- Calma, deixa eu vê se acho o carrinho de ressuscitação por este corredor. – sorri ao ouvir aquilo sabendo que ele como o bobo que era realmente faria isso. – Estou em choque com uma coisa dessas, mas me diz, nós adoramos isso ou nós odiamos? – eu adorava a forma como o Theo sempre se incluía em tudo.
- Nós... – fiz uma pausa deixando o celular sobre a cômoda enquanto removia minhas roupas com um pouco de dificuldade. – Nós ainda estamos em dúvida sobre como nos sentimos.
- Ok... – ele respondeu após alguns instantes. – Por que a dúvida?
Estava aí uma pergunta que eu não sabia responder, pegando o celular fui até o banheiro, deixei o aparelho sob o vaso sanitário enquanto tomava banho.
- Ele é perfeito. – falei alto para que o Theo pudesse me ouvir bem. – Nós temos quase dez anos juntos e eu o amo por cuidar de mim e me esperar quando eu estava doente no hospital mas eu não sinto aquela coisa sabe!? – eu tentei fazer alguns gestos mas logo parei ao me dar conta que ele não podia me ver. – Eu não sinto faíscas, nem frio na barriga, e também não acho que ele desperte em mim uma insana vontade de ter uma família.
- Não quer acordar todos os dias olhando para aqueles lindos olhos azuis e tanquinho definido? – ele questionou como se fosse um absurdo e eu sorri sabendo que era loucura eu estar dizendo aquilo em voz alta.
Daniel era o sonho de consumo de qualquer um e definitivamente o acidente que sofri há uns dois anos deve ter afetado meu juízo pois além de não lembrar do nosso passado juntos eu também não sentia todas as coisas que ele e minha irmã diziam sobre nós.
Mas ele fez tanto por mim e me amava incondicionalmente, como eu poderia cogitar não aceitar um pedido de casamento?
- Você ainda está aí? – ouvi o Theo perguntar, finalizei meu banho e me enrolei na toalha pegando novamente o celular.
- Isso tudo é só nervosismo de que o casamento não dê certo, não é? – perguntei para ele tentando me convencer daquilo. – Eu sei que eu sempre quis um casamento, algumas fotos minhas de criança eu sempre estou com o vestido da mamãe e alguns galhos que eu fazia de buquê, mas eu sempre achei que deveria me casar apenas quando encontrasse o amor da minha vida...
- E é o Daniel, certo? – Theo me interrompeu com aquela pergunta que me deixou sem palavras. – Se ele não fosse o amor da sua vida, por que você estaria com ele há tanto tempo Olivia?
- Tem razão. – murmurei após alguns instantes. – Preciso me vestir agora. – falei olhando o vestido que provavelmente a Valerie escolheu sobre a cama. – Vá salvar algumas vidas.
- Você sabe que enfermeiros limpam bundas mais do que qualquer outra coisa, mas obrigada pelo otimismo. – sorri sabendo que aquilo era verdade, e desliguei a ligação antes que eu continuasse conversando com ele e me atrasasse.
Deixei o celular de lado e tratei de me vestir, ajeitar meus cabelos e passar uma maquiagem leve antes de calçar meus saltos, peguei uma bolsa pequena apenas para carregar o celular e sai de casa, m*l fechei a porta e encontrei o Daniel parado do lado de fora encostado em seu carro.
- Está esperando há muito tempo? – perguntei me aproximando e ficando na ponta dos pés beijei seus lábios suavemente para não marcar ele com meu batom.
- Eu mandei mensagem avisando que cheguei há uns cinco minutos mas não é seu forte me responder. – ele respondeu enquanto abria a porta do carro para que eu entrasse.
Esperei que ele entrasse e colocasse o cinto antes de lhe dar um sorriso culpado.
- Teve um bom dia no trabalho? – ele assentiu que sim com a cabeça e só então notei que ele estava suando, levei minha mão a sua têmpora secando a gota de suor que estava deslizando.
Não estava calor, já eram mais de 18 horas e apesar de estar de terno ele não podia estar transpirando daquele jeito a menos que tivesse uma caixinha pequena em seu bolso.
Eu tinha duas escolhas, surtar muito e fugir, ou eu podia aceitar o que já estava predestinado para acontecer nos últimos anos.
- Querida, te levarei no seu lugar favorito. – sorri ao ouvi-lo dizer aquilo, eu estava mesmo querendo comer um bom bolo, mas meu sorriso se desfez ao ver que ele havia parado em frente ao restaurante de sushi.
Aquilo não estragaria minha noite, talvez ele se confundiu com todo nervosismo, então mantive o sorriso no rosto e aceitei sua mão quando ele me ofereceu ao abrir a porta do carro.
Daniel havia reservado uma mesa no canto com vista para o lado de fora, eu podia enxergar com perfeição aquela lua cheia que estava tão linda, segurei sua mão sobre a mesa ao sentir seus pés batendo descontroladamente sobre o chão.
- Não precisa ficar nervoso. – lhe ofereci um sorriso na tentativa de tranquilizá-lo, Daniel soltou minha mão e pegou o copo de água o bebendo todo de uma vez, apenas observei aquilo sem lhe dizer que a água que ele havia bebido era minha. – Você já quer pedir? – o perguntei notando que havia um garçom parado próximo a ele esperando pacientemente.
Ele engoliu a seco e escolheu nossas refeições, ignorei o fato de que ele sequer me deixou escolher o que eu queria comer pois logo após fazer isso ele enfiou a mão dentro do terno e manteve lá, observei com atenção cada passo seu.
- Olivia, eu sou apaixonado por você desde quando estudamos juntos, eu te olhava a distância e sempre inventava uma desculpa sobre não saber a matéria só para te ouvir explicar, você sempre foi gentil comigo e mesmo que não retribuísse meus sentimentos eu era grato por conhecer alguém tão doce e adorável.. – sorri envergonhada abaixando meu olhar para minha mão, meus olhos recaíram sobre minha marca de nascença e estranhamente senti minha cabeça latejar, porém ignorei aquilo e voltei minha atenção para o Daniel que tinha um sorriso nervoso e congelado nos lábios. – Você tem sido uma ótima amiga desde então e eu m*l posso acreditar que é minha namorada, então eu queria aproveitar o momento... – o vi se levantar da cadeira de modo atrapalhado e se ajoelhar a minha frente, tirando a caixinha de dentro do terno ele sorriu mais ainda e suas mãos trêmulas abriram aquilo exibindo uma anel solitário com uma pedra singela em cima. – Valerie disse que era uma boa ideia, então aqui estou... – ignorei o fato de que ele estava sendo orientado por minha irmã novamente e sorri me concentrando naquele ato em si. – Olivia Marie Hastings, você quer casar comigo?
Engoli a seco sentindo uma pontada no local exato da minha cicatriz na cabeça, tentei disfarçar com um sorriso mas a estranha sensação de deja vu não me abandonava, era esquisito sentir que não era a primeira vez que aquelas palavras era dirigidas a mim, talvez fosse apenas coisa da minha cabeça mas uma parte de mim acreditava que aquilo já havia acontecido antes.
- Querida? – a voz de Daniel me trouxe volta a realidade, pisquei algumas vezes notando que todo o restaurante observava aquilo atentamente. – Você aceita casar comigo? – o ouvi perguntar novamente com a voz vacilante.
Respirei fundo e assenti com a cabeça sendo incapaz de pronunciar qualquer coisa sem que minha voz me traísse, Daniel colocou o anel que entrou com um pouco de dificuldade em meu dedo e rapidamente me puxou pela mão me fazendo levantar para abraçá-lo.
Os aplausos dos outros clientes me fizeram sorrir envergonhada nos braços do homem que agora era meu noivo, desviei meu olhar para o lado de fora do restaurante notando que havia alguém na calçada observando nossa interação, por estar escuro e de capuz ignorei a pessoa que eu não conseguia ver direito e voltei minha atenção ao meu noivo e ao meu coração que parecia que estava sendo esmagado por alguém.
Eu iria finalmente me casar pela primeira, e isso era tudo o que eu sempre quis desde pequena, deveria estar feliz, mas não, o que eu sentia na verdade era a esquisita sensação de que estava fazendo algo errado.
Como se eu tivesse traindo alguém, mas isso era algo bobo, certo!?
Impossível aquele pedido de casamento ser algo r**m, pelo menos era o que eu queria acreditar.