CAPÍTULO 7 – CHAMAS DISFARÇADAS

1758 Palavras
O sábado amanheceu nublado, como se o céu soubesse que alguma tempestade se aproximava — não no clima, mas entre corações m*l resolvidos. Elle aproveitou a manhã para estudar na biblioteca. Queria espaço. Silêncio. Ar. Após a noite anterior, onde beirou o beijo e sentiu demais, precisava de algo familiar: controle. Foi quando Caíque apareceu. Sorriso fácil, mochila jogada no ombro, e aquele jeito leve que fazia tudo parecer menos complicado. — Bom dia, tempestade particular. Fugindo do Théo? Elle arqueou uma sobrancelha, mas riu. — Só estou priorizando minha sanidade. Caíque puxou uma cadeira ao lado dela, sem pedir. — Théo me disse que você mexe com ele. Mas, entre nós, eu acho que é você quem tem o poder aqui. — Se eu tivesse, ele já teria ido embora. — E você já teria esquecido, né? O silêncio que se seguiu disse tudo. Caíque não pressionou. Só ficou ali, dividindo o espaço com leveza. — Sabe, Elle... eu entendo o Théo. Você tem algo que atrai. Não é o que mostra — é o que esconde. Elle suspirou, cansada daquele tipo de análise. — E você, Caíque? Gosta do que eu escondo? Ele olhou nos olhos dela. E não respondeu. Porque a resposta era óbvia demais. Théo apareceu no exato momento em que Caíque colocou a mão sobre a dela — num gesto rápido, leve, mas íntimo o suficiente para acender tudo dentro dele. Ele parou na porta da biblioteca, como uma estátua. Elle notou. E antes que pudesse dizer algo, Théo se aproximou com passos firmes, os olhos faiscando. — Espero que eu não esteja atrapalhando. — ele disse, seco. Caíque recuou a mão devagar. — Está. Mas tudo bem. Já estou de saída. Théo nem olhou para o amigo. Só encarava Elle. Quando Caíque se afastou, o silêncio entre os dois ficou mais denso que os livros ao redor. — O que foi aquilo? — Théo perguntou. — Aquilo o quê? — Você sabe. — Se for sobre um toque na mão, Théo, acho que estamos falando de coisas bem diferentes. Ou você acha que pode me abraçar, me prometer o mundo com os olhos... e eu não posso nem conversar com alguém? — Não é sobre conversar! É sobre ele! — Ele é seu amigo. E estava sendo gentil. — Gentil? Você não vê o jeito como ele olha pra você? — E você vê o jeito como me controla? As palavras cortaram. Diretas. Duras. Théo passou a mão pelos cabelos, irritado. — Desculpa. Eu só... eu vi e... perdi o controle. — Isso é o problema, Théo. Você está sempre tentando controlar tudo. Inclusive o que eu sinto. Ele a encarou. E a raiva cedeu lugar à frustração. — Eu só... estou com medo. De perder algo que nem sei se tenho. Elle respirou fundo. Aquele não era um jogo. Nunca foi. — Você tem. Mas se continuar tentando me segurar à força... vai perder antes mesmo de começar. E saiu, sem olhar para trás. Théo ficou parado, sentindo a fúria se misturar ao arrependimento. Naquele dia, Elle percebeu: Théo não era só charme. Ele sentia. E talvez... sentisse demais. A tarde passou arrastada, e Elle tentou ocupar a mente com qualquer coisa que não tivesse olhos escuros e voz rouca. Mas era inútil. As palavras de Théo ainda vibravam dentro dela. E o olhar dele... aquele olhar cheio de raiva, medo e algo que ela ainda se recusava a nomear — porque se dissesse em voz alta que era amor, talvez ficasse presa para sempre. Théo passou o resto do dia trancado no próprio quarto. Caíque apareceu no fim da tarde e jogou uma garrafa de água na cama dele. — Você vai ficar aí se remoendo ou vai fazer alguma coisa? — Ela tem razão. — Théo respondeu, olhando para o teto. — Eu não sei lidar com esse tipo de sentimento. Nunca precisei. — E agora precisa? Théo respirou fundo. — Preciso dela. E isso me assusta pra c*****o. Caíque ficou em silêncio por um momento. Depois, disse algo que Théo não esperava ouvir. — Eu gosto dela também. Mas você... você ama. E eu não vou competir com isso. Théo sentou na cama, os olhos pesados. — Obrigado. — Não agradece. Resolve. — Caíque saiu, sem esperar resposta. Quando Elle saiu para respirar no final da tarde, encontrou Théo no banco do jardim em frente à biblioteca. Sozinho. Cabeça baixa. Cotovelos nos joelhos. Parecia mais um menino perdido do que o garoto confiante que ela conheceu. Ela hesitou por alguns segundos antes de se aproximar. — Esperando alguém? — perguntou, suave. Théo levantou o rosto, os olhos cansados. Mas quando a viu, sorriu. Um sorriso pequeno, quase tímido. — Estava esperando coragem. Mas você veio antes. Ela sentou ao lado dele, sem tocar. Mas perto o suficiente para que ele sentisse que ainda havia espaço. — Eu fui duro. — ele disse. — Foi. — ela confirmou. — E ciumento. — Muito. Silêncio. — É só que... — ele engoliu seco — eu nunca me importei de verdade. Com ninguém. E agora me pego com medo de perder você, mesmo sem te ter completamente. Isso me deixa... instável. Elle virou o rosto para ele. Os olhos dele estavam vermelhos, mas não era de choro. Era de verdade. — Você não precisa me ter pra me respeitar, Théo. Mas se quiser me ter de verdade... vai precisar aprender a confiar. Inclusive em mim. Théo assentiu. E pela primeira vez, não tentou beijá-la. Só estendeu a mão. Elle olhou para ela por alguns segundos, depois entrelaçou seus dedos aos dele. Simples. Forte. Autêntico. Como tudo o que eles estavam construindo — mesmo sem saber o nome ainda. O céu começava a se tingir de tons alaranjados quando Elle e Théo decidiram caminhar. Sem rumo. Sem pressa. Só os dois, com o som dos passos e do vento brincando com as folhas secas ao redor. — Posso te levar a um lugar? — ele perguntou, com um olhar diferente. Menos provocador. Mais humano. — Vai depender de onde for. — ela respondeu, sem sorrir... mas sem recusar. Théo a conduziu até a parte mais alta do campus. Um mirante pouco conhecido, escondido atrás do antigo laboratório de química, com vista para as luzes da cidade que começavam a piscar lá embaixo. — Costumo vir aqui quando quero ficar longe de tudo. — ele disse, sentando no chão. Elle fez o mesmo. E, por um tempo, ficaram em silêncio, observando a cidade respirar enquanto a noite se estendia devagar. — Sabe... — ele começou, com a voz baixa — você não é a única com portas trancadas. Elle o olhou de lado, surpresa com a vulnerabilidade. — Meu pai é o tipo de homem que conquista o que quer. A qualquer custo. Ele me ensinou que emoção é fraqueza. Que vínculo é risco. Que amar... é perda de poder. Elle permaneceu quieta, ouvindo. — Eu cresci tentando ser ele. Frio. Calculista. Mas cada vez que você me olha daquele jeito... como se me enxergasse mesmo sem querer... eu percebo que não quero ser como ele. Ela não respondeu de imediato. Depois, disse: — Meu padrasto me ensinou que confiar é se colocar em perigo. Que carinho é sempre condicional. Que silêncio é sobrevivência. Théo virou o rosto para ela. E naquele instante, dois mundos quebrados se tocaram sem fazer barulho. — Talvez... — ele disse, com um meio sorriso triste — a gente precise reaprender tudo juntos. Desde o início. Como se fôssemos novos nisso. — Porque somos. — ela murmurou. — E talvez seja por isso que dói tanto. Ela deitou de lado, com o rosto virado para ele. E ele fez o mesmo. Ficaram ali, frente a frente, olhos nos olhos, tão perto... e ainda assim respeitando o espaço. — Obrigada por não tentar me beijar. — ela sussurrou. — Eu queria. Mas hoje... queria mais te ouvir. Elle fechou os olhos. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que era possível construir algo novo. Algo sem medo. Algo que talvez... tivesse nome. Mesmo que ainda não estivessem prontos para dizê-lo em voz alta. O céu já estava completamente escuro quando Théo e Elle voltaram do mirante. O silêncio entre eles não era pesado — era confortável. O tipo de silêncio que só existe quando dois corações finalmente se escutam. Elle queria acreditar que aquela paz duraria. Mas a paz, ela sabia, era um luxo que não costumava durar em sua vida. E sua intuição estava certa. Ao chegar ao alojamento, o celular dela vibrou. Notificação anônima. Uma imagem. Um print de uma conversa antiga entre Bianca e Théo. O tipo de conversa que machuca mais pelo subtexto do que pelo que é dito: “Você disse que ninguém resistia a você. Que ela seria só mais uma.” “Isso foi antes.” “Você me disse que ia usar, Théo. Que ia se divertir com a bolsista.” “Eu menti. Agora some.” Elle ficou estática. As mãos gelaram. O coração, que minutos antes batia calmo, agora parecia uma sirene. — Elle? — Théo perguntou, ao perceber que ela havia parado de andar. Ela virou o celular para ele. A expressão neutra. Fria. Como se a tempestade interna estivesse só começando. Théo leu. A cor desapareceu do rosto. Ele fechou os olhos por um segundo, e quando abriu, tentou se aproximar. — Isso é antigo. Foi antes de tudo... antes de você ser mais que uma aposta. — Então era verdade? — ela perguntou. — Eu fui uma aposta? — Elle, me escuta... — Não. — ela recuou um passo. — Eu escutei você prometer que era diferente. Que sentia algo real. — E eu sinto. — ele disse, com os olhos brilhando de desespero. — Eu sinto mais do que jamais senti. Aquela conversa... foi de antes. Eu não te conhecia. E sim, eu fui um babaca. Mas tudo mudou. Elle riu com amargura. Um riso curto, quase um soluço. — O problema não é o que você sente agora, Théo. É o que você escondeu. Você teve mil chances de me contar. Mas escolheu o silêncio. — Porque eu estava com medo de te perder! — E agora talvez perca mesmo. Ela entrou no prédio sem olhar para trás. Théo ficou parado ali, sentindo que aquela noite — a que parecia ter consertado tanta coisa — talvez tivesse quebrado tudo de novo. E dessa vez, ele não sabia se teria como juntar os cacos.
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