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1291 Palavras
A luz não veio como um clarão comum. Ela não cegou. Ela não queimou. Ela… apagou. Apagou o som, o espaço, o tempo — como se alguém tivesse passado uma mão invisível sobre a realidade e decidido que tudo aquilo não precisava mais existir. Elias não caiu. Não flutuou. Não esteve em lugar nenhum. Ele apenas… deixou de estar. Por um instante — ou talvez por uma eternidade — não havia dor, nem memória, nem identidade. Apenas um vazio branco, absoluto, onde nem sequer o conceito de “ser” fazia sentido. E então… algo voltou. Um som. Distante. Irregular. Um batimento. Outro. Mais um. Respiração. A sua. O mundo regressava. Devagar. Implacável. Elias abriu os olhos. O primeiro impacto não foi visual. Foi emocional. Algo estava errado. Profundamente errado. Ele estava deitado no chão frio de concreto, mas o ambiente… não correspondia ao que ele esperava. A estação subterrânea não estava destruída, não havia rachaduras, não havia sinais de colapso. Tudo estava… intacto. Organizado. Estável. Artificialmente perfeito. Como uma realidade que tinha sido… escolhida. Elias levantou-se com dificuldade. O corpo parecia pesado, como se cada músculo carregasse o peso de algo que ele ainda não conseguia lembrar completamente. Mas o coração… O coração sabia. — Lara…? A voz saiu fraca, quase quebrada. Nenhuma resposta. O silêncio foi imediato. E doloroso. — Caio…? Desta vez, houve mais urgência. Mais medo. Mais desespero escondido. Nada. O vazio respondeu. E então veio a sensação. Aquela sensação. A que nenhum pai consegue ignorar. Algo estava faltando. E não era apenas ausência. Era… apagamento. Elias virou-se rapidamente. Os olhos procurando. O corpo já reagindo antes mesmo da mente aceitar. E então ele a viu. Lara. A alguns metros de distância. De joelhos. Respirando com dificuldade. Viva. Elias correu até ela. — Lara! Ela levantou o rosto lentamente, ainda perdida, mas quando os olhos encontraram os dele… Houve alívio. Mas não completo. Porque ela também sentia. — Elias… Ele ajoelhou-se à frente dela, segurando os ombros dela com cuidado, como se precisasse confirmar que ela era real. — Estás bem? Ela assentiu, ainda tentando recuperar o fôlego. — O que… aconteceu? Elias abriu a boca para responder. Mas não conseguiu. Porque a resposta estava ali. Presente. Pesada. E impossível de ignorar. Lara foi a primeira a perceber. Os olhos dela começaram a procurar ao redor. Mais rápido. Mais ansiosos. Até que ela parou. E sussurrou: — Onde está o Caio? O mundo não desmoronou. Não houve explosão. Não houve som. Mas dentro de Elias… Algo partiu. Devagar. Irreversivelmente. Ele levantou-se. — Caio! A voz saiu forte. Desesperada. Ecoou pelas paredes. Voltou vazia. — CAIO! Nada. Nem um eco diferente. Nem um sinal. Nem uma presença. Era como se… Ele nunca tivesse estado ali. Lara levantou-se também, agora claramente em pânico contido. — Ele estava aqui — disse ela, quase insistindo contra a realidade. — Ele estava mesmo aqui! Elias começou a andar, rápido, olhando cada canto, cada sombra, cada espaço como se pudesse arrancar o filho de algum lugar escondido. — CAIO! O nome já não era um chamado. Era uma súplica. — Passos. Lentos. Controlados. Atrás deles. Elias parou. Virou-se. Victor Salgado. De pé. Intacto. Mas não era isso que mais incomodava. Era o ambiente ao redor dele. As luzes acenderam-se automaticamente à medida que ele avançava. Os sistemas da estação pareciam responder à presença dele. Como se aquela realidade… estivesse alinhada com ele. — Então… — disse Victor, calmamente — …tu escolheste. Elias aproximou-se imediatamente. Sem pensar. Sem medir. — Onde está o meu filho? Victor não respondeu de imediato. Apenas observou. Como se estivesse avaliando algo. — Isso depende da escolha que fizeste. Lara avançou, irritada: — Não jogues connosco! Victor virou-se para ela. — Eu não estou a jogar. Uma pausa. — Eu estou a viver no resultado. Silêncio. Pesado. Irrespirável. Elias deu mais um passo. — Explica. Victor caminhou lentamente pelo espaço, como alguém que reconhece cada detalhe. — O colapso foi interrompido — disse ele. — As múltiplas realidades deixaram de coexistir. Lara respirou fundo. — Então… conseguimos? Victor olhou para ela. E pela primeira vez… houve algo quase frio demais até para ele. — Conseguiram estabilizar o tempo. Elias apertou os punhos. — E o preço? Victor virou-se para ele. Direto. Sem desviar. — Redução de variáveis. Elias sentiu o corpo gelar. — Diz claramente. Victor não hesitou. — Nem tudo foi mantido. Lara levou a mão à boca. — Não… Elias deu mais um passo. A voz mais baixa. Mais perigosa. — O Caio…? Victor respondeu: — Não existe nesta linha temporal. O mundo ficou em silêncio. Mas não um silêncio comum. Um silêncio pesado. Surreal. Como se até a realidade estivesse a evitar reagir. Elias piscou. Uma vez. Duas. Tentando processar. — Isso… não — ele balançou a cabeça lentamente — isso não é possível. A voz dele não tinha força. Só negação. — Eu vi ele — disse Lara, com lágrimas já nos olhos. — Ele estava aqui! Victor respondeu, frio: — Não nesta realidade. Elias recuou um passo. Como se tivesse sido atingido fisicamente. — Não… não… — ele passou as mãos pelo cabelo, respirando rápido — isso não pode ser a escolha… eu não escolhi isso! Victor manteve-se firme. — Escolheste estabilidade. Elias olhou para ele. Os olhos começando a encher. Mas não de fraqueza. De dor. — Eu escolhi salvar o mundo! — E salvaste — disse Victor. — Mas não podes salvar tudo. A frase caiu como uma sentença final. Elias riu. Mas era um som vazio. Quebrado. — Ele era o meu filho… Victor aproximou-se um pouco. — Ele era uma variável instável. — CALA-TE! — gritou Lara. Mas Victor não recuou. — A existência dele estava diretamente ligada ao colapso. Mantê-lo significaria manter o risco. Elias ficou imóvel. Parado. Vazio. — Então ele teve de desaparecer… — murmurou. Victor corrigiu: — Ele nunca existiu… aqui. — O silêncio que se seguiu foi devastador. Lara aproximou-se lentamente de Elias. Colocou a mão no braço dele. — Nós não sabíamos… Ele não reagiu. — Elias… olha para mim. Nada. — Elias… Finalmente… Ele falou. Mas a voz… não era a mesma. — Eu troquei o meu filho… pelo mundo. Lara fechou os olhos, sentindo o peso daquilo. — Não foi uma troca… — Foi — disse ele, cortando. Silêncio. — Foi exatamente isso. — Victor observava. Como se estivesse a assistir a algo inevitável. — Agora entendes — disse ele. — Escolhas têm custo. Elias levantou o olhar lentamente. E havia algo novo ali. Algo mais frio. Mais profundo. — Não. Victor franziu a testa. — Não? Elias deu um passo à frente. — Agora eu entendo-te. Silêncio. — Entendo porque queres controlar tudo — continuou ele. — Porque achas que assim evitas perdas. Victor não respondeu. — Mas estás errado. Uma pausa. — Porque o custo nunca desaparece. Outro passo. — Só muda de forma. Victor inclinou ligeiramente a cabeça. — E ainda assim… escolheste. Elias respondeu: — E vou escolher outra vez. — Lara olhou para ele. — Elias… Ele virou-se para ela. Os olhos ainda cheios de dor. Mas agora com algo mais. Determinação. Obstinação. — Se o tempo pode tirar… — disse ele — …então também pode devolver. Ela prendeu a respiração. — O que estás a dizer? Ele respondeu: — Eu vou trazê-lo de volta. Silêncio. Victor observava. Interessado. — Mesmo que isso destrua tudo outra vez? — perguntou ele. Elias não hesitou. — Então desta vez… eu não falho. — E, em algum lugar… Fora do tempo… Fora da realidade… Uma criança estava de pé. Sozinha. Mas não perdida. Observando. Esperando. Como se soubesse… Que alguém viria. Caio. — E o vazio ao redor dele… respondeu.
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