O baile tava ainda mais cheio que na noite anterior. O grave batia no peito, as luzes cortavam a escuridão e o ar parecia pesado… daquele jeito que eu já conhecia bem.
Cheguei com os caras, mas dessa vez não era mais como antes.
Eu não era mais só alguém passando.
Os olhares mudaram.
Gente cumprimentando de longe… outros abrindo espaço sem nem precisar falar nada.
Respeito.
Ou medo.
Talvez os dois.
— Movimento tá forte hoje — um dos caras comentou do meu lado.
Assenti.
— Tá.
Mas minha cabeça nunca desliga totalmente.
Mesmo no meio da música, da bagunça… eu sempre observo.
E foi aí que eu vi.
No meio da multidão… alguém que não encaixava.
Não era do morro.
Dava pra perceber no jeito, na roupa… na forma de se mover.
Mas ao mesmo tempo… tava completamente entregue ao baile.
Ela.
Fiquei olhando por alguns segundos.
— Quem é aquela? — perguntei, sem tirar os olhos.
O cara do lado olhou também.
— Nunca vi por aqui.
Continuei observando.
Tinha alguma coisa diferente.
Não era só aparência.
Era o jeito.
Como se ela não pertencesse àquele lugar… mas ainda assim estivesse ali, sem medo.
Foi quando ela virou.
E me viu.
O olhar bateu direto.
Sem desviar.
Por um segundo… o resto sumiu.
A música continuava, gente dançando… mas pra mim ficou distante.
Ela não desviou.
Nem eu.
Fiquei ali, só olhando.
Sem pressa.
Analisando… mas também curioso.
— Quer que eu chame? — o cara perguntou.
Neguei com a cabeça.
— Não.
Dei um leve sorriso de canto.
— Ela vem.
E eu sabia.
Não sei explicar como… mas sabia.
E ela veio.
Devagar.
Passo por passo.
Como se alguma coisa puxasse.
Fiquei parado, esperando.
Quando ela parou na minha frente… o mundo diminuiu de novo.
Silêncio no meio do caos.
Olhei direto pra ela.
— Você não é daqui.
Minha voz saiu calma… firme.
Ela sustentou.
— Dá pra perceber?
Dei um leve sorriso.
— Muito.
Ela cruzou os braços de leve… mas não se fechou.
— E você é.
— Sou.
Ficamos alguns segundos assim.
Se estudando.
— Nome? — perguntei.
— Dalila.
Guardei o nome na hora.
— Pablo.
Ela repetiu baixo, como se quisesse memorizar.
A música voltou a invadir tudo… mas já não era a mesma coisa.
Porque naquele momento eu entendi uma coisa:
Aquilo ali não era comum.
E também não era simples.
Fiquei mais um tempo ali, mas minha cabeça já tava em outro lugar.
Ela voltou pras amigas em algum momento… eu continuei com os caras.
Mas não era mais a mesma noite.
Quando resolvi sair, fui embora sem olhar pra trás.
Como sempre.
Mas dessa vez…
Olhei.
Por um segundo.
E vi ela se afastando.
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Problema… — murmurei pra mim mesmo.
E era.
Eu sabia o tipo de vida que levava.
Sabia onde eu tava metido.
E gente como ela…
Não devia chegar perto disso.
No dia seguinte, já tava de pé cedo.
Subindo o morro, olhando tudo como sempre.
Movimento, dinheiro, gente.
Agora eu tinha responsabilidade.
Mais do que antes.
— E aí, chefe — um dos caras falou ao passar.
Fiz só um sinal com a cabeça.
Ainda não me via assim… mas os outros já viam.
Entrei em um dos pontos, conferindo tudo.
Tudo precisava estar certo.
Sempre.
Mas no meio daquilo…
Minha mente falhou por um segundo.
Veio a imagem.
O olhar dela.
O jeito.
Fechei a cara na hora.
— Foco — falei baixo, firme.
Passei a mão no rosto, tentando apagar aquilo.
Não era o tipo de distração que eu podia ter.
Não naquele mundo.
Não na vida que eu escolhi.
Continuei andando, olhando tudo, organizando.
Mas no fundo…
Eu já sabia.
Aquilo não tinha acabado no baile.
E, se eu não tomasse cuidado…
Ia virar problema de verdade.