CAPÍTULO 5 – ENTRE LUZES E MÁSCARAS

1876 Palavras
A sexta-feira chegou com um céu indeciso, entre nuvens e promessas. Elle tentava ignorar o turbilhão que se passava dentro de si desde a noite na quadra. Cada vez que lembrava do toque das mãos de Théo, algo se agitava sob sua pele. Na saída da aula, ele estava lá. Como sempre. Encostado na parede, braços cruzados, como se o mundo o esperasse. — Vai ter uma festa hoje. No alojamento dos veteranos de arquitetura. — ele disse assim que ela passou. Elle não parou. Só respondeu por cima do ombro: — E eu com isso? — Você deveria ir. — Não sou do tipo que se diverte em festas universitárias. — Talvez porque nunca foi a uma comigo. Ela parou. Só por um segundo. E virou o rosto, olhando-o com a sobrancelha arqueada. — Esse é seu convite? Théo sorriu. Lento. Quente. — Esse é meu desafio. No quarto, Elle se jogou na cama, ainda com a mochila nas costas. Lina entrou logo depois, animada como sempre. — Me diz que você vai à festa de hoje. Vai ter DJ, luz neon, bebida liberada e gente bonita. E antes que você diga não… Théo vai estar lá. — E você quer que eu vá por causa dele? — Elle perguntou, cética. — Quero que você vá por você. Pra viver. Pra sair da bolha. Pra provar que você pode ser normal por uma noite. Elle mordeu o lábio. Não queria ir. Mas também não queria parecer fraca. E parte dela... queria ver Théo. Só um pouco. Só pra confirmar que ainda tinha controle. O alojamento estava transformado. Luzes coloridas dançavam pelas paredes, a música fazia o chão vibrar e corpos se misturavam em risos, copos e toques. Elle usava um vestido preto simples, maquiagem leve e o cabelo solto. E mesmo sem querer, chamou atenção. Théo a viu antes mesmo de ela entrar completamente. E, por um momento, esqueceu que tudo era uma aposta. Ela era... hipnotizante. — Sabia que viria. — ele disse, surgindo ao lado dela como se o universo o tivesse materializado. — Só estou aqui por insistência da Lina. — ela respondeu, sem olhá-lo diretamente. — E eu estou aqui por você. — ele disse, sem rodeios. Elle sentiu o corpo reagir. A tensão era visível. O ar entre os dois parecia eletrificado. Mas ela precisava manter o controle. — Se for uma jogada, Théo... estou fora. Ele se aproximou, sem tocar. — Não é mais uma jogada, Elle. Não quando você é a única que consegue me tirar do jogo. E então, com o mundo explodindo em cores ao redor, eles ficaram parados no meio da festa. Dois opostos ligados por algo mais forte que atração. Algo que nenhum dos dois estava pronto para admitir. Mas que já era tarde demais para negar. Elle se afastou de Théo sem dizer mais nada, mas sentia o olhar dele colado em cada movimento seu. Pegou um copo de refrigerante — não que estivesse com sede, mas precisava de algo para ocupar as mãos. Para fingir normalidade. Lina apareceu rindo, puxando-a pela mão. — Vamos dançar, garota! Você tá linda demais pra ficar escondida num canto. — Não estou escondida — ela respondeu. — Estou… estrategicamente posicionada. — Estratégia é pra jogos. Hoje é só pra sentir. Elle riu de leve, mas foi arrastada até a pista de dança. E por alguns minutos, se permitiu esquecer. Dançou com Lina, sorriu para dois garotos aleatórios, jogou o cabelo e deixou o corpo seguir a batida. Até que sentiu. O calor atrás dela. O cheiro inconfundível de Théo. Ele não a tocou. Só ficou perto. Tão perto que a simples presença bastava para arrepiar cada pedaço da sua pele exposta. — Você dança bem — ele sussurrou em seu ouvido, a voz baixa e rouca. — Você persegue bem. — Só sigo o que me atrai. Ela se virou de frente, com o coração batendo descompassado. — Vai continuar com essas frases prontas a noite toda? — Só até você admitir que gosta. Elle mordeu o lábio, tentando conter o sorriso que ameaçava surgir. Mas foi nesse momento que a música diminuiu, e um burburinho atravessou a pista. Do outro lado do salão, Bianca havia chegado. Alta, loira, dona do próprio ego, e com os olhos fixos em Théo. Como se Elle não existisse. — Ótimo — Elle murmurou, desviando o olhar. Théo percebeu. Se adiantou. — Elle... — Não precisa dizer nada. — ela cortou, firme. — Eu já entendi. — Você não entendeu. E eu não vou deixar você sair achando que tem algo entre nós dois. — E não tem? — ela rebateu, o peito erguido. — Porque entre nós tem... alguma coisa. Mas talvez entre vocês tenha história. E eu não sou i****a o suficiente pra me meter nisso. Ela deu as costas, tentando caminhar até a saída. Mas Théo segurou sua mão. Forte. Urgente. — Elle, olha pra mim. Ela virou o rosto. E nos olhos dele... não havia mentira. Havia desespero. Desejo. E algo a mais. Algo que ela ainda não sabia nomear — mas que doía só de encarar. — Ela faz parte do meu passado. — ele disse, com a voz mais baixa do que antes. — Você... você tá me ensinando o que é presente. E antes que ela pudesse responder, Lina surgiu, puxando Elle com urgência. — Preciso de você. Agora. — O que houve? — Tem um cara estranho perguntando por você. E o jeito dele… Elle, não parece seguro. Elle sentiu o corpo gelar. O passado, de novo. Como um fantasma atrás da porta. Théo percebeu na hora. A mudança no olhar. O medo disfarçado. — Elle... o que está acontecendo? Mas ela não conseguiu responder. Porque quando olhou para o corredor... viu o padrasto parado ali. E tudo congelou. Elle parou. O mundo à sua volta continuava pulsando — a música, as luzes, as pessoas rindo e dançando. Mas para ela, tudo silenciou. Lá estava ele. O homem que ela tentou esquecer. Que a fez aprender a calar, a correr, a não confiar. O padrasto. Vestido de forma simples, com um boné escondendo parte do rosto, mas ela o reconheceria até de olhos fechados. O modo como ele observava o ambiente. A maneira que os olhos percorreram o corpo dela, como se a possuíssem ainda. Elle deu um passo para trás, sem perceber. Lina segurou seu braço. — Você conhece ele? — Ele não pode estar aqui. — sussurrou, sem ar. — Ele não pode... Théo se colocou entre elas imediatamente. Ele não precisou entender tudo para saber que algo estava muito errado. Bastava olhar para Elle. — Quem é esse cara? — ele perguntou, com a voz baixa, mas firme. Elle não respondeu. Só olhava. Paralisada. O homem fez menção de se aproximar, mas Théo se adiantou. Seu corpo inteiro mudou. Os ombros se tensionaram, os punhos cerraram, os olhos endureceram. — Tem algum problema? — ele perguntou ao estranho, bloqueando a passagem com o corpo. O homem sorriu, cínico. Um sorriso que Elle conhecia bem. — Só queria ver uma velha conhecida. Nada demais. — Aqui você não vai ver ninguém. — Théo disse. — E se tentar, vai se arrepender. A tensão explodiu. Alguns olhares começaram a se voltar. Bianca apareceu por trás, cruzando os braços, observando tudo com interesse venenoso. — Que cena mais dramática... — ela murmurou. Théo ignorou. Pegou Elle pela mão com firmeza, mas com delicadeza. — Vem. Vamos sair daqui. — Não, ele... ele vai seguir. Ele sempre segue... — Ele vai seguir coisa nenhuma. Você está comigo agora. — disse, e o tom dele era grave, cheio de algo que Elle nunca tinha ouvido: proteção. Ela deixou que ele a levasse. Por um corredor lateral, saíram pelos fundos do prédio. A noite estava fria. Silenciosa. E, por um instante, parecia segura. Elle sentou-se na calçada, com as mãos tremendo. Théo ajoelhou-se à sua frente. — Me fala. Quem era ele? Ela mordeu o lábio com força. Respirou fundo. O passado inteiro comprimido na garganta. — Meu padrasto. — ela disse, finalmente. — O homem que me criou depois que meus pais morreram. O homem que... — a voz falhou —... que me transformou no que eu sou. Théo sentiu o sangue ferver. — Ele encostou em você? Elle assentiu com a cabeça, sem dizer mais nada. E foi aí que ele soube. Não se tratava mais de uma aposta. Não se tratava de ganhar um jogo. Se tratava de proteger uma garota que já tinha perdido tudo. E que, mesmo assim, ainda lutava em silêncio. — Ele não vai mais te encostar. Eu juro, Elle. Eu juro por mim. Por você. Ela o olhou. Os olhos ainda cheios de medo... mas também com um lampejo de esperança. E naquela noite, entre a dor e o frio, Théo segurou sua mão e prometeu, sem dizer mais nada: Ela não ia mais lutar sozinha. Théo não soltou a mão de Elle nem por um segundo. Caminharam em silêncio pelas ruas internas do campus, já quase vazias. A brisa da madrugada balançava os fios soltos do cabelo dela, e os olhos ainda estavam distantes, mas havia algo novo ali. Ela não parecia mais prestes a fugir. Ela parecia... cansada de fugir. — Vem comigo. — ele disse, baixinho. — Pra onde? — Pra um lugar onde você possa respirar. Elle hesitou por um segundo. Mas, como se algo dentro dela cedesse, assentiu. O quarto dele era simples. Muito mais do que ela imaginava para um garoto rico e arrogante. Poucos móveis, muitos livros, um violão encostado no canto e um cheiro amadeirado que era tão Théo quanto seu olhar. — Pode sentar. — ele indicou a cama. — Prometo não te tocar sem permissão. — Não é isso. — Elle respondeu. — É só que... nunca estive assim. Num espaço que não precisei desconfiar. Théo se encostou na parede, de braços cruzados, observando-a com o tipo de atenção que não sufoca — acolhe. — Você não precisa falar nada hoje. Nem amanhã. Mas se um dia quiser, eu vou estar aqui. Elle olhou para ele por alguns segundos. Longos, intensos. E então, tirou os tênis devagar, subiu na cama e puxou o cobertor até a cintura. Seus olhos ardiam, mas ela não chorava. Théo se aproximou devagar. Sentou na beirada, de frente para ela. — Posso só... ficar aqui? Ela assentiu com um gesto quase imperceptível. Ele esticou o corpo e deitou ao lado dela, sem encostar. Só dividindo o espaço, o silêncio, a madrugada. — Por que está fazendo isso? — ela sussurrou, finalmente. Théo virou o rosto, encarando o teto escuro. — Porque pela primeira vez, eu sinto que o que eu faço... importa pra alguém. Elle ficou em silêncio. Então, devagar, se virou de lado, aproximou-se e encostou a testa no ombro dele. Um gesto pequeno. Mas, para ela, era como entregar uma chave. Théo não se mexeu. Só respirou fundo e sussurrou: — Você é mais forte do que imagina, Elle. E eu... só quero ser alguém que não te assuste. Naquela noite, eles não se beijaram. Mas dormiram juntos. E pela primeira vez em muito tempo, Elle dormiu em paz.
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