Era Uma Vez Um Primeiro Beijo

2565 Palavras
Acabei dormindo no sofá da República pela primeira vez desde que entrei para faculdade. Lembrei de quando Tina deu PT depois de uma festa e acabou da mesma forma que eu. Louis saiu do quarto de cueca e camiseta, e me viu levantando, com meus cabelos loiros completamente bagunçados e o rosto inchado. Aquela m***a de pílula que o b****a do Collin me deu me deixou realmente m*l. A luz incomoda, minha cabeça gira e eu quero vomitar. – Santa mãe do pop Beyoncé! A noite foi boa, Liz? – Ele soltou uma risada enquanto passava as duas mãos nos cabelos encaracolados de sua própria cabeça. Só consegui ver os chinelos verde fluorescente nos seus pés e, por Deus, por que essa d***a tem que ser tão brilhante? – Não exatamente. Me drogaram ontem, acredita? – Eu esfreguei as duas mãos no meu rosto, e Louis fez uma cara de surpresa. Ele foi até a cozinha rapidamente, pegando as coisas para preparar um café. – Tadinha! Um bom café vai te dar um up. – Eu vi o rapaz caminhar até a cozinha e questionei o motivo dele ter mais gingado no quadril para andar do que eu. Será que eu sou desengonçada andando? – Obrigada, Louis. – O acompanhei até a cozinha, sentando em um dos bancos na frente do balcão e deitando minha cabeça nele. – Que dor de cabeça. – Bom dia! – Brian parecia animado. A voz dele parecia uma marreta na minha cabeça. Quem é que acorda tão feliz? Mas que d***a. – Temos alguém de ressaca, fale mais baixo. – Louis apontou para mim, enquanto servia o café já passado na xícara. Eu tenho certeza que os dois estavam rindo da minha cara em silêncio. – Então, você é o Louis? Prazer, sou o Brian. Estou no quarto da moça que se formou recentemente. – Brian abriu um sorriso. Eu levantei a cabeça por alguns instantes, apenas para olhá-los, e abaixei novamente a cabeça no balcão. – m***a de dor de cabeça e sensibilidade a luz. Essa m***a vai ficar assim para sempre? Diz que não, por favor. Sou jovem demais para ficar inútil desse jeito. – Resmunguei e os rapazes riram. Brian parou do meu lado e colocou a mão no meu cabelo, fazendo um carinho cuidadoso e leve. Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta, mas tive que fingir costume. – Vai passar, Liz. Louis, ontem o Collin do terceiro ano de administração drogou ela. Avise todo mundo que você conhece que ele é um canalha que usa drogas pra conseguir meter a rola nojenta em alguém. Ou, como ele disse, pra "relaxar". – Brian parecia sério. Louis assentiu, tirando o celular do bolso e colocando uma xícara de café na minha frente. Olhei para a xícara. A capinha do celular do Louis roubou a minha atenção. Por que tanto brilho logo hoje, Louis? – Eu já sabia que o Collin era um b****a, mas não nesse nível. Vou falar pro meu namorado avisar as amigas dele também. – Ele disse, digitando o celular. – Quer café, Brian? – Quero sim, por favor. – Ele ainda acariciava meu cabelo, até finalmente colocar tirar a mão que estava ali e colocar em minhas costas. – Ei, Liz, sua xícara de café vai esfriar. É bom que você tome quente. – Eu o ouvi e levantei o rosto novamente, levando as duas mãos até a xícara e tomando um gole meio a contra gosto. Sinceramente, eu não queria colocar nada para dentro do estômago no momento. Brian tirou a mão das minhas costas assim que Louis o entregou uma xícara de café. – Tadinha da minha Liz! – Louis falou baixo, com cara de pena. Eu fiz um bico de tristeza falso e ele veio até mim, para me dar um abraço. Foi um abraço leve, porque Louis sabe como é difícil estar se sentindo assim e que abraços fortes não ajudam. Ele já passou por isso algumas vezes. O dia passou de forma lenta e à base de aspirinas. Olha que fiasco, minha primeira festa e eu já havia sido drogada, que coisa mais maravilhosa. Eu estava deitada em meu quarto, na minha cama, enquanto lia um livro de romance. Louis saiu com o namorado e eu não sabia onde Brian estava. Preferi não comentar o episódio da d***a na minha bebida para meus pais, pois com certeza eles iriam surtar e eu não queria isso. Já a noite, eu desci para preparar algo para comer e vi que Brian estava todo arrumado na sala, parecia pronto e animado para sair. – E aí, Liz? Está se sentindo melhor? – Ele sorriu enquanto se jogou no sofá pegando o celular de forma despreocupada. Colocou os pés na mesinha de centro. Sinceramente, a mesinha de centro dessa casa deveria se chamar "mesinha para pés". – Sim, só um pouco cansada. E você, vai passear? – Apenas falei por educação, para manter a conversa. Era óbvio que ele iria sair pelo tanto de perfume que passou. – Conheci uma gata ontem, combinamos de sair hoje. Megan, loira, peituda, olhos azuis. Fiquei sabendo que todos os caras querem sair com ela e, bom, eu que consegui. – Ele falou como se tivesse ganhado um troféu. Achei bem b****a. – Parabéns então. – Dei os ombros e fui para cozinha, sentindo um pouco de ciúmes, mas não podia fazer nada já que Brian era livre e eu nem podia ser considerada uma grande amiga dele. Quanto mais outra coisa, não é mesmo? – Ela é legalzinha. Divertida, extrovertida... Parece um furacão. – Ele soltou uma risada da própria piada. Ouvi uma buzina de carro, e ele levantou alegremente do sofá, indo até a porta. – Tenho que ir! Se cuida, Liz! Depois que Brian passou pela porta, tive vontade de chorar. Era tão bom quando eu não pensava em nada disso e vivia minha vida como se relacionamentos não existissem e como se apenas os homens dos livros fossem perfeitos para mim... Acabei perdendo a fome que m*l tinha, peguei algumas bolachas salgadas e comi apenas para não ficar com o estômago vazio. Voltei para meu quarto com um copo de suco na mão e decidi dormir. Brian e Louis passaram a noite fora, cada um com seu par. E eu, fiquei sozinha mais uma vez. Sozinha não, né? Quem tem livros, tem companhia. Sempre. Brian chegou de madrugada fazendo barulho, era impossível não ouvir as risadas dele com a tal da Megan. Eu tive que colocar os fones pra não ficar mais irritada do que já estava. Na manhã seguinte, as coisas voltaram ao normal. Megan tinha ido embora, Louis estava assistindo TV enquanto pintava as unhas com esmalte amarelo no sofá, e Brian tomava um café. O cheiro do café impregnou a casa toda. Ainda bem que eu gosto. – Bom dia, pessoal. – Eles sorriram em minha direção e eu retribui. – Bom dia, minha flor! – Louis, sempre tão fofo. – E aí, Liz. Quer café? – Brian perguntou. Sentei ao lado dele no balcão da cozinha e fiz que sim com a cabeça. Ele gentilmente serviu uma xícara de café e entregou em minhas mãos. – Se divertiu com a Megan? – Falei, apenas para puxar papo. A verdade é que eu realmente não queria saber. – Até que sim. Ela é bem gostosa. Mas é só isso. – Brian respirou de forma profunda, com um pouco de tristeza no olhar. – Se eu te contar uma coisa, promete não rir? – Pode contar. – No momento, tudo que eu queria era chorar, e não rir. – Eu ainda gosto da menina que namorei quando estava na outra faculdade. Ela me traiu com meu melhor amigo lá. Esse foi um dos motivos de eu pedir transferência e me esforçar pra entrar aqui na Universidade de Wellington. – Brian olhou para baixo, respirando de forma profunda mais uma vez. – Ela era uma ruiva cheia de sardas muito linda. E pirada. – Eu sinto muito, Brian. É uma d***a ser apaixonado por quem não gosta da gente. – E está aí um assunto que eu entendo bastante. Aliás, se houvesse um concurso de gente lascada no amor, eu levaria um troféu. Quando eu estava na primeira série, eu tive minha paixonite de criança. O nome dele era Phill e todas as meninas corriam atrás dele feito malucas porque ele era um loirinho de olhos azuis muito fofo. Talita, a menina mais bonita da sala, sempre acabava dando as mãos na fila para irmos para a educação física, com ele. E foi assim que eu aprendi qual era meu lugar na vida: Quieta, com o coração partido, no final da fila esperando que algum dia, a professora fosse me colocar ao lado do Phill para que a gente pudesse dar as mãos. No dia que aconteceu, imaginei que fosse o dia mais feliz da minha vida, até perceber que as mãos de Phill eram super suadas... E aí ele deixou de ser minha paixonite. Quando eu estava na sétima série, a Talita já tinha beijado todos os meninos da turma e eu, nenhum. Quando me perguntavam se eu já havia perdido o BV, eu dizia que sim, e que foi com um vizinho que eu nem conhecia na época. Eu tinha muita vergonha de falar a verdade. E nessa época, minha paixonite foi com o Bob. Bob era um cara legal, meio gordo, meio nerd. Ele era o tipo de garoto que talvez namoraria comigo porque a gente se dava muito bem. E aí teve um amigo secreto na festa de final de ano na escola, o Bob levou flores e chocolate para entregar para a sua amiga secreta. Eu torci secretamente para que fosse eu, mas quando uma amiga revelou quem era sua amiga secreta, fiquei triste. Na vez de Bob, a surpresa que nem deveria ser tão surpresa assim aconteceu: Ele tinha tirado a Talita. E ela deu um selinho nele na frente de todo mundo em agradecimento, mas disse que não ia rolar nada entre eles. Ficou com as flores e os chocolates, e foi embora da festa. Bob chorou feito um condenado, e recorreu a mim para pedir conselhos. Foi aí que eu aprendi a segunda parte de onde era meu lugar: Ser apoio. O tempo foi passando, e eu coloquei na cabeça que nenhum garoto jamais iria me querer. De vez em quando eu até pensava que talvez eu estivesse errada, mas nenhum garoto nunca gostou de mim, e isso só me dava a certeza de que eu nunca estaria no protagonismo de uma história de amor. Quando entrei no segundo ano do ensino médio, eu e Brian caímos na mesma sala de geografia. Nós já nos conhecíamos desde pequenos, porque estudamos sempre na mesma escola, mas essa foi a primeira vez que cai na mesma sala que ele. Nós conversamos e eu percebi que estava gostando dele, apesar de saber que ele jamais teria olhos pra mim. Durante todo o ensino médio, ele namorou a Talita. Depois a Mariah. Depois a Talita de novo, e depois ele ficou solteiro. E durante todo esse tempo, fui sua amiga. Vez ou outra o aconselhava quando ficava triste ou de coração partido, mas nunca fui sua melhor amiga ou coisa do tipo. Quando o ensino médio acabou, eu passei dois meses fazendo intercâmbio para aprimorar meu francês. Foi ótimo me desintoxicar da escola e aprender um pouco de estilo na França. E aí, eu entrei na faculdade, e mesmo assim, nunca tive um encontro de verdade nem dei meu primeiro beijo. Acho que fiquei traumatizada de ver a Talita roubando a cena em todos os momentos, e acabei me fechando para sempre. Bem, ao menos eu achei que me fecharia para sempre. – O que você acha, Liz? – p**a m***a, eu acabei viajando e deixando o coitado do Brian falando sozinho. Minha mente conseguiu rodar um filme da minha vida amorosa, ou melhor, da minha não-vida amorosa em questão de segundos enquanto ele falava comigo. – Desculpa, Brian. Estou um pouco desatenta. Consegue repetir? – Ele tomou mais um gole do café e falou novamente. – Eu disse que a gente deveria ir em uma festa de novo hoje. Conhecer pessoas novas, beber... E eu prometo que não vou te deixar sozinha de novo, juro! Se eu ficar com alguém na festa, vai ser de mão dada com você! – Ele começou a dar risada e eu realmente imaginei o Brian pegando uma garota enquanto estava de mão dada comigo. Que cena ridícula. – Dessa vez eu passo, Brian. Mas obrigada pelo convite. – Eu sorri, tomei um gole do café e fiquei olhando para a xícara. – Você é tão séria, Liz. Vamos lá, quem sabe você conhece um cara legal que faça você se soltar um pouco... – Neguei com a cabeça e beberiquei o café. – Ih! Desiste, gato! – Louis disse, enquanto olhava as unhas que havia acabado de pintar. – Essa menina só fica enfiada naquele cubículo que ela chama de quarto, e não sai por nada. Ele sabe que você é BV, Liz? – Louis levou a mão até a própria boca, tampando por ter falado demais. – Me perdoa, amor! Merda, eu queria morrer. Tudo que eu precisava era que o Brian soubesse que eu era BV. Uma perdedora BV. Que ótimo. – Louis! Deixa minha vida pessoal para lá! – Eu olhei séria para ele. O olhar de Louis era de completo desespero. – Relaxa, Liz. Mas por que você nunca ficou com ninguém? Qual é, não é possível que você não tenha gostado de nenhum dos caras que já chegou em você. – Brian sorria, como se tentasse entender a história. – Eu acabei esquecendo esse lado da minha vida e é só isso. Não tem motivo, nem nada. Eu sou muito focada nos estudos. – Tentei disfarçar. Brian acabou dando uma risada, se levantou e olhou para o Louis. – Se liga só, Louis. Já que ela esqueceu, vou resolver uma parte disso pra ela. – Brian riu. Com as duas mãos, ele segurou meu rosto e me deu um selinho rápido, caindo na gargalhada em seguida. Louis aplaudiu, dando gritinhos de felicidade. E eu, queria me enfiar embaixo do balcão de alimentação. – Aí amiga! Aleluia perdeu o BV! Ao menos um selinho! Pela honra e glória das rainhas do pop, minha amiga não é mais BV! – Ele batia palmas e dava pulinhos de alegria. Brian ria, e eu escondi o rosto com as duas mãos. Meu rosto fervia de vergonha. Eu gostei? Claro que gostei, mas queria morrer também. – Seus idiotas. Agora eu não sou mais BV, mas virei suicida. Vou me jogar de alguma ponte de tanta vergonha. – Depois de falar, acabei caindo na risada também. Apesar de estar super vermelha, eu estava feliz da vida. Ganhei um selinho do Brian, e mesmo que tenha sido de brincadeira, pra mim, foi muito especial. – Acho que a gente tem muita coisa para fazer hoje. Logo logo começam as aulas, não é? – Brian disse, depois do clima divertido e descontraído se findar. E assim, cada um foi fazer o que tinha que fazer. E eu fiquei ali, pensando no Brian... E no beijo que ele roubou de mim.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR