Império vai cair...

1348 Palavras
Víbora narrando... A respiração dele ainda queimava na minha pele, eu tava ali, deitada, encarando o teto, ele estava dormindo, o sono pesado, e eu só conseguia me perguntar o que eu tinha feito!?Se eu gostei? Muito! Mas não poderia ter acontecido, não mesmo, somos aliados, e às coisas não podem mudar entre a gente. Suspirei, me afastando um pouco, olhei para ele que se mexeu denegar, mas continuou dormindo. O cheiro dele ainda tava grudado no meu corpo, forte, másculo, quente... Furacão fazia jus ao nome, chegou e bagunçou tudo... Enquanto eu observava, não demorou muito para ele acordar, ele me olhou e deu um dos seus sorrisos cafajeste. Furacão: Bom dia, Víbora! — ele disse, perto e eu engoli seco. Víbora: Bom dia, Furacão, levanta, vamos ajeitar às coisas, já está meio tarde. Furacão: Me usa e me descarta, quanta maldade, cobrinha. — ele fala e eu serro os olhos. Levantamos da cama e ele foi para o banheiro, eu coloquei uma roupa e quando ele saiu, eu fui para o banheiro, fiz às minhas higienes e desci, o mesmo estava na cozinha preparando o café, então ficamos no pátio, comendo e conversando. Víbora: Furacão... — eu dei início, mas ele não deixou eu falar. Furacão: Tu estava com vontade, eu também, e aconteceu, isso não vai ser um problema, fica na paz, Víbora. — apenas confirmei, a Lunática apareceu e não disfarçou o sorrisinho. E isso, uma única noite, não passa disso, não pode passar... não tem espaço pra sentimento aqui dentro, nem pra ele, nem pra ninguém. Estávamos na Laje, observando os carros e as motos, o movimento estava estranho, então eu ordenei que o Chavoso metesse bala, não demorou para eles saírem dali... O Furacão meteu marcha e a Lunática pediu para ele avisar quando chegasse, confesso que no fundo, eu também me preocupava, mas não poderia demonstrar. Me encostei no muro, acendi um cigarro de maconha e fiquei só observando, até que a voz da Lunática quebrou o silêncio, sim, eu e ela já conversamos antes sobre colocar o Chavoso como gerente e eu ainda tenho isso em mente e ela também... Eu achava uma ótima ideia, mas não queria que ela percebesse... Depois de um tempo, o meu radinho chiou e a voz dele logo em seguida, mas tinha algo estranho, não tinha aquele ar debochado e brincalhão que ele costuma carregar consigo. Não demorou muito para ele vir até a laje, e quando ele falou, eu fiquei sem reação alguma, p.orra a Dona Marlene com câncer, isso só pode ser brincadeira, a mulher é incrível, sempre cuidou de todos nós e agora isso, a vida só pode estar de brincadeira. Falei para ele que não tinha essa de dobrar plantão, que íamos ajudar, porque eu sabia que o que a gente precisasse, poderíamos contar com ele e mesmo se eu não o ajudasse, a Lunática iria. O jeito que ela olhava pra ele, não era qualquer olhar, era aquele olhar que a gente tenta esconder, disfarçar, fingir que não existe, mas que tá ali, gritando nos olhos, nos gestos, na respiração... E o mais engraçado é que dele também. E ela, pelo jeito ainda nem sabe que gosta, nem se deu conta que o coração dela já tá meio laçado nesse moleque. Víbora: Tá brincando de fogo, Lunática... — soltei, soprando a fumaça, assim que ela saiu da laje, eu sabia para onde ela iria, não era segredo para ninguém... eu não sou de romantismo, nunca fui, mas tem coisa que nem precisa falar, dá pra ver, dá pra sentir no ar, fui para a minha goma e tomei um banho, me joguei na cama e logo a noite incrível que eu tive com o Furacão veio na mente, deu um sorriso, mas tratei logo de afastar esses pensamentos... Na manhã seguinte, meti marcha para a boca, adiantei tudo e a Lunática também, estava na minha sala quando a Lunática chegou, com aquele jeito dela, toda marrenta, mas eu sei quando tem coisa entalada. Víbora: E aí, qual foi? — falei, cruzando os braços, ela deu aquele sorrisinho meio sem graça, coisa rara vindo dela. Lunática: Fui jantar com a Dona Marlene ontem... — soltou, meio que jogando a informação como quem joga uma bomba e espera a explosão, arqueei a sobrancelha, surpresa — Ela que gosta de quando vamos la ela quer que a gente apareça mais vezes, pensei em a gente ir lá hoje, tomar um café com ela. — abaixou a voz, como se aquilo fosse mais sério do que parecia, dei um sorriso de canto. Víbora: Tá ficando sério esse rolê aí, hein... — provoquei, só pra ver a cara dela, ela bufou, revirando os olhos. Lunática: Víbora, namoral, para, não viaja. Víbora: Tá bom... — levantei as mãos, segurando o riso. — Não tem nada... ainda. Ela me bateu no ombro, rindo, e seguimos descendo rumo à casa da Dona Marlene, quando chegamos lá, ela já tava na porta, esperando, mulher forte, guerreira, mesmo com aquele semblante meio abatido, ainda carregava uma dignidade que poucos tinham. Marlene: Minhas meninas! — abriu um sorriso, segurando a porta. — Entrem, entrem... Nos sentamos na mesa, a mesa simples, mas cheia de amor, pão, pão de queijo, bolo, café... Aquele cheiro que abraça a gente. Víbora: E aí, como você tá, Dona Marlene? — perguntei, puxando assunto, ela respirou fundo, segurando a xícara. Marlene: Olha, minha filha... Na luta, né, mas é difícil, a doença não é fácil, e com esse menino teimoso, querendo largar tudo pra me ajudar... — balançou a cabeça, sorrindo de canto. — Eu fico orgulhosa, mas também preocupada, Lunática ficou meio cabisbaixa, mexendo no copo. Víbora: Ele te ama muito, sabe disso, né? — soltei, olhando pra Lunática e depois pra Dona Marlene. Marlene: Eu sei... — ela assentiu. — E te digo mais, esse menino merece uma mulher de fibra, alguém que esteja do lado, que some, que ajude ele a não se perder nesse mundo. Olhei pra Lunática, que me encarou com aquele olhar de "não começa, hein", e não aguentei e soltei na lata Víbora: E eu acho que essa mulher tá bem mais perto do que ele imagina, né não? — Lunática me chutou por baixo da mesa, me fazendo rir. Lunática: Ô, Víbora, para, namoral... — ela falou, meio rindo, meio nervosa, Dona Marlene riu também, aquela risada de quem já viveu muito e enxerga as coisas de longe. Marlene: Eu falo o mesmo, minha filha. Eu vejo o jeito que vocês olham um pro outro, e olha, se for pra ser, que seja. Só peço uma coisa, que seja pra somar, pra cuidar, pra ser apoio. Porque meu filho... ele merece. O clima ficou meio mole, meio emocionante, a gente ficou ali, jogando papo fora, rindo, trocando ideias, e no meio disso, claro, também passamos aquele apoio que ela precisava, deixamos claro que ela não tava sozinha, que o morro é família, que a gente tá junto, e é isso, a quebrada é c***l, mas também é amor, é união, e Dona Marlene... Ela é dessas mulheres que seguram o mundo nas costas. A gente tava na porta, já se despedindo, quando um dos vapores chegou na correria. Clebinho: Víbora! Lunática! — gritou, ofegante. — o meu corpo inteiro entrou no modo alerta. Víbora: Fala! — respondi na lata. Clebinho: Chegou isso, com o nome do Peixe... — ele engoliu seco e me alcançou uma caixinha... ele saiu dali e a Dona Marlene nos olhou, eu e a Lunática olhamos uma para a outra e saímos dali, indo para a boca. Abri a caixa e tinha um recado "Víbora, Lunática, salve princesas, mas só para avisar, o tempo de vocês está contado, o império de vocês vai cair..." o meu sangue ferveu, olhei pra Lunática, que cerrou os punhos, os olhos acendendo daquele jeito que eu conheço bem. Víbora: Filho da p.uta! — falei largando o envelope. Ele só está esquecendo uma coisa... quem mexe com cobra, leva o bote, e se ele quer guerra, ele terá!
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