Felipe ficou alguns segundos em silêncio, olhando para ela como se estivesse juntando tudo o que tinha entendido naquela manhã.
Então ele se levantou.
Devagar.
Sem pressa.
Foi até Luiza e estendeu a mão.
— Vem aqui…
Ela hesitou só um segundo, mais por surpresa do que por recusa. Depois colocou a mão na dele.
Ele a puxou com cuidado, levantando-a do sofá.
Luiza ainda segurava o casaco nos ombros quando ele a trouxe para perto.
Felipe a envolveu em um abraço firme, mas não sufocante — era diferente do jeito apressado de antes. Era um abraço mais consciente, como se ele estivesse tentando, de verdade, alcançar ela.
Ele fechou os olhos por um instante.
E então se afastou só o suficiente para olhar pra ela.
— Me perdoa, meu amor… — ele disse baixo. — Eu errei ontem.
Luiza ficou parada por um segundo.
Depois um sorriso pequeno, leve, apareceu no rosto dela — não de alegria exagerada, mas de alívio calmo.
Ela levantou a mão e tocou o rosto dele com carinho, como sempre fazia nos momentos mais íntimos entre eles.
— Tá tudo bem… — ela respondeu suave. — Eu entendo.
Felipe encostou a testa na dela por um breve instante, respirando mais devagar agora.
E naquele momento, a casa pareceu menos pesada.
Só um pouco.
Mas o suficiente para os dois perceberem que, pela primeira vez em muito tempo, não estavam apenas funcionando lado a lado…
estavam começando a se enxergar de verdade.
Luiza ficou alguns segundos no abraço, sentindo o calor dele de volta depois de uma noite inteira de silêncio.
Então se afastou um pouco, ainda com as mãos apoiadas no peito dele, e respirou fundo antes de falar — mais calma, mas firme do jeito dela.
— Eu só quero que você entenda uma coisa… — ela começou. — Você pode conversar comigo. Eu tô aqui pra você. Eu não estou aqui só pra cuidar da casa, te dar um carinho, ser uma companheira… não. Eu também tô aqui pra te ouvir. Se você precisar desabafar, precisar de uma opinião, eu tô aqui.
Felipe ficou quieto, prestando atenção sem interromper.
Luiza continuou, agora com o olhar mais sério, mas sem acusação.
— Não se fecha igual você fez ontem. Você nem quis jantar, m*l olhou na minha cara… foi grosso comigo e disse “me deixa sozinho”. E eu entendi, eu respeitei, mas… — ela respirou — isso me afastou de você.
Ela apertou de leve a mão dele.
— Eu não estou te culpando. Eu sei que acontecem coisas que realmente mexem com você. Trabalho, pressão… eu entendo. Mas eu só quero que você me veja mais. Perceba que eu tô aqui com você e pra você.
O silêncio caiu entre eles de novo.
Mas agora não era vazio.
Era cheio de algo começando a ser dito pela primeira vez.
Felipe ficou olhando para ela em silêncio.
Dessa vez, não era o silêncio de irritação nem de cansaço.
Era o silêncio de quem estava absorvendo.
Ele passou a mão devagar pelo rosto, desviou o olhar por um segundo, como se estivesse tentando organizar tudo dentro da própria cabeça.
— Eu… — ele começou, mas parou.
Respirou fundo.
Voltou a olhar para ela.
— Eu nunca pensei que isso te afastava de mim assim.
Luiza não respondeu de imediato. Só esperou.
Felipe deu um passo mais perto, mais devagar dessa vez, como se tivesse medo de errar o tom.
— Pra mim… — ele continuou — quando eu fico assim, fechado, é só… eu tentando resolver minha cabeça. Eu não pensei que você ia se sentir deixada de lado.
Luiza baixou o olhar por um instante, depois voltou a encará-lo.
— Eu não me sinto deixada de lado o tempo todo… — ela disse com cuidado. — É só nesses momentos.
Ele assentiu devagar, como se aquilo já fosse pesado o suficiente.
— Eu não quero isso — ele falou, mais baixo. — Não com você.
Silêncio curto.
Luiza respirou fundo, como se estivesse escolhendo se continuava ou não.
— Eu só preciso saber que eu não preciso sumir quando você estiver m*l — ela disse por fim.
Essa frase bateu nele de um jeito mais direto.
Felipe ficou parado, olhando pra ela como se aquilo fosse simples de entender… mas difícil de assumir na prática.
Ele soltou um suspiro lento.
— Você não precisa sumir — ele repetiu, mais firme agora, como se estivesse prometendo pra ele mesmo também. — Eu que… não soube te incluir nisso.
Luiza observou ele por alguns segundos.
O rosto dele ainda carregava cansaço, mas agora havia algo diferente junto.
Consciência.
Ela tocou de leve o braço dele.
— Eu não quero que a gente vire isso… duas pessoas vivendo na mesma casa e se perdendo no meio da rotina.
Felipe olhou para a mão dela no braço dele.
Depois voltou o olhar para o rosto dela.
— Eu também não quero isso — ele respondeu.
Um silêncio mais leve se instalou entre os dois.
Diferente dos anteriores.
Menos pesado.
Mais honesto.
Felipe puxou Luiza de volta, agora sem pressa, só um abraço mais calmo, mais inteiro.
— Eu vou tentar… — ele murmurou contra o cabelo dela. — Eu vou tentar não me fechar desse jeito com você.
Luiza fechou os olhos por um instante, encostando a testa no peito dele.
— E eu vou tentar não guardar tudo sozinha — ela respondeu baixinho.
E ali, naquele abraço, não tinha solução pronta.
Mas tinha um começo de ajuste.
Não da casa.
Deles.