Giulia
Sinto um estalo de alegria ao ver a expressão dele mudar para surpresa completa.
É exatamente isso Senhor Carpinetti, eu não sou tão tola quanto finjo ser.
Cresci cercada de pessoas exatamente como ele, que sempre buscam uma vantagem em cima de qualquer coisa. E se ele veio até mim, é porque quer uma vantagem de mim.
Ele, sem dúvidas, tem outros meios de atrapalhar os negócios dos nossos pais, mas me envolver parece ter outro motivo.
Os olhos dele me respondem que o motivo gira em torno de desejo e posse, mas o que ele responde é direto e diferente.
- Porque prefiro ter você me devendo um favor, do que o seu pai, por exemplo. - Deito a cabeça de lado, analisando as expressões dele, que antes pareciam cheias de sarcasmos e agora brilham de empolgação. - Você é nitidamente inteligente, articulada e uma excelente atriz, devo pontuar.
- Ainda não ficou claro… - Começo, mas ele me interrompe.
- Se faz de menina inocente, mas eu vi desde o início que de inocente e boba, tem apenas a cara. - Ele abre mais um sorriso e se aproxima mais.
Agora consigo sentir o cheiro dele por todos os lados, a promessa do sabor desse homem queima na ponta da minha língua e pela primeira vez sinto a necessidade de me afastar.
Não me afasto.
- Digamos que você esteja certo, e não estou dizendo que está. - Respondo. - Eu deveria te ajudar por qual motivo?
- Para conquistar o que te falta… - Pisco, e ele completa. - Liberdade.
O que ele tem para me oferecer se resume a uma única coisa, e que para mim, se resume a tudo.
Tudo o que sempre quis.
Tudo o que me falta.
Aquilo que eu estaria disposta a fazer qualquer coisa para ter.
Inclusive ficar casada com um homem intragável por 10 anos e ter dois filhos com ele, para depois buscar a minha liberdade.
Conhecer o mundo. Dançar nos palcos das cidades mais famosas do mundo, não ser o troféu de ninguém, apenas o meu próprio troféu. Me apaixonar e viver um romance que eu escolhi. Casar ou não. Ter filhos ou não.
Me comportar como quiser, falar o que quiser, agir como quiser.
Ele está me oferecendo uma saída para a minha realidade.
Parece bom demais para ser verdade e aprendi desde muito nova que nunca devemos aceitar um embrulho bonito, sem ter certeza do conteúdo.
- É tentador. - Admito. - Mas, não sei se posso confiar em você. - Testo ser honesta, como eu gostaria de ser em todos os momentos.
- Eu não esperaria menos de alguém com olhos tão espertos. - A voz dele segue firme, forte, mas sinto uma rouquidão no final de cada palavra, como se ele estivesse… Flertando comigo?
O brilho do desejo segue estrelado nos olhos dele e imagino um céu límpido, escuro, cheio de estrelas.
Olhos estrelados.
- Não ache que conseguirá algo de mim, que eu não quero dar. - Rebato, porque sinto a tensão emanando dele e fervendo pela minha pele. Ele lambe os lábios, antes de responder.
- Gosto do rumo dos seus pensamentos. - Aperto os olhos. - E por mais que eu te ache atraente, não é esse tipo de coisa que quero de você. - A insegurança amarga a minha boca.
Não estou acostumada a ser rejeitada de forma tão direta. Normalmente, as propostas para me levar para a cama são abertas, quase ofensivas. Tenho consciência da minha aparência e me chateio na maior parte do tempo em ser resumida a isso.
Mas agora, me sinto ofendida por outro motivo.
- Então, me explique, o que quer de mim. - Peço, sentindo o colã quente demais.
Porque eu considerei em algum momento me envolver com ele, mesmo que o pensamento tenha sido expulso violentamente da minha cabeça, depois que me dei conta que ele é o irmão do meu noivo.
Meio-irmão.
Reforço mentalmente.
- Vantagens. - Ele explica. - Você é a única herdeira da Exportações Mantovani, e mesmo que eu negociei com o seu pai agora, é com você que vou dividir os negócios nos próximos anos.
Droga.
- E se eu te disser, que não quero aquela empresa? - Testo o terreno e agora ele parece duplamente curioso. - Que a única vantagem em casar, seria não me preocupar com aquele monte de lixo?
- Para você, um dos negócios mais lucrativos do continente é um monte de lixo? - Ele está chocado, nitidamente.
Rumino as minhas pesquisas da noite anterior. Na minha busca pela elucidação dos negócios, encontrei um amontoado de histórias podres sobre o legado da minha família, que estava disposta a sacrificar a minha liberdade para salvar. Fiquei enojada com o que encontrei, e planejo afrontar o meu avô sobre a veracidade da história. E depois, o meu pai.
Mas, eu faria isso depois de casar, quando o Fábio assumiria os negócios, assim ele herdaria junto comigo o legado podre da minha família.
Seria a minha vingança pessoal contra ele.
Mas, não tive tempo de articular todo o plano direito, porque estou aqui, de frente para o meu passe livre de tudo isso.
- Nós dois sabemos do que estou falando, Senhor Carpinetti. - As estrelas dos olhos dele brilham de satisfação. - Não sou tão ignorante quanto aparento. Talvez, eu tenha demorado muito para me inteirar dos acontecimentos que envolvem o legado da minha família, mas agora eu sei o suficiente.
- Então se casará com o meu irmão, para que ele assuma a bomba? - Ele parece satisfeito.
- Talvez…? - Respondo, sorrindo. - Sei que, nos moldes que estão, eu não gostaria de pisar naquele lugar.
- Bem, então temos um impasse. - Vejo ele mover os ombros largos e me sinto fixada na imagem por um momento. - Você estar à frente da empresa é fundamental para os meus planos. Diferente do meu pai, eu quero investir nos negócios para eles darem frutos, lucrando o máximo possível. Quero investir na estrutura, reescrever a história e fazer da parceria Carpinetti e Mantovani uma verdadeira potência.
- Você sonha alto.
- Nada não alcançável. - Ele rebate. - Então, a minha proposta final:
“Entrarei como principal investidor da sua empresa, desfazendo com elegância o acordo entre os nossos pais, salvando o legado, mesmo que obscuro, dos Mantovani, tendo em você a minha principal porta-voz, e juntos, vamos resolver cada rusga e problema dos dois lados. O casamento será desnecessário e a gestão da sua empresa deverá ser sua. Preciso de 3 anos dessa parceria, depois, você pode fazer da empresa o que quiser. ”
A proposta dele está de fato em um embrulho muito chamativo, chamativo demais.
- O que me diz? - A minha boca está seca e começo a ficar consciente demais das possibilidades. 3 anos gerenciando uma empresa que é minha, sem precisar casar com o Fábio, é milhões de vezes menos destrutivo do que a proposta anterior.
Na verdade, nesses moldes, parece perfeito.
A paciência dele é admirável, mesmo que eu perceba nos olhos estrelados que ele está a cada segundo com mais expectativa. Suspiro fundo e vejo quando ele conclui que vou aceitar.
Triunfo é o que o sorriso dele me diz, ao me ver estender a minha mão para ele.
- Negócio fechado. - Declaro, e a minha voz sai muito mais firme do que eu imaginei. Ele segura a minha mão com firmeza, o calor dos dedos dele envolvendo a minha pele, o que me deixa levemente mole.
- Não irá se arrepender. - Ele se aproxima mais, mantendo a mão na minha. - Tem a minha palavra.