Luiza respirou fundo, como se quisesse encerrar aquele assunto de um jeito leve, sem peso.
— Quando eu falei aquilo… eu quis dizer sobre você me ouvir mais, essas coisas… — ela explicou, com calma. — Mas tá tudo bem, Felipe. Você tem a vida corrida, não é pra ficar de carinho o tempo todo. Tá tudo bem.
Ela deu um pequeno sorriso, tentando aliviar o clima.
— E agora eu preciso ir tomar banho.
Antes de esperar resposta, ela já caminhou pelo corredor.
Sumiu no quarto e, em seguida, o som leve da porta do banheiro se fechando ecoou pela casa.
Silêncio de novo.
Mas diferente.
Felipe ficou parado na sala.
Sozinho.
Os olhos dele foram até o corredor por onde ela tinha passado, depois voltaram para o chão, como se ele estivesse tentando reorganizar algo dentro da própria cabeça.
“Tá tudo bem.”
A frase dela ficou repetindo.
Não como alívio.
Mas como padrão.
Ele passou a mão pelo rosto, devagar, e encostou no encosto do sofá, sentado ainda mais fundo.
Ela sempre dizia isso.
Sempre.
“Tá tudo bem.”
“Eu entendo.”
“Não se preocupa.”
E ele começou a perceber que essas frases não estavam dizendo só sobre ele.
Estavam dizendo sobre ela também.
Sobre o jeito que ela se retirava da conversa sem realmente entrar nela inteira.
Sobre o jeito que ela diminuía o que sentia para não virar problema.
Ele soltou um suspiro mais pesado.
Não era raiva.
Nem irritação.
Era algo mais desconfortável.
Consciência.
Felipe ficou ali, olhando para o nada, enquanto o som distante do banheiro lembrava que ela ainda estava em casa… mas não exatamente ali com ele naquele momento.
E pela primeira vez naquela rotina toda, ele não soube exatamente o que fazer com o pensamento que tinha surgido:
“Talvez ela esteja sempre dizendo que tá tudo bem… porque aprendeu que não vale a pena dizer o contrário.”
Luiza saiu do banho com os cabelos ainda úmidos e uma camisola leve, fresca, simples — do jeito que ela gostava quando estava em casa.
O vapor do banheiro ainda parecia acompanhar ela pelo corredor por alguns segundos.
Quando entrou na sala, viu Felipe já ajeitado no sofá.
Ele tinha mudado de roupa também, mais confortável, e havia uma pequena caixa na mesa de centro.
— Eu pedi lanche — ele disse, com a voz mais leve do que mais cedo. — Vem. Vamos ver um filme.
Luiza parou por um instante, como se aquele convite simples tivesse mais peso do que parecia.
Depois sorriu.
— Tá bom.
Ela foi até ele e se sentou ao lado, puxando as pernas para o sofá.
O clima ali parecia diferente do início da noite.
Mais calmo.
Mais próximo.
Felipe abriu a caixa com a comida, colocou o filme para rodar e deixou o braço descansar atrás dela, sem pressa, sem cobrança.
Luiza encostou levemente nele.
E por alguns minutos, foi só isso: uma noite comum, compartilhada.
Em certo momento do filme, Felipe virou o rosto para olhar pra ela.
Não disse nada.
Só ficou olhando.
Luiza percebeu e também virou devagar.
— O quê? — ela perguntou baixinho, com um sorriso leve.
Felipe não respondeu com palavras.
Apenas aproximou o rosto do dela e a beijou com carinho.
Sem pressa.
Sem tensão.
Só presença.
Luiza fechou os olhos por um instante e retribuiu o beijo, leve, natural, como se o corpo dela reconhecesse aquele gesto sem precisar pensar.
Felipe sorriu de lado, ainda com o olhar preso nela, como se aquele momento simples fosse exatamente o que ele precisava depois de tudo.
— Vamos namorar essa noite? — ele disse, num tom leve, quase brincando, mas com carinho de verdade.
Luiza encostou a cabeça de leve no ombro dele, sentindo a proximidade, o clima mais tranquilo entre os dois.
Ela sorriu.
— Vamos sim.
Felipe passou o braço ao redor dela com mais firmeza, puxando-a um pouco mais para perto.
O filme continuou passando ao fundo, mas já não era o foco.
Luiza mexia devagar nos dedos dele, distraída, confortável pela primeira vez naquele dia inteiro.
Felipe olhou pra ela de novo, mais calmo agora, e deu um beijo leve na testa dela, depois na bochecha, como se estivesse redescobrindo aquele jeito de estar com ela sem pressa.
Ela fechou os olhos por um segundo, sorrindo sozinha.
A noite seguiu leve, como se tudo o que tinha pesado mais cedo tivesse ficado para trás por algumas horas.
O filme acabou sem que eles realmente prestassem atenção no final. A comida ficou pela metade na mesa, esquecida entre conversas baixas, risadas pequenas e olhares que diziam mais do que palavras.
Felipe desligou a TV devagar e puxou Luiza mais perto.
Ela não resistiu — nem queria.
Os dois ficaram ali, no sofá, num clima tranquilo, íntimo, como há tempos não conseguiam ficar sem interrupções internas.
Felipe acariciou o rosto dela com calma, como se estivesse reaprendendo cada detalhe.
— Eu gosto quando você tá assim comigo — ele disse baixo.
Luiza sorriu, encostando a mão sobre a dele.
— Eu sempre tô aqui… só nem sempre você percebe.
Ele ficou em silêncio por um segundo, mas dessa vez não era pesado.
Era reconhecimento.
Ele beijou ela de novo, com mais calma ainda, e ela retribuiu no mesmo ritmo, sem pressa, sem barreiras.
Aos poucos, a noite foi levando os dois para um espaço só deles — onde não existiam cobranças, nem rotina, nem versões escondidas.
Só o que eles eram quando realmente se encontravam.
Mais tarde, já no quarto, o mundo parecia ainda mais distante.
A luz baixa, o silêncio confortável, e a sensação de que, por algumas horas, eles tinham conseguido se enxergar de verdade sem pressa.
Luiza deitou ao lado dele, encostando a cabeça no peito dele.
Felipe passou o braço ao redor dela automaticamente, como se agora aquilo fosse mais natural do que antes.
— Boa noite, meu amor — ele murmurou.
— Boa noite… — ela respondeu baixinho.
E pela primeira vez em muito tempo, o sono chegou para os dois sem peso entre eles.