Não é a primeira vez que vou “stalkerar” o seu perfil. No passado tinha pesquisado o seu nome, Chiara Rigoni: tinha achado três e, embora as fotos não correspondiam a ela, tinha pedido a amizade em todas as três. Duas ignoraram-me, uma tinha aceitado. Entre as fotos desta última havia apenas imagens de gatos. Podia também ser ela, não obstante a descrição indicasse:
Amante de gatos. Web designer. Vive em Firenze.
Escrevi para ela:
Eu tenho um gato estupendo, enorme e branco: chama-se Pallino. Eis aqui uma sua foto.
Ela respondera-me pouco tempo depois:
Pallino é adorável, sabe se lá se o é também o seu dono. Se passares por estas bandas, podemos tomarmos junto um café.
Estava curioso em querer saber se era ela, assim tinha inventado uma diligência de trabalho em Firenze para o dia seguinte.
Marcamos um encontro no parque de estacionamento do Ikea na zona nortenha de Firenze. Tinha esperado ali até ao último instante, mas… não era ela. Uma mulher bonita e formosa, mas não era ela. Durante toda a noite falou do seu ex-marido e da forma como tinha cometido um erro casando com ele; depois passou a narrar os detalhes, mesmo íntimos, as várias saídas desastrosas com outros homens depois da separação.
«A pior ocorreu-me há seis meses com um desconhecido no bate-papo. A primeira noite que saímos pediu uma pizza... Ou se calhar era uma sanduíche. Em suma não importa.»
“Pensava que fosse funcional à história a comida ingerida”, poupei-me do tal comentário.
«Tínhamos saído para nos conhecermos. Ele a dado momento perguntou-me: “Mas já depositaste as contribuições?”»
Esta pergunta absurda despertou a minha curiosidade: «Como assim?»
«Volto a enfatizar: era a primeira vez que saíamos. Ele já tinha ido longe de mais de que iriamos viver juntos. Cada um portanto devia pagar as suas despesas. Enquanto estivermos a trabalhar com o salário, depois com a pensão.»
“Mas já depositaste as contribuições no Inps?”
Não, não era a Chiara Rigoni que estava à procura. Enquanto repenso ao curioso conhecimento, uma nova mensagem da Obscura alba:
Então vens? Peça para subir ao quarto de Patrizia Salvator.
“Estes da seita não usam em nenhuma outra ocasião os seus verdadeiros nomes. Se não têm um pseudónimo para cada estação não se sentem à vontade. Para ser sincero, mesmo Chiara não sei se seja o seu verdadeiro nome.”
Ainda não percebi o que pretende. Ao certo não é um convite “romântico”, também porque fez questão de precisar que quer apresentar-me alguém.
A porta da entrada do hotel está fechada: toco. Ninguém responde. Toco novamente, mais demoradamente. O portão permanece fechado. Se calhar Pollon, a protetora quem está para concretizar uma parvoíce, está a mandar-me um sinal a partir do Olimpo.
Espreito dentro: tudo escuro. Escrevo uma mensagem à Chiara:
Eu estou aqui em baixo no hotel, mas está fechado.
Ela responde sem rodeios:
Digita o código de acesso no teclado à esquerda do portão: 1337, depois suba até ao segundo andar, quarto 40.
Abro o portão e subo as escadas. m*l chego ao andar, a luz oportunamente apaga-se. Acendo-a outra vez e procuro o quarto: está no fim do corredor. Percorrido a metade do corredor a luz apaga-se novamente. Recuo, acendo-a de novo e corro até bater à porta, provavelmente com demasiada impetuosidade.
A Chiara apresenta-se.
«Entra e não faças todo esse rumor!»
«Por que não tenho de fazer rumor?» Digo intencionalmente em voz alta.
Ela vem trajada de umas calças justas e um top azul outrossim aderente: encantado reparando-a, não noto imediatamente…
De repente o grito estridente de uma criança.
«Aqui está, obrigado.»
Ela aproxima-se à cama onde dormia feliz uma criança. Terá pouco mais ou menos um ano, rechonchuda e cheio de cabelos encaracolados loiros. A Chiara pega-a entre os braços.
«Queria apresentar-to.»
Ela enceta um vaivém apertando-o ao peito.
Eu fico imobilizado à entrada do quarto.
«Ele é...»
«Com certeza, é meu filho.»
Nunca vi a Chiara assim. Comigo ficou sempre distante: as poucas vezes que se aproximava, pouco depois retraia-se. Com ele presta muita atenção: beija o pequenote na testa, o abraça, o embala carinhosamente.
«Passa-me aquilo?»
«Aquilo o quê?»
«O biberão, ali na mesa!»
A escrivaninha do quarto foi transformada numa mursery com tudo o necessário para mudar, fazer comer e brincar o petiz. Passo-lhe o biberão como se tratasse de um objeto vindo de um outro planeta.
«Em primeiro lugar deves esquentá-lo.»
Sou entendido nos bebés assim como nos carros da Formula Um. Ou melhor, provavelmente estaria mais a vontade no volante de um daqueles bólides do que ter nos braços um bebé.
Exatamente, como se tivesse lido a minha mente, ela dá-mo nos braços.
«Segura-o por mim, trato eu do biberão.»
«Mas se escapar das minhas mãos e cair?»
«Segura-o muito bem e não o deixa cair! Acomode-se na cama.»
UMA qualquer posição de yoga rúnico seria para mim muito mais simples do que aquela que invento para me colocar sentado com a preciosa carga nos braços. De qualquer forma consigo, mas o pequerrucho desata a chorar. Felizmente chega o biberão. Seguem os arrotos de disposição. “Em que idade o arroto, de coisa belíssima, torna-se pratica vulgar?»
Finalmente a criança fecha os olhos, encosta a cabeça no peito da mãe e adormece-se. A Chiara volta a colocá-la com cuidado na parte central da cama, eu na borda oposta.
«Como se chama?» Procuro saber.
«Vittorio.»
«É o seu verdadeiro nome?»
«É o nome que com o qual lhe registei no registo civil. No ritual purificatório com o qual o “batizamos” à Golden Dawn o seu nome é um outro. Não queres tentar adivinhar?»
Fiquei de tal modo afetado pela presença de uma criança porque o último pensamento é resolver o enigma.
«Giuliano. Giuliano é o nome escolhido para ele pela suprema divindade.»
«E quem seria o pai de Vittorio... Giuliano?» Ela abana a cabeça sem proferir uma palavra.
«Não queres-mo dizer?» Insisto.
«Imagino que não vais digerir.»
«Claramente um m****o da vossa ordem pagã. Terá sido concebido numa noite de eclipse num templo egípcio.»
«Não, foi um ato de amor.»
Aquele substantivo nos seus lábios ribomba nas orelhas. Amor: um termo que não o ouvi pronunciar em nenhuma outra ocasião.
«Prefiro não sabê-lo.»
Agora é ela que quer dizer-mo: «Não, tens de saber».
«Confie em mim: fico com a dúvida.»
«Foi uma prenda celestial. Não teria de forma alguma aguentado até à minha idade para poder…» A Chiara interrompe-se, repara o pequerrucho e por fim revela: «Giuliano é emanação da sua santidade».
Fico assombrado, não pensava que...
«Não vais querer me dizer que tu, com aquele ali...»
«Até ao seu repentino desaparecimento, ele para mim era um guia, pai e... UM companheiro.»
Estendo-me na cama, olho fixamente e demoradamente o teto. Depois viro-me e observo o pequenote adormecido com ar de quem encontra um extraterrestre. Espero que ele assemelhe à mãe.
Passam segundos, parecem horas. O olhar de Chiara repercute-se entre o petiz, eu e o smartphone em cima da mesinha-de-cabeceira: chegam continuamente notificações. Não quero saber mais nada. Estou desiludido. Aliás é sabido: em muitas seitas existe um chefe espiritual que, entre os outros ditames, professa o amor livre, que depois traduz-se na possibilidade para o guru, e somente para ele, de acasalar-se com todas as fiéis seguidoras.
“Terá sido obrigada pela seita”, decido que é a única explicação lógica.
«Terás sido obrigada? rebato, mas desta vez em voz alta.
«O quê?» Pergunta melindrosa a Chiara e depois enfatiza: «Ninguém obrigou ninguém».
Sinto o esgadanhar das minhas unhas sobre uma parede de espelhos.
«Depreendia: terás sido obrigada a fugir depois da morte do...»
«Vim aqui por minha espontânea vontade. Porque, porque… preciso de ti.»
“Sabes quantas vezes quisera que mo dissesse. Mas que momento pior” penso desconsolado.
«O que devo fazer? Arrombar o cofre-forte de um banco suíço ou roubar a Mona-Lisa?»
«Não quero mentir-te: Falo em nome da Ordem Hermética da Alba Dourada.»
“O que tenho eu a ver com a tal fanática e a sua seita?” Giuliano desperta, abre os seus olhos graúdos verdes e está a sorrir. Eu inspiro possivelmente simpatia aos petizes. Poucos segundos e desata de novo a chorar como se não existisse um amanhã.
A Chiara esclarece: «Quando reage desta forma ou tem fome ou fez as necessidades ou ambas coisas».
«Se calhar é melhor que eu vá.»
«Não, espera! Troco e depois continuamos a conversa.»
«Falemos disso amanhã.» Levanto-me da cama.
A Chiara beija-me numa das bochechas e sussurra na minha orelha: «Então vou torcer para tal».
No momento em que estava a sair do portão do hotel cruzo com um distinto senhor, calças brancas e camisa de linho, tanto quanto branca. Afasto-me um bocadinho para deixá-lo entrar, depois tomo a minha direção para casa.
«Repensaste no assunto?» Exclama a Chiara, abrindo satisfeita a porta do quarto.
«Estava à espera de mais alguém?» Dá a sua réplica o distinto senhor.
A rapariga tenta fechar de novo a porta, mas o desconhecido é mais forte e entra.
Ela segura pelo braço Giuliano e resguarda-se num canto.
«Não tenha medo» Exclama com vagar ele. Depois estende a mão: «Chamo-me Constantino».
A Chiara procura apenas proteger o pequenote amassando o seu rosto no peito.
«O que quer de mim?»
«Falar, apenas falar» responde o homem com estudada calma.
«Desapareça ou chamo a polícia», ameaça ela.
«Com isto?» pergunta o desconhecido pegando na mão o celular que ela tinha deixado na mesinha-de-cabeceira.
«Então grito.»
«Não lhe convém. O hotel parece meio vazio e antes que acorra alguém…» Deixa intencionalmente a frase a meio.
«O que quer?» Pergunta a Chiara sem repará-lo no na cara.
Os seus olhos estão todos para a criança entre os braços que, naquela situação concitada, inacreditavelmente adormeceu-se.
«Seria bom se nos acomodássemos e ficássemos calmos, assim lhe explico.»
O homem pega a cadeira diante da escrivaninha e vira-a. A Chiara agacha-se sobre o travesseiro. Sobre o outro depõe Giuliano, depois o cobre com um cobertor cheio de ursinhos.
«Sabe a quem represento eu?»
O senhor extrai do seu porta-iPad uma saqueta e abre-a.
«Posso fumar?»
Sem esperar a resposta, começa a enfiar um pouco de tabaco extraído da saqueta num cachimbo.
«Não» Refuta arrojada a Chiara.
«Subindo vi a receção deserta: ninguém virá a saber.»
«Com certeza, mas não pode fazê-lo.»
Ela repara-o e depois aponta o pequerrucho com um gesto da mão que se transforma numa carícia para o Giuliano.
Constantino, com desagrado à vista, repõe o cachimbo e o tabaco a menos de um metro.
«Sou Cavaleiro da Grande Cruz da Justiça da Ordem Sagrada militar constantiniano de Santo Giorgio.»
«Que ordem é?»
A Chiara já sabe da resposta, mas finge surpresa.
«O imperador Constantino em pessoa confiou a trezentos cavaleiros a incumbência de defender o cristianismo. Sou um dos membros do mais alto grau desta ordem de cavalaria instituída no quarto seculo.»
«E ainda existe?»
«É mais forte que nunca. Reconhecido pelo Estado italiano, tem no comando a Casa Real dos Borbões, pretendente do trono das duas Sicílias.»
«Claramente o reino das duas Sicílias não existe mais.» Constantino olha fixamente nos olhos da rapariga.
«A realidade é bem diferente daquela narrada nos livros de história.» A Chiara encova-se na cama. Distanciando-se do desconhecido.
«Estou aqui por incumbência movida pelo Grande Mestre constantiniano da Sagrada Ordem.»
«O que querem de mim?»
«Sabe muitíssimo bem, não zombe de mim.» A Chiara pensa demoradamente antes de responder.
«Não o tenho.»
O homem dá uma volta em torno da cama e abaixa-se aproximando o seu rosto àquele de Giuliano.
«Está a dormir?»
«Deixa em paz o meu filho, de outra forma…» Constantino senta-se de novo defronte dos dois.
«Sei que não o tem, de outra forma já estaria nas minhas mãos.»
A Chiara repara-se em volta procurando uma escapatória, mas deveria passar por cima do homem para chegar à porta, para além disso com o petiz nos braços.