Perigo atrai perigo

1572 Palavras
Furacão narrando... Sabe... tem gente que nasce pra ser levado pelo vento, tem gente que nasce pra ser derrubado por ele, e tem eu... que sou o próprio Furacão, ninguém me deu esse vulgo à toa. Ganhei no corre, no sofrimento, na marra, porque desde pivete, onde eu passava, eu bagunçava. Meu vulgo ecoava nos becos, nas vielas, nas pistas e até nas bocas que tentaram me diminuir. Mas quem tentou, aprendeu na prática que ventania não se segura. Meu nome de batismo? Lucas, pelo menos, é o que consta no documento lá, mas ninguém usa. Porque foi na rua que eu me batizei de verdade, foi na correria que virei homem, cresci no Chapadão, uma quebrada onde quem não é forte, some. Onde a lei não vem do Estado, vem do corre, vem de quem bota a cara, de quem segura o bonde, de quem protege os seus. Meu pai? Nunca vi, dizem que sumiu no mundo, outros falam que tombou no crime. Minha mãe? Guerreira, lavava roupa pros outros, fazia faxina, se matava pra colocar comida na mesa. Eu cresci vendo ela se desdobrar, e mesmo assim, não dava, a fome batia e o frio também, a conta atrasava e a geladeira fazia eco. Foi assim que eu fui pra rua cedo, primeiro vendendo bala no sinal, depois puxando uns corre pequeno... quando vi, já tava metido no tráfico. E ali... ali eu descobri que eu era diferente. Enquanto uns tremiam, eu encarava, enquanto uns se desesperavam, eu mantinha a calma, ganhei respeito, de muleque virei vapor, de vapor virei gerente... e quando o antigo dono do morro tombou, eu já era quem segurava tudo. Só oficializaram o que já era meu. Hoje quem manda no Morro Chapadão sou eu, quem entra, quem sai, quem vive e quem roda... tudo passa pela minha visão. E não é só pela força, não, é pela visão, porque aqui eu não sou só chefe de boca, sou chefe de comunidade, cuido do meu povo, tem creche, tem reforma na quadra, tem comida na mesa de quem precisa. Porque favela também é potência. E se tem uma coisa que eu aprendi... é que dinheiro não compra tudo, respeito, lealdade, isso não tem preço, agora olha pra mim, vinte e seis na cara, corpo fechado de tatuagem, corrente de ouro que brilha mais que a lua, sorriso de canto que já fez muitas perderem o rumo... e essa postura aqui, de quem não abaixa pra ninguém. Hoje é dia de baile no morro da Víbora. E se tem uma coisa que eu respeito... é mulher que segura um morro, porque não é qualquer uma que tem peito pra isso, ela não é só braba, ela é visão, ela é sangue nos olhos, ela é aquilo que muitas não entende e que muitos tentam, mas não alcança. Cheguei no baile daquele jeito, nave preta, vidrado, som estourando, desci, ajeitei a corrente no pescoço, passei a mão na barba e olhei em volta. O baile já tava lotado, e é automático... onde eu passo, o espaço se abre, na pista, os crias me cumprimentam, as minas olham disfarçado. Uns por respeito, outros por desejo, e eu? Só observo, caminhei até o camarote, subi devagar, aquele olhar sério, que não é de marra... é de quem sabe o próprio valor, ali encontrei o Chavoso, aquele figura que já é quase patrimônio do morro da Víbora. Furacão: E aí, cria... tá suave? — bati palma com ele, puxei aquele abraço de quebrada. Chavoso: Suave na nave, Furacão, tu sabe... onde tem resenha, tem nóis. — ele riu, batendo de leve na minha corrente. — E tu não anda leve, né? Tá pesando uns dois quilos aí no pescoço fácil. — Soltei aquele riso curto. Furacão: Peso de quem carrega história, pai. A gente ficou ali na resenha, olhando o baile bombando, as luzes piscando, a batida do 150 dominando, a favela sorrindo, até que... meu olhar foi puxado, automático, nem precisei procurar. Ela tava lá, Víbora, dona do morro, dona da cena, dona de si. Postura impecável, olhar afiado, aquele tipo de mulher que não precisa falar pra impor respeito. Só o jeito de cruzar os braços, só o levantar da sobrancelha... já deixa claro quem manda. Furacão: Ela é assim sempre, né? — falei, olhando de canto pro Chavoso, ele gargalhou. Chavoso: Sempre, irmão, ela é linha de frente. Faca na bota, é visão, é disciplina, é sangue frio. Dei aquele sorriso malicioso, puxando a corrente no pescoço. Furacão: Cê sabe que... se ela quisesse, eu colocava ela no meu porte sem pensar, né. — Chavoso arregalou o olho e começou a rir. Chavoso: Tu não presta, Furacão. Tu é doido! Furacão: Eu sou mesmo. — dei de ombros. — E tu sabe... quando o Furacão passa, leva tudo. Chavoso: Vixe... — ele passou a mão no rosto. — Já tô até vendo. Fiquei ali, bebendo devagar, só observando, ela conversava com uns aliados, segurava o copo na mão, postura reta, olhar de quem lê até pensamento. Mulher assim... não é qualquer uma... Depois que troquei uma ideia com ela e a Lunática, desci para pegar uma bebida para mim, subi, indo até a Lunática, falei para a mesma que se a irmã dela quisesse, eu colocava ela no meu porte, a mesma ficou rindo de mim, mas não é zoeira... Víbora é linda. Conversei mais um pouco com a Lunática, a mina é firmeza, passou pela maior merda um mês atrás e mostrou que faz jus ao vulgo... Depois me afastei e fiquei mais de canto observando tudo. Fiquei de canto, reparando na Víbora, e sabe o que é pior? Ou melhor... É que eu percebi que ela também reparou em mim. Foi no detalhe, no canto do olho, na virada do rosto. Aquela olhada rápida, como quem não quer nada... mas quer tudo, ali eu tive certeza: essa mulher é encrenca... do jeito que eu gosto. Puxei da memória tudo que eu passei pra tá ali, desde moleque, quando eu não tinha nada além da minha coragem, dos tombos que eu vi, dos parceiros que ficaram, das noites que dormi no chão, do corre pesado pra levantar meu bonde, do dia que assumi a boca, das guerras que enfrentei, dos tiros que tomei e dos que disparei. E agora? Olha onde eu tô. Dono de morro, dono da minha história. Mas quer saber? Por mais que eu tenha tudo... tem coisa que dinheiro não compra, e talvez, essa mulher aí seja uma dessas coisas, terminei o meu copo, puxei mais uma dose, e logo a o Chavoso se aproximou, ajeitei o boné na cabeça e soltei pro Chavoso, sem tirar o olho dela. Furacão: Sabe, irmão... tem gente que acha que vento se segura, mas esquece que quem tenta segurar o Furacão... é o primeiro a ser derrubado. — ele gargalhou alto, batendo no meu ombro. Chavoso: Tá ferrado, cria, tá na teia dela já, e nem percebeu. — Dei aquele sorriso torto. A mesma veio na minha direção e parou na minha frente, bem perto, dava pra ver os olhos dela, castanhos, mas com um brilho que parecia ouro derretido. Furacão: Olha quem decidiu fazer sala. — digo sorrindo, a mesma mordeu o lábio, disfarçando um sorriso, e o Chavoso saiu dali deixando só nós dois. Víbora: Cuidado... — ela disse, chegando meio passo pra frente, tão perto que eu sentia o cheiro dela, perfume doce, mas com fundo amadeirado... cheiro de perigo. — Quem tenta bagunçar meu reino... acaba virando peça do jogo. E aqui... quem dá as cartas sou eu. Furacão: Jogo? — ri baixo. — Eu sou o baralho inteiro, princesa. — ela sorriu segurando o olhar no meu, a mão dela subiu, devagar, e segurou na minha corrente, não puxou, nem apertou. Só segurou, como quem analisa uma joia... ou uma presa. Víbora: Corrente bonita. — Ela comentou. — Combina com você, pesada... cheia de história... e, pelo visto, difícil de quebrar. Furacão: Não quebra, não. — cheguei mais perto, voz mais baixa, só pra ela ouvir. — Mas... se tu quiser... posso deixar você segurar. Só tem um detalhe. Víbora: Qual? — inclinei mais, tão perto que minha boca quase encostou no ouvido dela. Furacão: Quem segura... não solta mais. Ela soltou um riso curto, mordendo o canto da boca, olhou nos meus olhos, séria, mas com aquele brilho malicioso que eu já conheço. Víbora: Tu acha que eu quero segurar, é? — perguntou, jogando o cabelo pro lado, mostrando o pescoço tatuado, que quase não dá para ver. Furacão: Não acho. — sorri torto. — Tenho certeza... Só não sei se é a corrente... ou quem tá usando ela. Ela gargalhou, aquela risada solta, bonita... perigosa. Víbora: Tu é encrenca, Furacão. Furacão: E tu é problema, Víbora. Ficamos uns segundos em silêncio. Só olhando, só sentindo a tensão no ar, o baile seguia, o grave batia, mas ali... parecia que só existia nós dois. Ela soltou minha corrente, deslizando os dedos devagar, quase como um aviso, deu dois passos pra trás, ajeitou o top, olhou por cima do ombro e soltou: Víbora: Se tu acha que segura meu veneno... tenta a sorte, Furacão. — dei aquela risada baixa, mão no queixo, olhando ela se afastar. Furacão: Sorte, não... — falei pra mim mesmo. — Eu jogo com risco, e te juro... nunca desejei tanto ser picado por uma cobra.
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