Não preguei o olho a noite toda.
Como presumi, Holly não dormiu em casa, e o vazio do apartamento foi preenchido pelos meus passos e pensamentos incessantes que não me deixavam dormir.
Entre um chá e outro, uma bolacha e outra, eu conversei comigo mesma o tempo todo, bolando uma boa estratégia para solucionar o problema que a Dama de Prata tinha gerado. Leeson não faz ideia que me deu a faca e o queijo, mas seu erro era achar que algum plano estava previamente arquitetado. Eu teria que encontrar uma solução, para poder ajudar o Cohen com o que o mercado já espera, o anúncio de uma segunda proposta ainda mais viável que a primeira.
Pesquisei a noite inteira sobre os lançamentos mais geniais de uma marca, e do jeito que tudo estava encaminhado, tem tudo para ser como Leeson falou, uma contraproposta que faça algum órgão ou instituição financiar os custos do sistema inteligente para essas empresas que comprarem da Archer. E no final das contas, pelos cálculos e estatísticas, a Archer só teria a ganhar.
De frente para a tela do meu notebook, avistei uma aba aberta dos e-mails do Cohen que eu geralmente me encarregava de responder. Os mais importantes encaminhava para o e-mail pessoal dele, a qualquer hora, a qualquer lugar, por isso sempre estava aberto no meu próprio celular ou em qualquer tela de computador que eu tenha acesso, portanto, era muito difícil acumular tantas mensagens não lidas como mostrava a notificação vermelha. Por curiosidade abri, e ao rolar cada vez mais os e-mail pendentes, eu encontrei dezenas, centenas de propostas de empreendedores que gostariam de adquirir o sistema operacional da Archer, como patrocinadores.
Eu não precisava abri-los para verificar, estava no assunto, estava no corpo principal, eram muitas, tantas que me perguntei porquê Cohen não abriu nenhuma delas. Aquilo era a solução para os nossos problemas… digo, para os problemas dele!
Por que eu não vi isso antes? Não precisaríamos ir atrás de instituição alguma, estavam todas ali, e não era uma, ou duas, eram tantas que desisti de contar. Vendo o sol nascer eu corri para o banho e me arrumei mais cedo do que o habitual, tomada por uma onda de adrenalina que eu não sabia de onde vinha.
Sabia que meu corpo cobraria a noite não dormida de hoje, mas no momento eu só pensava em agir! Precisava conversar com o Cohen, precisava explicar para ele de forma prática como tudo podia se resolver. E quando me vi pronta e agitada, Holly entrou pela porta com um copo de café nas mãos e uma expressão embotada.
— Ué… já está pronta?
— Bom dia pra você também. Como foi a noite? — Perguntei parando na sua frente para roubar um gole do seu café.
— Já tive melhores. — Deu ombros. — Anya, são seis horas da manhã. — Informou com a testa franzida e incredulidade na voz.
— Vou chegar junto com o Cohen! Tenho que falar com ele e adiantar umas horas que vou precisar pra sair mais cedo. — Expliquei de modo pragmático, vendo-a desaprovar em uma careta.
— Você não dormiu, né?
— Por motivos bem diferentes dos seus, mas não, não dormi. Beijos não tem nada na geladeira. — Me apressei pescando a bolsa na poltrona da sala para então sair aos seus chamados e protestos sobre sair sem comer nada.
Eu estava agitada, e uma parte dentro de mim até empolgada para tirar aquela preocupação dos olhos do Cohen. Tenho certeza de que ele vai me agradecer no final das contas. E não o julgo não ter pensado nisso antes, pois ele está obcecado pela Dama de Prata que nunca mais vai aparecer.
Chegando no edifício, vi rostos que eu não estava acostumada a ver, pessoas saindo e outras chegando, e um movimento evidentemente muito maior sendo esse o principal horário de entrada dos funcionários. A cafeteria estava a todo vapor. Sei que é o Cohen quem pega nossos cafés agora, mas tecnicamente, ele só faz isso uma hora mais tarde e não espera que eu chegue tão cedo, portanto não pensei duas vezes antes de entrar no estabelecimento para levá-lo — Além de uma boa notícia. — , um café descafeinado, horripilante de amargo, do jeito que ele gosta.
Tudo bem, confesso, também usei como desculpa para ver o Joe. Ele estava distraído no canto do balcão fazendo seus cafés especiais com alguns fios de cabelo loiro caídos na testa que davam um charme no seu visual de barista.
Parei na sua frente chamando a atenção com um pigarrear baixinho, e todo seu rosto se iluminou com o lindo sorriso que abriu em surpresa. Nem parece que me deixou falando sozinha na tarde de ontem.
— Anya. — Me cumprimentou se aproximando do balcão, ao fechar um copo térmico e entregar para a atendente. — Pensei que não te veria mais aqui cedo. Caiu da cama? — Perguntou olhando no relógio de parede.
— Entrei mais cedo. Prepara o de sempre, por favor, o meu com dose extra de café. Vou precisar de energia para aguentar o dia de hoje depois de uma noite em claro.
— Hum, então a noite rendeu. — Comentou com tom malicioso. Livre de qualquer conotação enciumada para eu ter certeza de que estava brincando. Ou era uma indireta?
Talvez… Cohen estivesse errado e ele simplesmente não me respondeu por não ter mais o que responder ou qualquer outra coisa.
Ciúmes, de onde Cohen tirou isso? Eu deveria parar de contar essas coisas a ele. Pior, eu deveria parar de acreditar nessas teorias e conselhos.
— Quem me dera. — Falei sem pensar. — Quer dizer, não, não nesse sentido, quem me dera eu ter passado a noite por outros motivos que não fosse o que passei…
— Tudo bem eu entendi. — me interrompeu ao ver que me embolei. Sua risada me tirou do eixo e de certa forma, me deixou um pouco confusa, intrigada… Para não dizer chateada.
Então tudo bem pra ele se eu tivesse passado a noite com outro alguém?
Claro que sim Anya, por acaso pensa que estão em algum tipo de relacionamento?
Claro que não. Só não faz sentido ele ter agido de forma estranha e hoje estar com um sorriso desses, tão indiferente.
Eu só posso estar ficando louca. Cohen está me deixando louca com esses conselhos e achismos. Olha eu aqui, debatendo comigo mesma.
— Anya, está tudo bem? — Sacudi meus pensamentos ao imaginar minha expressão agora.
— Sim, está, é só que… Você me deixa confusa. — Confessei, vendo-o franzir a testa.
— Eu?
— Joe, dois capuchinhos médios. — Pediu a mesma atendente. Ele assentiu e imediatamente começou a prepara-lo, enquanto eu ainda detinha meus olhos nele. Não muito tempo depois, como se fosse a mistura mais simples do mundo ele a entregou, ganhando um sorriso grato da mesma.
Foi inevitável não reparar na troca de olhar. E quando a ruiva se virou para atender o próximo cliente eu me atrevi perguntar:
— Ela é nova aqui? — Ah minha nossa. Eu estava com ciúmes.
Não, apenas incomodada, estava intrigada, é isso. Confusa talvez… Quer saber eu estou irada!
— Na verdade não, mas ela sempre está no intervalo quando você chega. — Respondeu normalmente. A garota fez um novo pedido enquanto ele finalizava o meu, ao perceber que ele estava ocupado ela sorriu pedindo perdão, e eu retribui, sem conseguir sustentar o mesmo sorriso por muito tempo.
Joe empurrou os dois copos pra mim e eu fiz questão de pagar.
Eu não consigo descrever o que senti ao querer deixar a cafeteria o mais rápido possível. Algo como vergonha e incômodo comigo mesma. Algo semelhante ao sentimento de quando te contam que fadas de dente é coelhinho da Páscoa não existem. Eu me senti iludida, e ao mesmo tempo i****a conforme aquele brilho e calor interno que eu sentia ao lembrar do Joe surgia como uma criança que perde a magia dos contos.
Tudo isso por um mísero sorriso. Apenas uma troca de olhares que me fez perceber que… Quando direcionado a mim, não era exclusivo.
Minha despedida foi breve e a empolgação que eu sentia antes sumiu gradativamente, talvez pelo excesso de pensamentos que pesava na minha mente. Quando cheguei ao andar presidencial, toquei duas vezes na porta e esperei Cohen pedir para entrar, mas ao invés disso, para minha surpresa, ele mesmo a abriu, supondo talvez que pudesse ser outra pessoa.
— Anya? O que faz aqui tão… — Sua pergunta morreu quando seus olhos pousaram nos copos de café.
— Cheguei mais cedo, precisava falar com você. — Respondi sem esperá-lo terminar de formular sua pergunta. Entrei e fui direto para o bar, se eu tivesse com o sono em dia ou menos pensativa, teria pedido permissão para entrar.
— Não disse que eu pegaria nossos cafés a partir de hoje? — Não entendi a fúria em sua voz, nem me esforcei para isso, afinal era o Cohen e eu não estava em meu estado psicológico normal.
— Disse, mas como cheguei mais cedo e estava precisando de cafeína com urgência, resolvi passar lá. Mas, confesso que estou um pouco arrependida. — Contei, enquanto despejava seu café em uma xícara. Adocei com uma colher do meu e virei-me para ele.
Cohen não pegou, estava na mesma posição de quando passei por ele, segurando a porta sem expressão alguma.
— Por que? — Perguntou receoso.
— Não foi bem como eu esperava, mas o que estou dizendo? — ri sozinha sem vontade alguma como uma tola. — Me iludi com mensagens e alguém que criei na minha cabeça, não vem ao caso. Estou aqui pra falar de outra coisa, já olhou seus e-mails hoje? — Forcei um sorriso em busca da empolgação de momentos mais cedo.
Ele apenas negou com a cabeça e finalmente fechou a porta, caminhando com certa apreensão até mim.
Beberiquei meu café e grata pela cafeína correndo como sangue em minha corrente sanguínea, eu gemi.
— Eu tive uma ideia para reverter a situação da Archer. Os e-mails estão abarrotados de empresas patrocinadoras que querem…
— Espera aí. — Me interrompeu. — Você o quê?
Murchei levemente com sua entonação irônica de forma amarga, me sentindo até mesmo um pouco insegura de continuar, mas continuei.
— Eu passei a noite em claro pensando em uma forma de te ajudar, e na minha aula de publicidade e propaganda eu tive a ideia de usar os conceitos de Copyright usando a própria repercussão da Dama de Prata. Como eu havia te falado, lembra? Para usar isso ao seu favor? Pois bem, eu sei como te ajudar, eu abri o e-mail de madrugada e encontrei… — Outra interrupção.
Dessa vez não foi uma fala.
Apenas a risada forçada e sombria. Algo que ecoou pela sala me fazendo desistir de falar. O sarcasmo presunçoso de alguém que desviou seu olhar de mim para o chão, antes de varrer o ambiente com incredulidade.
— Então você quer me ajudar? — Eu não controlei meus músculos faciais se desfazendo aos poucos. Eu não controlei minha postura caindo nem meu olhar perdido no maxilar retesado de Cohen.
De repente me senti tão minúscula diante dele, que nada, nem a caixa branca ainda aberta na sala de estar me fizeram reagir.
Eu só conseguia me sentir um grande pedaço de confusão frustrante. Como alguém que tem sua capacidade colocada à prova.
— Eu não pedi para procurar uma solução, eu não pedi para buscar meu café hoje, eu não pedi para chegar mais cedo, ainda que tenha feito isso para flertar com o barista de sorriso frouxo. Se eu quisesse a opinião de uma publicitária, eu teria procurado especialistas.
Pisquei sentindo-me humilhada. Sentindo cada minuto da minha noite em claro ser reduzida a nada. Toda minha empolgação se transforma em cinzas.
Pelo visto, eu aqui não passava de uma secretária e minhas sugestões só eram bem vindas quando solicitadas. Ele sequer ouviu minha ideia, apenas a ignorou pelo fato de estar vindo da sua secretária. Eu realmente estava preocupada com o caos que gerou a partir da minha fala descontrolada durante o discurso do seu parceiro, eu juro que eu não sabia que repercutiria tanto, e após vê-lo tão exausto ontem, eu me vi na obrigação de tentar ajudar. Acontece que Cohen não queria ser ajudado, pelo menos... Não por mim.
Pois bem, esse é o Cohen!
Anui tão fracamente que duvidei realmente ter feito isso. Deixei a xícara de lado com o ar preso em meus pulmões e a vontade de sumir do mapa.
A respiração dele acelerou profundamente atrás de mim e quando finalmente obriguei meus pés saírem do lugar, senti os dedos do Cohen em volta dos pulsos, e seu toque me trouxe para uma realidade assustadora. Tão rápido quanto puxei minha mão de volta, senti minhas vistas arderem.
— Eu não…
— Eu volto no meu horário! — comuniquei rapidamente. Não busquei seus olhos novamente, apenas ouvi sua respiração bruta e o rugido que arranhou sua garganta como se quisesse me parar, mas eu não parei até sair da sua sala sufocante, e sem rumo, sentindo minha visão cada vez mais embaçada queimar.
Não sabia o que podia ser pior, meu estado ou as lembranças humilhantes acumuladas que fizeram me trancar em uma cabine de banheiro feminino e chorar.
Não estava aos prantos, era um choro silencioso, lágrimas pesadas e uma raiva que me quebrava por dentro. Nunca senti nada igual.
Alguns toques, repetidos toques, tão bagunçados que me fizeram ter a certeza de que eram mais de um, me obrigou abrir a porta e encontrar o trio: Hannah, Andrea e Ruby despejando seus olhares compadecidos pra mim.
— Te vimos passar naquele estado. — declarou Hannah. Se abaixando até ficar da minha altura. Eu estava sentada na tampa do vaso sanitário e desejei não me olhar no espelho pelo resto do dia.
— O que aconteceu docinho? Foi o Cohen que fez isso com você? — Perguntou Ruby com a voz melodiosa.
— Me surpreende nunca ter te encontrado aqui antes, como você aguentou por tanto tempo? — Andrea disparou indelicada.
Sorri sem ânimo algum.
— Dia r**m, apenas isso. — Falei fungando de cabeça baixa.
— Conta pra gente. Juntas somos mais fortes! — incentivou Andrea. — Não é esse o lema?
Eu não sei o quão fundo do poço eu cheguei, só sei que quando dei por mim, estava xingando o Joe, amaldiçoando o Cohen e digitando mensagens de ódio e enviando sem pensar duas vezes com os incentivos das três, que intercalavam para pegar o celular da minha mão e ajudar com palavras ainda piores quando eu me permitia chorar.
— Eu te odeio, exclamação, exclamação, exclamação! — Completou Andrea digitando enquanto falava.
Tomei o celular dela em um ato de coragem, após contar tudo o que aconteceu com Cohen e Joe.
— Seu… café… é… h******l! Exclamação, exclamação, exclamação!
— Essa foi pra quem?
— Joe! — As três murmuravam juntas quando respondi.
— É isso aí. Agora enxugue essas lágrimas, volta para sua mesa e trate o Cohen como uma grande gostosa que você é.
— E nunca mais, repito, nunca mais permita que ele te diminua novamente. — Anui, aceitando as palavras motivadoras da Hannah. — Chorar… só quando o p*u desce pra garganta. — Anui e só me dei conta das suas palavras quando já estava concordando. — E esse p*u nem pode ser do Cohen, porque você sabe, né?
— Você tem mais poder contra ele do que ele contra você. E você só precisa saber disso. — Disse Ruby, erguendo meu queixo com a ponta dos dedos.
Concordei com um aceno, muito mais congruente do que elas imaginavam, pois no final das contas, era a mais absoluta verdade. Eu estava lidando com Cohen como se o codinome que ele tanto procura não fosse eu mesma, mas é!
A mulher daquela noite, que perturba seus pensamentos sou eu! E se ela tem algum poder contra o egocêntrico Cohen Archer, significa que eu não posso deixá-lo me tratar assim. Ela não permitiria isso.
— Ruby tem razão. Esse olhar baixo não, jamais. É ele quem não levanta a b***a da cadeira, enquanto quem olha de cima é você. A menos que esteja fazendo você sabe o quê.
— Para de ser pervertida Hannah, não vê que a menina está sensível. — Repreendeu Ruby novamente.
— Pobrezinha! Poderia levar o homem à loucura se quisesse. Se ele não fosse quem é. Seria uma ótima forma de vingança.
Ruby então riu sozinha inesperadamente.
— Parece que ninguém é boa o suficiente para o Archer certo.
— O errado faz um estrago. — Comentou Hannah com malícia, me trazendo o irmão de Cohen a mente, conhecido por todos como o Archer errado.
— Você é secretária do Casper?
— Já fui, agora estou com o palerma do Winter, mas ainda dou umas escapadinhas, se quiser eu divido, mas já vou avisando, tem que ser comigo.
— Vocês são umas pervertidas, isso sim. — Falei me levantando do vaso para então fitar meu reflexo de frente para o espelho. Meu rosto estava inchado, a ponta do meu nariz vermelha, mas eu não estava no meu pior estado.
Quando prendi meu cabelo para lavar o rosto, Hannah surgiu atrás de mim e segurou o mesmo no topo da cabeça, fitando minha imagem pelo espelho com luxúria.
— Todas nós somos, e eu sei que você tem um lado p********o também! Só precisa deixar que ela te possua. Não passe despercebida, não deixe que homem nenhum te olhe sem se perder. Quando você provar desse poder, vai ver o estrago que pode fazer.