Sabe quando você precisa de mudança, mas não sabe por onde começar? Sim, é assim que estou agora. Não sei para onde ir e nem o que fazer, mas apenas estou correndo pelas ruas com dor nas pernas e querendo que algo seja renovado.
As pessoas passam por mim como se não me enxergassem, o máximo são apenas homens que me olham de relance mas logo desviam. Até porque, já perdi as contas de quantos dias estou aqui nas ruas. Não tenho mais noção do que é ter um lar, então acredito que devo estar imunda e com aparência de moradora de rua.
Olho para o céu e vejo o dia quase completamente amanhecido, mas não paro de caminhar.
— Moça, você poderia me dizer que dia é hoje? — Questiono a uma mulher que corria na rua, e que me olhou rapidamente parecendo me julgar mas apenas tentou manter a educação.
— 20 de dezembro. — Respondeu neutra, apenas por educação.
— Obrigada! — Ela apenas sorriu sem mostrar os dente e voltou a correr.
Ainda tinha tempo para conseguir me reerguer e conseguir voltar para a escola. Tinha até fevereiro para conseguir algo, mas eu conseguiria algo, só precisava de um banho e roupas limpas.
Corri até um chafariz antes que as ruas ficassem movimentadas demais, e então peguei uma blusa e molhei com água.
Não vou mentir e dizer que tomei banho, até porque não tinha como tomar banho no meio da rua.
Mas eu esfreguei o corpo com aquele tecido, molhei o cabelo e lavei o rosto.
Procurei um beco para trocar de roupa com medo e a todo tempo olhando para os lados para ver se nenhum maluco aparecia.
Joguei minha camisa molhada no lixo. Então com a mochila nas cotas pela milésima vez caminhei, procurei por algum estabelecimento que pudesse precisar de um funcionário.
Já limpa, as pessoas me desejavam até bom dia.
— Olá, vi a placa lá na frente. Ainda estão contratando? — Questionei ao caixa do supermercado.
— Na verdade, a vaga acabou de ser preenchida. Nem mesmo tive tempo de ir tirar a placa. Nosso novo funcionário acabou de ir conhecer o local e as regras com o gerente.
— Tudo bem, obrigada. — Sorri forçado.
Quando estava saindo, vi realmente um garoto caminhando com um homem bem vestido bem parecido com um gerente. O que me animou, pois o caixa me tratou bem, como uma possível candidata a vaga.
Caminhei por mais algumas quadras e vi uma loja de roupas com uma placa sobre vagas na frente.
— Bom dia, ainda estão contratando? — Questionei.
— Bom dia! Sim, ainda estamos contratando. Só uma pergunta rápida, você já trabalhou com venda antes?
Dei um passo para trás já sabendo a resposta que me esperava.
— Não, nunca trabalhei antes. — Respondi.
— Queremos alguém com experiência e com um bom currículo, desculpa.
— Tudo bem. — Assenti.
Caminhei por mais algumas quadras, o sol estava quase nascendo. Era manhãzinha e ainda tinha pouco movimento.
As minhas esperanças estavam acabando, por mais que eu tentasse, ainda sentia que de alguma forma tudo o que eu fazia era inútil.
No final do dia eu continuava com os mesmos problemas.
Por mais algumas quadras vi de longe uma movimentação diferente, andei até mais perto. Haviam carros em um enorme estacionamento, uma fachada muito elegante e fechada.
Paro de frente para aquele lugar vendo o letreiro “boate”, sentindo um ímã me puxar para lá. Estava firmando os pés no chão mas o magnetismo me puxava para lá.
Alguns homens saíam lá de dentro, entravam em seus carros e arrancavam. Era estranho.
Poucas mulheres saíam, e era curioso o fato de estarem tantas pessoas saindo tão cedo.
Subi os batentes e caminhei entrando pela porta, andei enquanto observava aquele lugar. Luzes giratórias, um enorme palco com uma passarela que passava no meio do enorme cômodo, uma bancada aparentemente um bar… uma balada, uma boate, eu não sei.
Estava quase sem movimento, talvez porque fosse manhã e as pessoas estivessem indo embora.
— Ei, menina! — Uma mulher aparentemente na faixa de idade de 40 anos, com cabelos ondulados e ruivos gritou chamando minha atenção. — Quem deixou você entrar?
Ela caminhou até mim com seus saltos pretos fazendo barulho no piso luxuoso de mármore reluzente que brilhava até com a luz apagada.
— Não tinha ninguém na porta, estou buscando um emprego. — Respondi intimidada por ela, abaixando a cabeça algumas vezes tentando desviar nossos olhares.
— Você tem quantos anos, menina?
— Faço 16 em breve. — Falei baixo.
— 15 anos. — A mulher murmurou consigo mesma.
— Posso trabalhar como qualquer coisa, posso ser zeladora, garçonete… só preciso de dinheiro e um lugar para ficar.
— Ruth, o último cara deu menos dinheiro, fiz o que você pediu, mas… — Quem é essa garota? — Uma mulher morena na faixa de idade de uns 20 anos parou ao nosso lado, mas a mulher ruiva chamada Ruth não parou de me encarar.
— Olha que garota linda. — Ela tocou meu rosto com as duas mãos o virando para a outra mulher ver. — Que olhar doce, e que rosto de anjo para uma garota de 16 anos. Essa tem tudo que uma agência de modelo procuraria, perfeita, encantadora e… um anjo.
A morena me analisou com uma sobrancelha arqueada, me deixando desconfortável e assustada.
— Os olhos verdes dela são realmente hipnotizantes. — Deu sua opinião por fim. — Mas tem 16 anos, Ruth. Estamos todos errados, mas envolver uma menor de idade vai além do que…
— Quem disse que eu iria envolvê-la, Gracy? — Ruth sorriu maléfica para ela depois de interrompê-la.
— Do que estão falando? — Questionei.
— Ela pode ser um enfeite, parte da decoração apenas para chamar atenção mas não para tocar. — Ruth enrolou uma mecha do meu cabelo com o dedo.
— O que ela poderia fazer então? — Gracy encarou ela de relance tentando acompanhar suas ideias.
— Desfilar, e servir bebidas. — Ruth deu de ombros.
— Então tem uma va…
— Já pensou em ser modelo, gatinha? — Ela me cortou.
— Não sei, nunca pensei niss…
— Quer um lugar para dormir, salário, comida… quer? — Ela ergueu meu rosto com as mãos. Eu assenti. — Então terá, pode ficar e trabalhar para mim.
— Sério? — Meu sorriso cresceu.
— Aé, Ruth. Também fez algum serviço hoje? Está toda descabelada. — Ouvi uma voz familiar vindo da porta, quando olho para trás vejo Tânia entrar. — Você por aqui, garota?
— Conhece ela? — Gracy arqueia uma sobrancelha.
— Ruth… você contratou ela? — Tânia esbravejou. — Ela é menor de idade. — Murmurou como se eu não pudesse ouvir.
Espera… Tânia é uma garota de programa, e analisando em volta parece uma boate um tanto duvidosa.
Caminho para trás as encarando enquanto elas me olham em sincronia.
— Eu não sou prostituta. — Balanço a cabeça.
— Ninguém aqui está dizendo que você é, minha linda. — Ruth caminhou em minha direção e eu recuei. — Está com medo de mim? Não tenha, por favor. Só quero oferecer um trabalho para você como garçonete, e você será minha modelo. Não vai fazer nada que não tenha vontade, confie em mim. — Sua voz era tão mansa que passava confiança e aos poucos fui sentindo que podia confiar nela.
— Mesmo?
— Olhe em volta. — Observei ao redor. — Ninguém aqui está sendo forçado a nada, minhas meninas estão aqui porque querem, não obrigo ninguém a nada. Assim como não vou obrigar você a nada, se depois de 18 anos você se prostituir ou não, a escolha é sua.
— Então o que quer de mim?
— Você veio até aqui porque ninguém quer te contratar, não é? Eu sei disso, sei como é. E garota, você não pode ficar nas ruas, não vai sobreviver por muito tempo.
— O que você quer de mim? — Elevei o tom de voz mais pausadamente.
— Quero que sirva meus clientes, sendo garçonete. E como garçonete atrativa de boate, se vestirá deslumbrantemente. Sem roupas expositivas demais, não pense nisso. Mas vestida como modelo. — Ela movia as mãos demonstrando como se estivesse empolgada em contar seus novos planos. — O que acham, meninas? Teríamos um diferencial. Um desfile como modelos de passarela, onde a principal seria… esta garota deslumbrante.
— É, atrairia muitos clientes. — Gracy respondeu me analisando dos pés a cabeça, mas seu tom de voz tinha um pouco de ciúme.
— Concordo, os homens iam gostar. — Tânia respondeu encarando o chão, com o tom de voz mais baixo.
— O que me diz, garotinha. Aliás… como se chama? — Ruth sorria. Seu olhar, seu tom de voz, seus trejeitos… tudo nela, parecia ser calculado para manipular. Era linda, parecia uma deusa.
— Me chamo Ruby. — Respondi ponderando a ideia. — Quer que eu seja garçonete, e que eu desfile como uma modelo de passarela?
— Exatamente isso, Ruby. — Sorriu. — Trabalhará como garçonete, mas como um extra… irá ser minha modelo, em troca, você sabe… de um lar e comida para você.
— Então meu salário vai ser apenas para ser garçonete? — Questionei analisando os pontos negativos.
— Você disse que queria um lugar para ficar, não é? — Riu. — Nada nessa vida é de graça, jovem. As minhas meninas não moram aqui de graça, com você também não vai ser diferente.
Então era isso que a Tânia estava querendo dizer com “Tenho uma senhora para prestar contas”.
Olhei para a porta atrás de mim.
— Pode ir embora se quiser, não vou te obrigar a nada. Você fica se quiser. — Ela disse me vendo olhar para a porta como se pudesse ler meus pensamentos.
A encarei sentindo algo em mim mudar, como se agora finalmente eu tivesse uma chance de mudar meu destino.
As mulheres ao lado dela me encaravam como se estivessem na expectativa com a minha resposta.
— Eu não vou me prostituir. — Reafirmei.
— Já entendimos! — Ruth retrucou. — Você será apenas um enfeite dessa casa, apenas um objeto de decoração que ninguém vai tocar, apenas admirar.
— Eu aceito. — As mulheres ao lado dela cerraram os punhos rapidamente como “comemoração”.
— Bem-vinda, Rubi. — Ruth sorriu para mim caminhando para um provável outro cômodo. — Aqui dentro esse será o seu nome. Um apelido novo.
Tânia caminhou até mim segurando meu rosto nas mãos.
— p***a, garota. Pedi para você sobreviver por outro meio.
— Relaxa, Tânia. A Ruth não vai fazer uma adolescente de 16 anos se prostituir, casa de prostituição é errado, mas meter uma adolescente a fundo nisso já é demais e ela sabe disso. — Gracy opinou.
— Assim espero. — Tânia alisou meus ombros e caminhou para trás. — Se precisar de algo, pode contar comigo.
— Está com fome, garota? — Acenou com a cabeça e eu assenti, então pondo a mão nas minhas costas me induzindo a caminhar, Gracy me levava provavelmente para comer algo. — As outras vão odiar você por chamar mais atenção que elas, falo por mim, não sei pela Tânia, mas por mim tanto faz se eu tiver um teto para dormir e comida na mesa estará tudo bem.
— Eu nunca quis ser uma deusa dos homens, estou aqui por sobrevivência. Então acho que não preciso responder. — Tânia deu de ombros enquanto caminhávamos as três juntas.