Capítulo 1

1174 Palavras
Capítulo 1 – Recomeços O sol ainda nascia tímido por entre os prédios quando Pablo abriu os olhos. O relógio marcava 6h12, mas ele já estava desperto antes mesmo do alarme tocar. Era assim quase todos os dias. A responsabilidade não lhe permitia preguiça, e, de certa forma, ele gostava disso. Virou o rosto lentamente e encontrou Sophia ainda dormindo ao seu lado. Os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro, a respiração leve, tranquila… havia algo quase mágico naquele momento. Paulo sorriu de forma discreta, como se não quisesse quebrar aquele silêncio delicado. Depois de quatro anos de casamento, ainda sentia o mesmo aperto bom no peito ao olhar para ela. — Eu daria tudo pra congelar esse instante — pensou. Mas a vida não esperava. Levantou-se com cuidado, caminhando até a janela do apartamento. Lá fora, o Rio de Janeiro já começava a despertar. O som distante dos carros, o vento carregando o cheiro do mar… tudo aquilo ainda parecia um sonho para o rapaz que, anos atrás, deixava o interior de São Pablo com uma mala simples e o coração cheio de incertezas. Ele lembrava bem daquele dia. Não foi fácil. Deixar para trás a cidade pequena, os pais, os amigos de infância… tudo para tentar algo maior. Pablo sempre foi determinado, mas também carregava dúvidas. Será que daria certo? Será que ele estava pronto para uma cidade como o Rio? E foi ali, no meio daquele caos bonito e desafiador, que ele encontrou Sophia. Ela apareceu como um acaso — ou destino, como ele gostava de acreditar. Uma mulher de sorriso fácil, olhar firme e uma leve teimosia que o encantou desde o primeiro instante. Sophia não apenas entrou na vida dele… ela transformou tudo. Quatro anos de casamento. Quatro anos construindo uma vida juntos. E, ainda assim, Pablo sentia que estava só no começo. Ele caminhou até a cozinha, colocou o café para passar e apoiou as mãos na bancada, respirando fundo. O trabalho no banco exigia muito. Como gerente, precisava lidar com números, metas, clientes difíceis… e, às vezes, com o próprio cansaço. Mas havia algo maior por trás de tudo aquilo. Ele queria dar uma vida confortável para Sophia. Queria construir algo sólido. Um futuro. Talvez uma casa maior. Talvez filhos. O pensamento fez com que um sorriso surgisse novamente em seu rosto. — Um passo de cada vez — murmurou para si mesmo. O cheiro do café começou a se espalhar pelo apartamento, e poucos minutos depois ele ouviu passos suaves atrás de si. — Já acordado? — a voz de Sophia veio baixa, ainda carregada de sono. Pablo virou-se, e ao vê-la ali, com uma blusa larga e os cabelos levemente bagunçados, sentiu o coração aquecer. — Sempre — respondeu, sorrindo. — Você sabe como é. Ela se aproximou, envolvendo a cintura dele com os braços e encostando o rosto em seu peito. — Você trabalha demais. — Eu sei… — ele respondeu, acariciando os cabelos dela — mas é por nós. Sophia ergueu o olhar, encarando-o com uma mistura de carinho e algo mais profundo… algo que Pablo não conseguiu identificar naquele momento. — A gente precisa conversar depois — disse ela, em um tom suave. Pablo franziu levemente a testa. — Conversar? Sobre o quê? Ela hesitou por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras. — Depois… — respondeu, desviando o olhar. — Não quero estragar a manhã. Aquilo ficou ecoando na mente dele. Mas, por ora, ele decidiu deixar passar. O dia estava apenas começando. E Pablo ainda não sabia… que aquela conversa mudaria muito mais do que ele poderia imaginar. Assim que chegou, foi recebido por uma enxurrada de problemas: clientes insatisfeitos, metas atrasadas e um funcionário que cometeu um erro grave em uma operação importante. Pablo respirou fundo, ajustou a gravata e assumiu o controle da situação como o gerente competente que era. Durante todo o dia, ele resolveu pendências, acalmou clientes e organizou sua equipe. Por fora, demonstrava segurança e firmeza. Por dentro, porém, sua mente insistia em voltar para Sophia. “O que será que ela queria falar comigo?” — pensava ele, enquanto assinava documentos e respondia e-mails. A forma como ela havia dito… havia algo diferente. Não parecia uma conversa comum. Era sério. Importante. Talvez até algo que pudesse mudar tudo. O tempo passou rápido, e quando percebeu, já era noite. Exausto, Pablo saiu do banco, entrou no carro e dirigiu de volta para casa. Dessa vez, o trânsito parecia não incomodá-lo tanto — sua ansiedade era maior. Ao chegar, encontrou Sophia na sala, sentada no sofá. Ela estava linda, como sempre, mas havia um brilho diferente em seus olhos. Um misto de nervosismo e expectativa. — Oi, amor — disse ele, se aproximando e lhe dando um beijo. — Oi — respondeu ela, com um sorriso suave, mas claramente carregado de emoção. Pablo deixou a pasta de lado e sentou-se ao lado dela. — Você ficou o dia todo na minha cabeça… — confessou ele. — O que você queria falar comigo? Sophia respirou fundo. Por alguns segundos, ficou em silêncio, como se organizasse os próprios sentimentos. — Eu venho pensando nisso há um tempo… — começou ela, olhando nos olhos dele. — Pensando na nossa vida, no nosso casamento… no quanto a gente se ama. Pablo sentiu o coração acelerar. — E…? Ela segurou a mão dele, entrelaçando os dedos. — Eu acho que está na hora de dar um passo maior… — disse, com a voz levemente trêmula. — Eu quero engravidar, Pablo. Quero ter um filho seu. O mundo pareceu parar por um instante. Pablo ficou em silêncio, surpreso. Não era algo que ele não desejasse… pelo contrário. Mas ouvir aquilo assim, de repente, mexeu profundamente com ele. Seus pensamentos correram: responsabilidade, futuro, mudanças… mas também vieram imagens de uma família, risos, uma criança correndo pela casa. Ele olhou para Sophia, que agora o observava com certa apreensão, esperando sua reação. Pablo levou a mão ao rosto dela, acariciando com carinho. — Você tem certeza? — perguntou, com a voz mais suave do que o habitual. Sophia assentiu. — Tenho. Eu sinto que é o momento… que a gente está pronto. Ele respirou fundo, ainda absorvendo tudo aquilo. Um sorriso começou a surgir lentamente em seu rosto. — Eu sempre sonhei com isso… — confessou. — Só não esperava que fosse agora… Sophia deu um leve riso, aliviada. — Isso é um “sim”? Pablo aproximou-se e a beijou com intensidade, deixando que sua resposta fosse sentida mais do que dita. — É um “sim”… — murmurou ele, encostando a testa na dela. — Um “sim” pra nós… pra nossa família. Sophia o abraçou forte, emocionada. Naquele momento, algo mudava entre eles. Não era apenas amor — era o começo de um novo capítulo, cheio de sonhos, medos e promessas. E, pela primeira vez naquele dia, Pablo não pensava mais nas preocupações do banco. Agora, só existia o futuro que eles estavam prestes a construir juntos.
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