Jantar tenebroso

1342 Palavras
Giulia Sinto o ar pesado quando volto da aula de dança e passo pela porta de casa. Desde que descobri os novos moldes do acordo, tenho evitado os meus pais, porque sei que não vou conseguir disfarçar a minha raiva da situação toda. Também não respondi a uma mensagem do Fábio, perguntando sobre a cor do vestido que vou usar em um evento que nem sei se quero ir e não voltei a falar com o Pedro. Sai da casa dele, 3 noites atrás, com tudo bagunçado dentro de mim, desde as minhas emoções até as sensações do meu corpo. O toque quente dele deveria me assustar, mas a verdade é que senti mais tesäo do que medo. Suspiro enquanto subo as escadas e não me dou conta do que me aguarda quando abro a porta do meu quarto. - Giulia. - A minha mãe se levanta da minha cama e me encara parada na porta. Sinto cada sensação que ignorei nos últimos dois dias percorrer o meu corpo e reforço na minha cabeça que ela não sabe o que o meu pai está fazendo. Imploro aos céus que somente o meu pai esteja a par do acordo e do quanto está entregando aos Garcia. - Teremos visita hoje. - Ela afirma. - Separei alguns vestidos para você. - Ela aponta para a grade da cama, com algumas roupas penduradas. - Preciso de você pronta em uma hora, para receber os nossos convidados. Suspiro, porque é o tipo de coisa que Elza Mantovani costuma fazer. - Quem virá jantar? - Pergunto, mesmo sabendo a resposta. - O seu noivo. - Ela responde, sem demonstrar nenhuma expressão. - Hoje ele deverá pedir a sua mão oficialmente e você vai aceitar. - Sinto a minha boca amargar e penso no Pedro imediatamente. Ele me disse que demoraria alguns dias… - Certo. - Respondo no automático, jogando a bolsa de treino em cima da poltrona. - Vamos falar dos detalhes do casamento que deve acontecer no final do mês. - Sinto a minha alma gelar ao ouvir. - Você vai escolher tudo e não vai se opor a nada que o seu noivo determine. - No final do mês? - Me revolto. - O acordo não foi esse! - Rebato, mas ela nem mesmo se abala. - O acordo mudou. - Ela caminha para a porta, com a leveza de alguém que sabe que está vendendo a própria filha. - O nosso nome está em jogo, Giulia e você vai cumprir esse acordo. - Ela para a porta, me encara e por um segundo vejo dor nos olhos dela, mas logo percebo que imaginei, porque ela completa. - Use o azul claro. Se coloque linda e esteja pronta em uma hora, ou esqueça a dança! Ela fecha a porta e eu ainda fico congelada no lugar pelo que parece a vida inteira. No final do mês? Em 20 dias? Estarei casada com o Fábio em 20 dias? O pânico sobe para a minha garganta ameaçando me sufocar, porque eles não vão respeitar o prazo que pedi, eles querem me casar ainda esse mês. Ele vai me pedir em casamento hoje e terei que aceitar. “Ou esqueça a dança!” A voz dela ecooa dentro de mim e sinto o ódio cobrir a minha pele de uma vez. Já considerei um milhão de vezes abdicar disso, mas a minha única alegria é dançar. A única coisa que é genuinamente minha se resume a isso. Todo o resto são mentiras que construí durante a vida baseado nos ensinamentos deles. Tiro o celular do bolso e disco desesperada para o telefone do Pedro. Ele precisa propor algo para o meu pai hoje. Antes do jantar. Se quisermos evitar a avalanche na minha vida, ele precisa agir agora. - Olá. - Ele atende no segundo toque. - Serei pedida em casamento hoje. - Deixo as palavras saírem. - Eles querem me casar no final do mês. - Eu sei. - Ele responde e suspira. - Mas calma, as coisas estão se encaminhando. - Aperto os olhos com os dedos. - Preciso que confie em mim, Giulia. - Você disse alguns dias… - Eu sei o que eu disse e eu juro, você não vai casar com o Fábio. - Absorvo as palavras dele. - Você tem a minha palavra. - Ainda estou em silêncio, tentando com todas as minhas forças, acreditar nele. - Você falou com o meu pai. - Não é uma pergunta. - Falei e é por isso que preciso que confie em mim e siga conforme a música. - Suspiro mais uma vez. - Consegue fazer isso? - A voz dele não me dá espaço para duvidar. - Consegue confiar em mim? A minha reação natural seria negar, mas nos poucos dias que nos falamos, nas nossas poucas interações ele me viu e me validou mais do que as pessoas que me conhecem a vida inteira. Ele jurou que me ajudaria e jurou mais uma vez que eu não teria que casar com o Fábio. Ele não está brincando. - Consigo confiar em você. - Suspiro. - Vou seguir conforme a música. - Excelente. Nos vemos em breve. - E desliga. *** Uma hora depois estou descendo as escadas, sentindo que o meu corpo está agindo no automático. Tomei banho, me troquei e me maquiei da forma que consegui e ainda estou com o peso das palavras dele na minha cabeça. Preciso que confie em mim. Estou lutando para confiar, mas as coisas começaram a andar numa velocidade nauseante. - Você está belíssima! - A minha mãe me recebe na porta da sala de jantar. - Nossos convidados deve chegar a qualquer momento. - Vejo a mesa posta para 7 pessoas e faço uma conta rápida. - Quem virá com os Garcia? - Ela suspira. - É um convidado do seu pai. - Ela da de ombros. - Não se preocupe com isso… Preciso que fique assim, linda e imóvel, até eles chegarem. E pelo amor de Deus, não fale bobagens. O meu pai vem do escritório, com a expressão turva, parecendo preocupado e os meus olhos queimam de vontade de chorar. Ele sempre foi o meu herói e eu me enganei a vida inteira de que ele apenas estava sendo manipulado pelo entorno, mas agora, depois que li o contrato, consigo ver que a manipulada fui eu. Não tenho tempo para sentir raiva, nem tristeza, porque ouço a campainha e preciso de 5 segundos para me recompor e assumir a máscara de boa moça que treinei a vida inteira. Mesmo que ela pareça perdida em algum lugar dentro do meu pânico. Ouço a voz do Fábio, seguida por outras e assim que ele mê ve e sorri, o meu estômago revira. - Oi bebê. - Ele me dá um beijo na testa. - Grande noite, não? - Oi Fábio. - Ficar presa a ele para sempre se tornou uma realidade próxima demais, mesmo que a esperança finque garras no meu coração. O pai e a madrasta dele seguem logo atrás e quase não me olham, se limitam a me dar um aceno de cabeça. Nos sentamos por alguns minutos na sala de estar, enquanto as pessoas conversam, mas eu não encontro a minha voz e nem consigo me mover, porque em poucos minutos serei pedida em casamento e terei que aceitar. E se eu recusar? Eu posso continuar dançando, mesmo sem se formar. A campainha toca mais uma vez e todos trocam um olhar, antes que o meu pai se levante. - É o meu convidado de honra. - Ele caminha até a porta. - Achei que eu era o convidado de honra. - O Fábio resmunga ao meu lado, mas eu parei de ouvir. Tudo deixou de fazer sentido e eu continuo tentando entender o que está acontecendo, porque seguindo o meu pai, entrando na sala onde estão todos, Pedro Carpinetti aparece sorrindo para mim. E mesmo que eu não admita em voz alta, nem mesmo em pensamentos, eu consigo, enfim, respirar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR