A luz não veio como um clarão comum.
Ela não cegou.
Ela não queimou.
Ela… apagou.
Apagou o som, o espaço, o tempo — como se alguém tivesse passado uma mão invisível sobre a realidade e decidido que tudo aquilo não precisava mais existir.
Elias não caiu.
Não flutuou.
Não esteve em lugar nenhum.
Ele apenas… deixou de estar.
Por um instante — ou talvez por uma eternidade — não havia dor, nem memória, nem identidade. Apenas um vazio branco, absoluto, onde nem sequer o conceito de “ser” fazia sentido.
E então… algo voltou.
Um som.
Distante.
Irregular.
Um batimento.
Outro.
Mais um.
Respiração.
A sua.
O mundo regressava.
Devagar.
Implacável.
Elias abriu os olhos.
O primeiro impacto não foi visual.
Foi emocional.
Algo estava errado.
Profundamente errado.
Ele estava deitado no chão frio de concreto, mas o ambiente… não correspondia ao que ele esperava. A estação subterrânea não estava destruída, não havia rachaduras, não havia sinais de colapso. Tudo estava… intacto.
Organizado.
Estável.
Artificialmente perfeito.
Como uma realidade que tinha sido… escolhida.
Elias levantou-se com dificuldade. O corpo parecia pesado, como se cada músculo carregasse o peso de algo que ele ainda não conseguia lembrar completamente.
Mas o coração…
O coração sabia.
— Lara…?
A voz saiu fraca, quase quebrada.
Nenhuma resposta.
O silêncio foi imediato.
E doloroso.
— Caio…?
Desta vez, houve mais urgência.
Mais medo.
Mais desespero escondido.
Nada.
O vazio respondeu.
E então veio a sensação.
Aquela sensação.
A que nenhum pai consegue ignorar.
Algo estava faltando.
E não era apenas ausência.
Era… apagamento.
Elias virou-se rapidamente.
Os olhos procurando.
O corpo já reagindo antes mesmo da mente aceitar.
E então ele a viu.
Lara.
A alguns metros de distância.
De joelhos.
Respirando com dificuldade.
Viva.
Elias correu até ela.
— Lara!
Ela levantou o rosto lentamente, ainda perdida, mas quando os olhos encontraram os dele…
Houve alívio.
Mas não completo.
Porque ela também sentia.
— Elias…
Ele ajoelhou-se à frente dela, segurando os ombros dela com cuidado, como se precisasse confirmar que ela era real.
— Estás bem?
Ela assentiu, ainda tentando recuperar o fôlego.
— O que… aconteceu?
Elias abriu a boca para responder.
Mas não conseguiu.
Porque a resposta estava ali.
Presente.
Pesada.
E impossível de ignorar.
Lara foi a primeira a perceber.
Os olhos dela começaram a procurar ao redor.
Mais rápido.
Mais ansiosos.
Até que ela parou.
E sussurrou:
— Onde está o Caio?
O mundo não desmoronou.
Não houve explosão.
Não houve som.
Mas dentro de Elias…
Algo partiu.
Devagar.
Irreversivelmente.
Ele levantou-se.
— Caio!
A voz saiu forte.
Desesperada.
Ecoou pelas paredes.
Voltou vazia.
— CAIO!
Nada.
Nem um eco diferente.
Nem um sinal.
Nem uma presença.
Era como se…
Ele nunca tivesse estado ali.
Lara levantou-se também, agora claramente em pânico contido.
— Ele estava aqui — disse ela, quase insistindo contra a realidade. — Ele estava mesmo aqui!
Elias começou a andar, rápido, olhando cada canto, cada sombra, cada espaço como se pudesse arrancar o filho de algum lugar escondido.
— CAIO!
O nome já não era um chamado.
Era uma súplica.
—
Passos.
Lentos.
Controlados.
Atrás deles.
Elias parou.
Virou-se.
Victor Salgado.
De pé.
Intacto.
Mas não era isso que mais incomodava.
Era o ambiente ao redor dele.
As luzes acenderam-se automaticamente à medida que ele avançava.
Os sistemas da estação pareciam responder à presença dele.
Como se aquela realidade… estivesse alinhada com ele.
— Então… — disse Victor, calmamente — …tu escolheste.
Elias aproximou-se imediatamente.
Sem pensar.
Sem medir.
— Onde está o meu filho?
Victor não respondeu de imediato.
Apenas observou.
Como se estivesse avaliando algo.
— Isso depende da escolha que fizeste.
Lara avançou, irritada:
— Não jogues connosco!
Victor virou-se para ela.
— Eu não estou a jogar.
Uma pausa.
— Eu estou a viver no resultado.
Silêncio.
Pesado.
Irrespirável.
Elias deu mais um passo.
— Explica.
Victor caminhou lentamente pelo espaço, como alguém que reconhece cada detalhe.
— O colapso foi interrompido — disse ele. — As múltiplas realidades deixaram de coexistir.
Lara respirou fundo.
— Então… conseguimos?
Victor olhou para ela.
E pela primeira vez… houve algo quase frio demais até para ele.
— Conseguiram estabilizar o tempo.
Elias apertou os punhos.
— E o preço?
Victor virou-se para ele.
Direto.
Sem desviar.
— Redução de variáveis.
Elias sentiu o corpo gelar.
— Diz claramente.
Victor não hesitou.
— Nem tudo foi mantido.
Lara levou a mão à boca.
— Não…
Elias deu mais um passo.
A voz mais baixa.
Mais perigosa.
— O Caio…?
Victor respondeu:
— Não existe nesta linha temporal.
O mundo ficou em silêncio.
Mas não um silêncio comum.
Um silêncio pesado.
Surreal.
Como se até a realidade estivesse a evitar reagir.
Elias piscou.
Uma vez.
Duas.
Tentando processar.
— Isso… não — ele balançou a cabeça lentamente — isso não é possível.
A voz dele não tinha força.
Só negação.
— Eu vi ele — disse Lara, com lágrimas já nos olhos. — Ele estava aqui!
Victor respondeu, frio:
— Não nesta realidade.
Elias recuou um passo.
Como se tivesse sido atingido fisicamente.
— Não… não… — ele passou as mãos pelo cabelo, respirando rápido — isso não pode ser a escolha… eu não escolhi isso!
Victor manteve-se firme.
— Escolheste estabilidade.
Elias olhou para ele.
Os olhos começando a encher.
Mas não de fraqueza.
De dor.
— Eu escolhi salvar o mundo!
— E salvaste — disse Victor. — Mas não podes salvar tudo.
A frase caiu como uma sentença final.
Elias riu.
Mas era um som vazio.
Quebrado.
— Ele era o meu filho…
Victor aproximou-se um pouco.
— Ele era uma variável instável.
— CALA-TE! — gritou Lara.
Mas Victor não recuou.
— A existência dele estava diretamente ligada ao colapso. Mantê-lo significaria manter o risco.
Elias ficou imóvel.
Parado.
Vazio.
— Então ele teve de desaparecer… — murmurou.
Victor corrigiu:
— Ele nunca existiu… aqui.
—
O silêncio que se seguiu foi devastador.
Lara aproximou-se lentamente de Elias.
Colocou a mão no braço dele.
— Nós não sabíamos…
Ele não reagiu.
— Elias… olha para mim.
Nada.
— Elias…
Finalmente…
Ele falou.
Mas a voz… não era a mesma.
— Eu troquei o meu filho… pelo mundo.
Lara fechou os olhos, sentindo o peso daquilo.
— Não foi uma troca…
— Foi — disse ele, cortando.
Silêncio.
— Foi exatamente isso.
—
Victor observava.
Como se estivesse a assistir a algo inevitável.
— Agora entendes — disse ele. — Escolhas têm custo.
Elias levantou o olhar lentamente.
E havia algo novo ali.
Algo mais frio.
Mais profundo.
— Não.
Victor franziu a testa.
— Não?
Elias deu um passo à frente.
— Agora eu entendo-te.
Silêncio.
— Entendo porque queres controlar tudo — continuou ele. — Porque achas que assim evitas perdas.
Victor não respondeu.
— Mas estás errado.
Uma pausa.
— Porque o custo nunca desaparece.
Outro passo.
— Só muda de forma.
Victor inclinou ligeiramente a cabeça.
— E ainda assim… escolheste.
Elias respondeu:
— E vou escolher outra vez.
—
Lara olhou para ele.
— Elias…
Ele virou-se para ela.
Os olhos ainda cheios de dor.
Mas agora com algo mais.
Determinação.
Obstinação.
— Se o tempo pode tirar… — disse ele — …então também pode devolver.
Ela prendeu a respiração.
— O que estás a dizer?
Ele respondeu:
— Eu vou trazê-lo de volta.
Silêncio.
Victor observava.
Interessado.
— Mesmo que isso destrua tudo outra vez? — perguntou ele.
Elias não hesitou.
— Então desta vez… eu não falho.
—
E, em algum lugar…
Fora do tempo…
Fora da realidade…
Uma criança estava de pé.
Sozinha.
Mas não perdida.
Observando.
Esperando.
Como se soubesse…
Que alguém viria.
Caio.
—
E o vazio ao redor dele… respondeu.