Capítulo 11

1181 Palavras
Pablo entrou no ponto como se fosse só mais um. Nada de postura dura, nada de olhar desconfiado demais. Ele já tinha entendido: ali, quem chama atenção… vira alvo. O lugar era movimentado, gente indo e vindo, troca de dinheiro rápida, olhares que se cruzavam o tempo todo. Mas por trás daquilo, dava pra sentir a tensão escondida. — E aí, tu é novo? — perguntou um cara encostado na parede, olhando de cima a baixo. Pablo deu um meio sorriso. — Tô dando uma força agora. Mandaram eu vir ajudar no movimento. O homem pareceu aceitar, mas continuou observando. — Aqui não é bagunça não, viu. — Melhor ainda — respondeu Pablo, firme, mas sem provocar. A resposta pareceu agradar. — Então cola aí. Fica de olho e aprende. Pablo se aproximou, começando a observar tudo com atenção. Quem recebia o dinheiro, quem passava, quem anotava… e principalmente, quem evitava ser visto. Com o tempo passando, ele começou a perceber pequenos detalhes. Um dos caras — magro, sempre quieto — era quem mais mexia com o dinheiro. Mas tinha algo errado: ele contava rápido demais… e às vezes guardava notas sem registrar. Pablo fingiu não notar. Continuou ali, ajudando em pequenas coisas, carregando, organizando… ganhando espaço. Horas depois, já mais entrosado, ele puxou conversa com outro rapaz. — Movimento tá meio estranho hoje, né? O cara deu de ombros. — Aqui anda estranho faz tempo. — Como assim? O rapaz olhou pros lados antes de responder mais baixo: — Dinheiro some… ninguém fala nada… mas todo mundo sabe que tem coisa errada. Pablo fingiu surpresa. — E ninguém faz nada? — Tu acha que alguém quer arrumar problema? Aquilo confirmou o que ele precisava. Mas ele queria certeza. No fim do dia, Pablo decidiu arriscar mais um pouco. Se aproximou justamente do cara que ele desconfiava. — E aí, chefe — disse, de forma casual. — Quer ajuda pra fechar as contas? O homem levantou os olhos, desconfiado. — Eu me viro. Pablo não recuou. — Só pra agilizar. Quanto mais rápido terminar, mais rápido todo mundo sai. O cara pensou por um segundo… e acabou cedendo. — Então fica aí. Era o que Pablo queria. Enquanto ajudava, ele prestava atenção em cada movimento. E foi ali que viu claramente: o homem separava uma parte do dinheiro… e, quando achava que ninguém estava olhando, colocava no bolso. Sem registro. Sem marcação. Desvio puro. Pablo não reagiu. Nem mudou a expressão. Mas por dentro, a certeza veio. Mais tarde, já saindo do ponto, o homem suspeito passou por ele e falou baixo: — Fica na tua que tu vai longe aqui. Pablo apenas assentiu. Mas aquilo soou como um aviso. Ou ameaça. Subindo o morro novamente, já à noite, Pablo caminhava sozinho, com a mente trabalhando rápido. Ele tinha o que Timóteo pediu. Certeza. Mas agora vinha a parte mais delicada: como entregar isso… e o que ia acontecer depois. Quando chegou, entrou direto. Timóteo estava esperando. — E aí? Pablo olhou firme pra ele. — Tem alguém roubando. O silêncio tomou conta da sala. — Quem? — perguntou Timóteo, com a voz fria. Pablo respirou fundo. — Eu posso provar. Timóteo se levantou devagar, os olhos agora completamente focados nele. — Então você acabou de subir mais um degrau. Pablo sustentou o olhar. O silêncio na sala ficou pesado depois das palavras de Pablo. Timóteo não respondeu na hora. Apenas andou lentamente até a janela, olhando o morro lá embaixo, como se estivesse juntando as peças na cabeça. — Quero ouvir — disse ele, sem se virar. Pablo deu um passo à frente. — Ele separa parte do dinheiro antes de fechar as contas. Faz rápido, como se fosse hábito. Mas eu vi… mais de uma vez. Timóteo virou o rosto de leve. — Nome. Pablo falou, direto. — É o magro… o que fica mais no caixa. Um dos homens na sala reagiu na hora: — O Dênis? Timóteo levantou a mão, mandando ele calar. O olhar dele voltou pra Pablo. — Você tem certeza? — Tenho. Mais um silêncio. Só que dessa vez… mais perigoso. Timóteo se aproximou devagar. — Então amanhã você volta lá. Pablo franziu levemente a testa. — Pra quê? — Pra confirmar mais uma vez… na minha frente. Aquilo fez o clima pesar ainda mais. — Eu vou junto. Mas ninguém pode saber. Pablo entendeu na hora. Não era só sobre descobrir. Era sobre pegar no flagrante. No dia seguinte, o ar parecia mais pesado desde cedo. Pablo desceu o morro como se fosse só mais um dia normal. Quando chegou no ponto, tudo seguia como antes… movimento, gente, rotina. Mas ele sabia: daquela vez, tinha mais em jogo. Alguns minutos depois, um homem desconhecido apareceu por perto. Boné baixo, postura discreta. Mas Pablo reconheceu na hora. Era Timóteo. Observando. Esperando. Pablo continuou agindo normalmente, como se não tivesse visto. Se misturou ao movimento, ajudando aqui e ali… até se aproximar novamente do caixa. O tal Dênis estava lá. Mesmo jeito. Mesmo silêncio. — Quer ajuda? — perguntou Pablo, como no dia anterior. O homem olhou, desconfiado… mas acabou cedendo de novo. — Fica aí então. O tempo passou devagar. Cada segundo parecia mais longo. Até que aconteceu. O movimento deu uma diminuída… e Dênis fez exatamente o que Pablo tinha dito. Separou uma parte do dinheiro… e, num movimento rápido, levou pro bolso. Foi nesse momento que Pablo desviou o olhar de leve… Na direção de Timóteo. Que tinha visto tudo. Não demorou nem um minuto. Dois homens surgiram do nada e seguraram Dênis antes que ele entendesse o que estava acontecendo. — Mas o quê—?! — Fica quieto — disse um deles, já puxando ele pra fora. O movimento parou. O silêncio tomou conta. Todos olhando… ninguém falando. Timóteo então entrou, agora sem se esconder. A presença dele mudou tudo. — Continua — disse ele, olhando pros outros. — Ou alguém mais quer me dar prejuízo? Ninguém respondeu. Ninguém nem respirava direito. Minutos depois, já afastados do ponto, Dênis estava ajoelhado, tremendo. — Eu posso explicar… eu— Timóteo nem deixou terminar. — Pode sim. Ele olhou pra Pablo. — Você. Pablo entendeu. Deu um passo à frente. Agora não era mais só observador. Era parte da decisão. Dênis olhou pra ele, desesperado. — Por favor… eu tava precisando… eu ia devolver… Pablo ficou em silêncio por alguns segundos. Aquela era a linha que separava tudo. Antes… ele só cumpria ordens. Agora… ele ajudava a definir o destino de alguém. Ele respirou fundo… e olhou pra Timóteo. — Ele sabia o que tava fazendo. Timóteo sustentou o olhar… e assentiu de leve. A decisão estava tomada. Mais tarde, já de volta, o clima era outro. Pesado… mas claro. Timóteo se aproximou de Pablo. — Você não só viu… você teve coragem de falar. Colocou a mão no ombro dele. — Agora eu sei com quem eu posso contar. Pablo não respondeu. Mas por dentro… sabia que tinha cruzado mais uma linha. E dessa vez… Não tinha mais como voltar atrás.
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