Aos meus pés

1136 Palavras
Não vejo nada, mas ouço o som dos ratos e o bater de asas dos insetos. O cheiro já não me incomoda e, por estar imóvel, sentada no chão, os animais já tomaram conta do meu corpo. Sinto as patas sobre mim. Eles roem o meu vestido. — Vossa alteza? — O ouço destrancar a cela. Ouço os seus passos vindo até mim. Os ratos fogem. — Sinto muito, alteza. Eu não queria ter a trazido. Agora que está mais perto sei de quem é a voz. É do guarda Raul. Um dos guardas que me trouxe. — Ordens são ordens. — Levanto a cabeça e vejo o seu rosto triste. Sorrio. — Nunca desobedeça ao rei, Raul. — Eu sei. Vamos? Vossa alteza já pode sair. — Posso? Quanto tempo eu fiquei aqui? — A noite inteira. Precisamos ir antes que amanheça e alguém te veja nesse estado. Levanto-me e balanço o meu cabelo para tirar os insetos de cima. — Está bem? — Melhor que nunca. — Espreguiço-me. Vou com Raul para fora da prisão. O meu querido pai foi longe demais dessa vez, mas eu agradeço por isso. Faz-me lembrar das minhas correntes. Correntes invisíveis que prendem os meus pés e as minhas mãos. Estou presa ao rei e aposto que até mesmo após me casar tentará manter as correntes, mas eu não quero que seja assim. Não será assim. O ódio alimenta a alma que sofre e a transforma numa lutadora. Esse ódio não vem de mim, mas me alimenta. E que cresça para que eu me fortaleça mais... — Bom dia, papai! — Pulo na sua cama e ele acorda assustado. — Eleanor?! — Ele sai da cama e me olha. — Está fedendo. Saia da minha cama! Saio de cima dela e coloco as mãos na cintura. — O senhor tinha razão. — Junto as mãos e respiro fundo. — Ficar naquela cela imunda com a companhia de ratos e baratas me fez enxergar as coisas de outra forma. Em troca de fazerem a minha roupa de alimento, deram-me sabedoria. Proporcionaram-me uma nova forma de enxergar as coisas e retrocedi na minha decisão. Se Victor desejar, ele pode voltar ao castelo. — Tudo bem. Eu já havia mandado que o trouxessem de volta mesmo. Ele já deve estar no castelo... O que você disse sobre ratos e baratas? — Ele cobre o nariz. — Nada, meu pai. Com licença, vou me banhar. — Saio do quarto dele e fecho a porta. Sempre recebi ódio e não o usei para o meu bem. Se eu quiser ser dona de mim preciso de um príncipe que quando se torne rei fique aos meus pés. Ninguém mais vai ficar por cima de mim. Eu me tornarei rainha de um dos reinos e o governarei. O meu marido pode fazer o que quiser, viver uma vida fácil e divertida. Enquanto isso, eu vou governar e farei o reino prosperar. Só assim para o meu pai não ter autoridade alguma sobre mim... Cheiro as rosas do jardim. É tão agradável. — Bom dia, princesa — Victor diz. Olho para ele e sorrio. — Bom dia, alteza. — É a primeira vez que me chama por alteza. — Não uso muito os tratamentos reais como o senhor pôde perceber. — Ando em volta dele. Ele me segue com o olhar. — Eu acho que exagerei quando o expulsei do castelo. Posso compensá-lo com um passeio agradável? — Paro de andar e pego a cesta com frutas. — Será um prazer ter a sua companhia. A propósito, a cada dia está mais linda. — Ele me olha de cima a baixo. — E o senhor está de roupa nova. Ainda bem! Ficou ótimo de verde. — E a alteza de azul... — Ele desvia o olhar. — Obrigada. Pedi que a Eliza me ajudasse a ficar melhor que ontem. Sempre me disse que as pessoas são mais respeitadas quando estão bem arrumadas. E até que eu gosto de me arrumar. Gosto da minha aparência. Saímos do castelo junto a um guarda. Coloquei um pano no chão perto ao lago dos patos e nos sentamos. Victor come os morangos. Comeu tanto que os seus lábios estão vermelhos. — A alteza não irá comer? — Fique à vontade para comer. Não estou com muita fome. A propósito, pode parar de me chamar de alteza. Prefiro Eleanor, gosto quando as pessoas falam o meu nome. — Tudo bem. — Ele para e me encara. — Elea... Um pato bate as asas atacando o rosto de Victor. Começo a rir. O guarda pega a sua espada. — Nem pense em machucar o coitado do pato. — Levanto-me e pego o pato. Ele se debate um pouco, mas acaba se acalmando. Acaricio a sua cabeça. — O que foi isso? — Não sei! — Victor bufa. — Eu estava falando com o pato. — Vou para a margem do rio e o coloco na água. Volto para perto de Victor. — Molhou a barra do seu vestido. — Ele passa a mão no rosto. — Não há problema. — Pego um morango e o como. Ele se levanta. — Já que me deu a i********e de chamá-la por seu nome, pode fazer o mesmo. — Farei. Tenho uma pergunta. Diga-me como seria a esposa perfeita aos seus olhos. Se mentir eu vou saber e ficarei extremamente nervosa. — A esposa perfeita... — Ele sorri de lado. — Infelizmente não posso dizer. É algo muito íntimo. — Respeitarei isso. Infelizmente, mas talvez quando nos tornamos mais próximos ele possa mostrar mais de si e acaso demonstrar em pequenas atitudes o tipo de mulher que gosta. — Vamos voltar? — pergunto pegando a cesta. — Mas já? Gostaria de ficar mais tempo na sua companhia. — Fico lisonjeada, mas eu não posso dar atenção apenas ao senhor. — Victor... — Temos 6 meses até o Dia da Lua. Poderemos passar muito tempo juntos até lá, Victor. — Até a nossa morte, se me escolher como o seu marido. — Veremos. — Pego o pano. Victor será minha última opção. A impressão que tive dele não foi boa e não acredito que ele vá ser o homem que espero ser. Que ele se mantenha calmo e não maltrate os meus empregados, pois eu não vou deixar passar. Por hoje, não quero saber mais de passar o tempo com nenhum pretendente, vamos almoçar e jantar todos juntos, apenas isso. A vida é curta demais para eu desperdiçá-la. Sozinha, vou comer o resto destas frutas enquanto leio sobre a queda do reino Dante e a construção do reino Aqua. E que nesse tempo eu não veja o meu pai, pois amaldiçoarei a sua voz. Como Eliza diz, que a Lua esteja comigo e adoce a minha vida.
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