boca, mas não saiu nada.
— Bela — ele respirou fundo, tentando suavizar o tom — alguém te ameaçou. Isso muda tudo.
— Eu sei… mas…
— Mas nada — Caio interrompeu. — Daniel descobriu onde você está. Ele pode voltar hoje, amanhã, daqui a uma hora. E este lugar não tem porteiro, não tem câmeras, não tem vigilância. É um convite para desastre.
Ela sentiu a palavra “desastre” como um soco.
— Eu não posso ir para sua casa, Caio — murmurou. — Vai parecer… outra coisa.
Ele piscou devagar, entendendo exatamente a preocupação dela.
— Eu não te pedi para ir para minha casa.
Ela franziu o cenho.
— Então…?
— A empresa tem apartamentos corporativos. Dois quarteirões daqui. Segurança 24 horas. Senha na porta. Câmeras. Portaria blindada. Eu posso colocar seu nome ainda hoje.
Bela ficou muda.
— Eu não estou te oferecendo luxo — Caio explicou, firme. — Estou te oferecendo segurança.
Ela sentiu a garganta arder.
— E se isso… atrapalhar seu trabalho? — ela perguntou, baixinho.
— Nada que envolva sua segurança atrapalha meu trabalho — Caio respondeu, a voz grave.
Bela desviou os olhos, porque era impossível aguentar a intensidade do olhar dele sem quebrar.
— Você precisa confiar em mim — Caio disse, num tom que arrancou o ar dela.
— Eu confio — ela sussurrou.
Ele pareceu aliviado com a resposta.
— Prepare sua mala. A gente sai em quinze minutos.
**
Ela entrou no quarto para pegar as coisas. Caio ficou do lado de fora, braços cruzados, postura rígida, como se guardasse a porta contra o mundo. Bela empacotou tudo rápido. Não tinha muito. E talvez por isso tenha doído tanto perceber como sua vida cabia em tão pouco.
Quando fechou a mala, parou.
O teste de gravidez ainda estava na mesa.
As duas linhas gritavam.
Bela pegou o teste com as mãos trêmulas e o guardou no fundo da mochila.
“Eu preciso contar para ele. Em algum momento… eu preciso.”
Mas hoje não.
Hoje ela m*l conseguia respirar.
Saiu do quarto e encontrou Caio esperando — e observando cada detalhe ao redor, como um homem acostumado a ser atacado.
— Vamos — ele disse, pegando a mala dela sem perguntar.
— Eu posso carregar…
— Eu sei que pode — ele respondeu — mas eu faço questão.
Ela mordeu o lábio para não sorrir.
Era estranho…se sentir protegida.
Eles desceram juntos. Caio entregou a chave na recepção sem explicar nada, e saíram para rua.
O motorista já estava a postos, mas Caio balançou a cabeça.
— Eu vou dirigindo — disse. — Quero garantir o caminho.
O homem entregou as chaves sem discutir.
Bela entrou no banco do passageiro. Caio sentou ao volante. Sem música. Sem distração. Só os dois ali — e um silêncio carregado.
— Se você quiser voltar amanhã para pegar mais coisas, eu venho com você — Caio disse, enquanto dirigia.
— Não preciso… isso é tudo que tenho. — A voz dela saiu mais fraca do que pretendia.
Caio olhou para ela. Rápido. Intenso.
— Então vamos mudar isso. Aos poucos.
Ela sentiu o coração apertar.
“Esse homem é perigoso… não porque faz m*l.
Mas porque faz bem demais.”
**
O prédio corporativo era moderno, seguro, iluminado. Um porteiro os recebeu com postura militar e abriu o portão com identificação facial de Caio.
— Vai ficar tudo certo — Caio disse, enquanto subiam no elevador. — Aqui ninguém entra sem autorização direta.
Ela assentiu, tensa, mas mais tranquila.
Quando a porta do apartamento abriu, Bela ficou surpresa. Não era luxuoso em excesso — era funcional, limpo, neutro. Moderno, mas acolhedor.
— Vai servir? — Caio perguntou, observando a reação dela.
— É… perfeito — ela respondeu. — Obrigada, Caio. Eu não sei como agradecer…
— Não agradece — ele cortou. — Eu faria isso por qualquer pessoa que estivesse ameaçada.
Ela arqueou a sobrancelha.
Caio respirou fundo.
— Tá… não por qualquer pessoa — admitiu. — Mas faria por você.
A confissão veio simples.
Mas atingiu fundo.
Ela desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar.
— Vou pedir para instalarem uma nova senha hoje. Ninguém entra sem sua autorização.
— Certo…
— E se ele aparecer de novo, você me liga. Na mesma hora.
— Eu ligo.
— Bela — Caio chamou, com a voz mais baixa — eu não estou brincando.
— Eu sei… — respondeu, emocionada com a preocupação dele.
Ele deu um passo para mais perto.
— Você tem alguém aqui além de mim?
A pergunta foi um golpe suave, mas profundo.
Uma que ela não sabia como responder sem desmontar.
— Não — ela murmurou. — Não tenho ninguém.
Caio assentiu. Algo no olhar dele ficou mais firme.
Mais decidido.
— Então sou eu.
— O quê?
— Sou eu que vou garantir que você e esse bebê fiquem bem.
O ar sumiu do peito dela.
E antes que pudesse pensar em uma resposta, em um argumento, em uma fuga emocional, Caio completou:
— Ele descobriu onde você estava. Você fez a única escolha possível: fugir. E agora que fugiu, não volta mais. Não deixa ele te arrastar de novo.
Ela sentiu as lágrimas subirem — quentes, urgentes.
— Caio… estou com tanto medo…
— Eu sei. — Ele aproximou o rosto do dela, mas sem tocar. — Mas medo não te deixa sozinha. Medo só te deixa alerta. E eu estou aqui para o resto.
Ela segurou a respiração.
Porque naquele instante, algo mudou entre eles.
Não era apenas proteção.
Não era apenas preocupação.
Era algo mais.
Algo antigo, adormecido, mas real.
Caio deu um passo para trás, como se tivesse percebido isso tarde demais.
— Vou te deixar descansar — disse, recuando. — Se precisar de qualquer coisa, me liga. Qualquer hora.
Ela assentiu.
Antes de sair, ele disse:
— Amanhã eu passo cedo para te levar ao trabalho. Não quero você andando sozinha.
— Caio… — ela chamou, antes que ele alcançasse a porta.
Ele virou.
— Obrigada — disse, a voz quebrada. — Por tudo.
Ele respirou fundo.
Os olhos dele suavizaram.
— Isso não é tudo, Bela. — A voz veio baixa. — Ainda vou fazer muito mais.
E saiu.
A porta se fechou.
E Bela ficou ali, encostada nela, sentindo finalmente o peso da fuga.
— Acabou, Daniel… — ela sussurrou para si mesma. — Eu não vou voltar.
Era um adeus.
Não bonito.
Não limpo.
Mas sangrando.
Ainda assim, um adeus.
E não tinha mais volta.