Giulia
- Você está péssima! - A saudação da minha mãe, às 7 horas da manhã, faz a minha cabeça latejar. - Não dormiu?
Não.
Não dormi e talvez eu não durma nunca mais.
- Tive uma enxaqueca terrível. - Minto. - Acho que foi o calor. - Ela me analisa, contando cada marca que devo ter no rosto, após dormir pouco menos de duas horas essa noite e enruga o nariz com um nojo profundo.
- Tome um remédio para dormir na próxima vez, a suas olheiras estão tenebrosas. Não ouse sair de casa sem maquiagem. - Ela retorna a atenção ao celular, enquanto me sirvo de café, decidindo que posso comer na faculdade ao invés de ter uma indigestão tomando café da manhã com ela.
- Deixe a menina, Elza. - O meu pai intervém, mas não me olha. Acho que ele já age no automático quando se trata das críticas da minha mãe. Ele se sente na obrigação de interferir, mas nunca faz isso de verdade.
- Se eu deixar a menina ela vai se tornar uma desleixada e o nosso nome será manchado pelo descaso dela. - Ela retruca e para mim, já deu.
- Tenho aula. - Aviso, mesmo que a minha primeira aula seja apenas às 9. - Bom dia aos dois.
Saio de casa quase correndo, enquanto ouço a minha mãe resmungar sobre base e corretivo para os olhos.
Pego um carro de aplicativo, porque não me sinto segura em dirigir tendo dormido tão pouco.
Passei quase a noite inteira mergulhada na vida e realizações dele.
O que já decidi que é um erro, porque a cada matéria que eu lia, o que mais prendia a minha atenção era a foto de destaque. Os olhos profundos de cada imagem que admirei por minutos intermináveis, parecia analisar o fundo da minha existência, e o meu sensor de perigo gritou como um louco durante a noite inteira.
Ele é um gênio da tecnologia que reinventou a forma que as exportações são feitas?
Sim.
Ele usou uma fatia da própria herança direta para isso, e depois foi deserdado pelo próprio pai?
Sim.
Ele foi embora para a Europa e dobrou a fortuna no primeiro ano, aplicando a mesma estratégia lá, usando um sobrenome nada conhecido?
Sim.
Eu deveria ter perdido o sono, enquanto pensava nele e repassava aqueles olhos famintos na minha memória?
Definitivamente, não.
Ele seria meu cunhado em breve, e a forma como os meus pensamentos estavam se desviando com facilidade para ele, facilidade demais inclusive, me diziam que eu estava indo por um caminho muito perigodo. E levando em consideração que ele declarou para um jornal recentemente que voltou para Boston para ficar, eu deveria deletar ele da minha mente.
Mas, estou encantada e curiosa pelas reviravoltas que a vida dele deu, e como ele lidou com cada uma delas. Ainda estou pensando nisso, mesmo depois da última aula do dia, “Administração na era tecnológica” e percebo que preciso desligar a minha mente. Por sorte, o meu segundo período, que é focado em Artes e dança, terá aulas com foco em libertação de emoções, e talvez isso me ajude a tirar do meu sistema e pensamentos o que eu tenho sentido nas últimas 24 horas.
Aqueço o corpo, com movimentos que já são naturais para mim e logo que a aula começa, eu libero a porta da gaiola que prende cada emoção no meu coração.
Movo o corpo, levanto os braços e estico as pernas. Giro na ponta dos pés, sentindo a ardência de sempre, e essa dor vai além de ser conhecida, ela é desejada, e por isso me entrego.
Grito, choro e giro no próprio eixo, deixando a música instrumental movimentar o meu sangue e liberar a tensão que sinto, não apenas por pensar demais em alguém que não deveria, mas porque ultimamente tenho pensado em coisas demais.
Que a minha vida deveria ser minha.
Que casar agora é um erro.
Que vivi muito pouco.
Que os meus pais estão me usando por dinheiro.
Que eu sou conivente, fraca e serei infeliz por metade da minha vida.
Que eu nunca vou conhecer o amor que tanto me faz suspirar nos livros que eu leio.
Enumero cada potencial erro, de antes de agora e do futuro e libero conforme me movo com a paixão que a dança me permite sentir. Esse parece ser o único amor que conheci na vida, e nunca abriria mão dele.
Por isso aceitei tudo, por isso continuarei a aceitar.
Estou deitada no chão do estúdio, muito depois da aula acabar e pensando sobre movimentos, liberdade e alegria gerados pela dança, quando me questiono se eu não deveria apenas ir embora e recomeçar.
Em outro lugar.
Em outro país, talvez?
Ele fez isso, depois de perder o próprio nome e teve sucesso. Ele é esperto e teve coragem.
Sou esperta, na maioria das vezes e por isso que sei que o que me falta é coragem.
Sento e encaro a minha própria imagem no espelho e consigo ver com clareza as marcas da noite insone que a minha mãe apontou logo cedo e que estão mais intensas depois do choro durante a aula. Os meus olhos estão fundos, muito mais tristes do que normalmente são, a ponta do meu nariz está avermelhada, fruto do esforço e o coque que fiz já está soltando. Vejo em cada linha marcada na minha pele a marca da amargura dos meus 21 anos, que parecem pesar 100 anos. Fico de pé e me estico inteira, sentindo o colã lacear contra o meu corpo e levo o pé até a cabeça, em um movimento de alongamento simples, apenas para relaxar os músculos da coxa. Quando subo a outra perna e me encaro no espelho tenho certeza que a noite sem dormir está cobrando o seu preço. Vejo a imagem dele refletida no espelho, me analisando, me admirando, quase me comendo com os olhos e sei que é a minha imaginação, porque esse olhar faminto permeou os meus pensamentos a noite inteira. Arrumo a postura e vejo quando a imagem imaginária se move, entrando no estúdio e piscando rápido, tento desanuviar a mente.
Me viro, porque acabo de me dar conta que não estou imaginando.
- Olá. - Ele fala, com um sorriso contido, mas os olhos ainda fervendo na minha direção. - Precisamos conversar. - Ele determina e sinto a ordem em cada poro da minha pele.
- Como me achou? - Rebato me sentindo invadida e admirada ao mesmo tempo.
- Tenho os meus contatos, Senhorita Mantovani. - Engulo em seco. - Ou devo te chamar de futura Senhora Galvão?