Capitulo 4

1967 Palavras
Alana Os primeiros dias na casa de Dante foram os mais difíceis. Eu não conseguia olhar para aquele lugar e enxergar uma casa. Para mim, era apenas o lugar onde eu tinha sido obrigada a morar depois de perder meu marido. Tudo ali parecia estranho. Os corredores silenciosos, os móveis escuros, a falta de fotografias e até o cheiro daquele ambiente me lembravam o tempo inteiro de que eu não estava em casa. Minha casa era outra. Minha vida estava lá. Miguel estava lá. Pelo menos era isso que eu sentia quando fechava os olhos. Na primeira semana, praticamente não saí do quarto. Eu acordava tarde, passava horas olhando para o teto e depois voltava a dormir. Quando conseguia comer alguma coisa, era pouco. Quando alguém tentava conversar comigo, eu respondia apenas o necessário. Dante não insistia. Ele aparecia algumas vezes durante o dia, perguntava se eu precisava de alguma coisa e desaparecia antes que eu pudesse me irritar com a presença dele. Aquilo me incomodava, eu esperava que ele fosse autoritário o tempo inteiro. Esperava ordens. Esperava que tentasse controlar cada passo meu. Mas não fazia isso, ele apenas estava por perto. Sempre. Havia homens na frente da casa durante o dia e outros faziam a segurança durante a noite. Eu não gostava daquela vigilância, mas depois de alguns dias percebi que Dante não tinha colocado aqueles homens ali para me vigiar. Eles estavam ali pra impedir que alguém chegasse até mim. Ainda assim, eu odiava aquela sensação de estar presa. Na primeira vez que tentei sair sozinha, fui parada antes mesmo de chegar ao portão. — Patroa, o Dante pediu para a senhora esperar. Eu fiquei furiosa. — Eu não preciso de autorização para sair. O homem abaixou a cabeça. — Eu sei, mas ele pediu. Peguei o telefone e liguei para Dante. Ele atendeu rapidamente. — O que foi? — Mande seus homens saírem da minha frente. — Onde você está? — Na porta da sua casa. — E para onde pretende ir? — Para a minha casa. Houve silêncio. — Alana, não. — Não o quê? — Você não vai sozinha. — Então venha comigo. — Não posso agora. — Então manda alguém me acompanhar. — Não, eu já estou indo. Desliguei o telefone irritada,poucos minutos depois, um carro apareceu. Foi assim, durante os primeiros dias eu queria ir até minha antiga casa, mas nunca podia ir sozinha. Quando finalmente consegui entrar lá novamente, precisei me preparar emocionalmente antes de atravessar a porta. Tudo continuava exatamente como eu havia deixado. As roupas de Miguel ainda estavam no armário. O relógio dele continuava sobre a mesa de cabeceira. A fotografia do nosso casamento permanecia em cima da cômoda. Eu fiquei parada diante daquela foto por vários minutos,parecia que tinha sido tirada ontem. Miguel sorria para mim. Eu sorria para ele. Éramos felizes. Ou pelo menos eu acreditava que éramos. Passei os dedos pela fotografia e senti meus olhos se encherem de lágrimas. — Eu sinto tanto a sua falta. Foi a primeira vez que falei com ele em voz alta desde o enterro. Naquele dia, chorei durante horas,Dante permaneceu do lado de fora. Não entrou. Não me apressou. Não perguntou quanto tempo eu demoraria. Quando finalmente saí, encontrei-o encostado no carro.Ele apenas abriu a porta para mim. Eu entrei. No caminho de volta, nenhum dos dois falou. Aquela se tornou a nossa primeira rotina.Eu visitava minha antiga casa durante o dia e voltava para a casa de Dante antes do anoitecer. Na segunda semana, comecei a descer para tomar café no início, eu comia sozinha.Dante já estava acordado quando eu chegava à cozinha, quase sempre com o celular na mão ou algum papel diante dele. Ele comandava o morro daquele mesmo lugar. Recebia informações. Tomava decisões. Falava com os homens. Organizava a segurança. Às vezes passava horas trabalhando sem levantar da cadeira. Eu comecei a perceber que assumir o lugar de Miguel não tinha sido tão simples quanto eu imaginava Dante quase não dormia. Quando eu acordava durante a madrugada, algumas vezes encontrava a luz do escritório acesa. Ele estava lá. Sempre trabalhando. Sempre tentando descobrir alguma coisa. Eu não sabia o quê,mas sabia que estava procurando respostas. Na terceira semana, uma coisa mudou.Eu comecei a jantar na mesma mesa que ele não tinha sido planejado mas naquela noite, desci tarde e encontrei Dante sozinho. Ele levantou os olhos. — Você vai comer? — Acho que sim. — Senta. Sentei. Foi estranho no começo,nós dois ficamos em silêncio. Depois de alguns minutos, ele perguntou: — Como foi na sua casa? Eu olhei para ele. — Doloroso. Ele assentiu. — Imagino. — Você não precisa imaginar. Dante ficou quieto. — Você também sente falta dele. Não foi uma pergunta. Ele abaixou os olhos. — Todos os dias. Aquela resposta me surpreendeu. — Você nunca fala dele. — Porque falar não vai trazer ele de volta. Eu fiquei olhando para meu prato. — Eu sei. Depois daquela noite, começamos a conversar um pouco mais. Não sobre Miguel. Não sobre a guerra. Sobre coisas pequenas. Eu descobri que Dante não gostava de café muito forte. Descobri que ele acordava cedo. Descobri que quase nunca assistia televisão. Descobri que ele gostava de ficar sozinho quando precisava pensar. E ele descobriu algumas coisas sobre mim. Que eu odiava dormir no escuro. Que ainda tinha medo de tempestades. Que não gostava de ficar sozinha quando chovia. Que eu costumava tomar café antes mesmo de escovar os dentes. E que eu não conseguia dormir sem deixar alguma luz acesa quando estava muito nervosa. Não sei em que momento aquilo começou a acontecer. Talvez tenha sido depois de um mês. Talvez antes. O fato é que a casa deixou de parecer tão estranha. Eu ainda sentia falta da minha casa. Ainda sentia falta de Miguel. Ainda acordava chorando algumas noites. Mas comecei a criar uma rotina. Pela manhã, eu tomava café,Depois, às vezes, ia até a antiga casa para buscar alguma coisa ou simplesmente ficar alguns minutos perto das lembranças de Miguel. À tarde, ficava na varanda lendo ou organizando algumas das coisas que tinha trazido comigo. À noite, jantava. Algumas vezes com Dante. Outras vezes sozinha. Ele continuava saindo para resolver problemas no morro. E sempre voltava, não importava o horário. Eu ouvia o carro entrando na garagem e, sem perceber, comecei a prestar atenção naquele som. Na primeira vez em que ele demorou mais do que o normal, fiquei inquieta. Era quase meia-noite e eu estava no sofá quando ouvi o carro. Levantei imediatamente. Quando Dante entrou, estava com uma pequena marca de sangue na lateral da camisa. Meu coração disparou. — O que aconteceu? Ele olhou para a própria camisa. — Não é meu. Respirei aliviada antes mesmo de perceber o que estava fazendo. Dante me encarou. — Você ficou preocupada? — Não. — Ficou. — Eu só perguntei. Ele deu um pequeno sorriso. — Claro. — Não começa. Ele passou por mim. — Boa noite, Alana. — Boa noite. Mas fiquei olhando enquanto ele subia as escadas. Foi naquela noite que percebi que alguma coisa estava mudando eu ainda desconfiava dele. Ainda não confiava completamente. Ainda queria saber o que ele escondia. Mas já não conseguia enxergá-lo apenas como o homem que tinha assumido o lugar de Miguel. Dante estava começando a se tornar parte da minha rotina. E isso me assustava,porque eu não queria que ninguém ocupasse aquele espaço. Aquele espaço ainda pertencia ao meu marido. Dois meses haviam passado desde a morte de Miguel quando a primeira grande mudança aconteceu. O morro começou a ficar mais tranquilo, os ataques diminuíram e agora os homens que era do Miguel agora eram homens do Dante passaram a controlar melhor as entradas. As ameaças ainda existiam, mas já não havia confrontos todos os dias. Eu comecei a sair um pouco mas algumas mulheres da comunidade voltaram a conversar comigo, as crianças apareciam na frente da casa. Eu comecei a ajudar em pequenas coisas que antes faziam parte da minha rotina, aos poucos, voltei a viver. Não como antes. Nunca como antes. Mas voltei. Dante percebeu. Ele nunca comentou diretamente, mas eu percebia no jeito como me observava. Um dia, desci usando um vestido simples e encontrei-o na sala. Ele estava falando com dois homens. Quando me viu, interrompeu a conversa por alguns segundos. Eu estranhei. — O que foi? — Nada. — Você está olhando. — Eu percebi. — Percebeu o quê? Ele me encarou. — Que você está diferente. — Diferente como? — Está sorrindo mais. Aquilo me deixou sem resposta. — Talvez eu esteja aprendendo a viver novamente. Dante assentiu. — Talvez. Os homens saíram. Ficamos sozinhos. — Dante. — Hum? — Você descobriu alguma coisa sobre aquela noite? O sorriso desapareceu do rosto dele. — Ainda estou procurando. — Já faz dois meses. — Eu sei. — Você prometeu que descobriria. — Eu não esqueci. Aproximei-me. — Você acha que alguém próximo ao Miguel entregou informações? Dante ficou em silêncio. — Eu acho. — Quem? — Ainda não sei. — Mas desconfia de alguém. Ele me encarou. — Desconfio. — De quem? — Ainda não posso dizer. Revirei os olhos. — Sempre a mesma resposta. — Porque continua sendo a verdade. — Às vezes eu acho que você sabe muito mais do que me conta. Ele não respondeu. E aquele silêncio confirmou minha suspeita. — Eu tenho razão. — Você tem perguntas. — E você tem respostas. Dante passou a mão pelo rosto. — Alana, se eu soubesse quem matou Miguel, essa pessoa já estaria morta. A intensidade da voz dele me fez ficar quieta. — Eu não quero apenas vingança — falei. — Eu sei. — Quero saber a verdade. — Eu também. Ele se afastou. — E eu vou encontrar. Naquela noite, uma tempestade começou. O céu ficou escuro rapidamente,os primeiros trovões fizeram meu coração acelerar. Dois meses haviam passado, mas aquele medo continuava exatamente no mesmo lugar. Eu estava na sala quando a chuva começou,o dante estava no escritório outro trovão fez meu corpo estremecer. Poucos minutos depois, ele apareceu.Não perguntou nada. Apenas sentou no sofá do outro lado da sala. Eu olhei para ele. — Você não precisa ficar. — Eu sei. Sorri de leve. — Você sempre responde isso. — Porque geralmente é verdade. A chuva aumentou, eu me encolhi no sofá ele permaneceu ali. Não tentou conversar. Não tentou me tocar. Apenas ficou. E eu comecei a perceber que aquela já não era uma situação completamente estranha. Era nossa rotina. Eu tinha chegado naquela casa acreditando que seria apenas uma prisão. Agora, dois meses depois, havia momentos em que ela parecia quase um lar. E isso me dava medo. Porque Miguel continuava sendo o amor da minha vida. Eu ainda o amava. Ainda sentia sua falta. Ainda chorava por ele. Mas havia outra presença naquela casa que começava a ocupar espaço demais nos meus pensamentos. Dante. Eu não sabia quando aquilo tinha começado. Talvez naquele jantar. Talvez na primeira noite em que ele ficou sentado perto da porta enquanto eu enfrentava uma tempestade. Talvez quando ele voltou para casa machucado e eu percebi que estava preocupada. Ou talvez tivesse começado muito antes e eu simplesmente nunca tivesse prestado atenção. Eu não queria descobrir. Não ainda. Porque existia uma pergunta muito maior que qualquer sentimento. Quem matou Miguel? Eu sabia que Dante estava procurando. Sabia que ele escondia informações. E sabia que aquela história ainda estava longe de terminar. O que eu não sabia era que, enquanto eu tentava descobrir se podia confiar naquele homem, alguém dentro do Morro da Esperança também estava observando cada passo nosso. E essa pessoa estava apenas esperando o momento certo para atacar novamente. Porque a guerra não tinha acabado. Ela apenas tinha aprendido a esperar.
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