Capitulo 4

1011 Palavras
Rhae Termino de assistir à televisão e me levanto do sofá, sentindo o corpo um pouco pesado de tanto ficar parada. A mansão está silenciosa demais. O tipo de silêncio que não é confortável — é atento. No canto do olho, vejo algo se mover. Um vulto preto atravessa o corredor rapidamente. Meu corpo reage antes da mente. O coração dispara, o ar some dos meus pulmões, e dou um passo para trás instintivamente. — Calma, humana. A voz surge do nada. Grave. Controlada. — Consigo ouvir seu coração daqui. Ninguém vai te fazer m*l. Viro-me lentamente na direção da voz. Ele está encostado na parede, quase como se sempre tivesse estado ali. Cabelos pretos, longos, caindo sobre os ombros. Olhos negros, profundos, atentos demais. Parece jovem, mas há algo em sua postura que não combina com juventude. Ele me observa do mesmo jeito que Dante fez horas atrás. Sem pudor. Sem pressa. — Até agora só conheci o Dante — digo, tentando soar tranquila. — Imagino que você seja um dos três que faltam. Abro um pequeno sorriso, mais por educação do que por conforto. Ele percebe. E vira o rosto. — Sebastian — diz friamente. — Vai ser irmã… ou noiva? A pergunta me pega desprevenida. — Isso… importa? — pergunto, tentando arrancar algo dele. Ele volta a me encarar. — Importa tudo. — Seu tom é seco. — Se for noiva, quero ver seu desespero tentando conquistar um de nós. Se for irmã… sinceramente, não vou me importar. Vai carregar o sobrenome, não o sangue. Cada palavra cai como uma lâmina. Meu peito aperta. Eu não quero luxo. Não quero poder. Eu quero uma família. Quero ser escolhida. As lágrimas vêm antes que eu consiga segurá-las. Sebastian congela. Os olhos dele se arregalam levemente ao perceber meu rosto molhado. — Ei… — ele se aproxima um passo. — Não chora. Eu… me desculpa, tá bem? Não respondo. Ouço passos atrás de mim, mas não viro. Não quero que mais ninguém me veja assim. — Tinha que ser o caçula fazendo ela chorar. A voz é conhecida. Dante. Ele surge ao meu lado, passa a mão pelo meu cabelo sem pedir permissão e sorri — mas, dessa vez, não é provocação. É acolhimento. — Senta no sofá — diz. — Vou pegar água pra você. Antes que eu consiga responder, ele já desapareceu. E antes que eu dê dois passos, ele reaparece com um copo de água… e alguns doces. — Obrigada… — digo, a voz falha. — Mas acho que vou pro meu quarto. — Sebastian — Dante diz, sem olhar para ele —, vai fazer algo útil. Sebastian hesita, depois vira as costas e sai. — Ele ainda é uma criança comparado aos outros — Dante comenta. — Um adolescente esquentadinho com séculos de idade. Ignora. — Pensei que você fosse hibernar. — Três horas já bastam. — Ele dá de ombros. — Daqui a pouco todo mundo acorda pra jantar. Bebo a água. — Obrigada… por agora. Ele inclina a cabeça, o sorriso voltando ao lugar perigoso de sempre. — Nem agradece. — Se aproxima um pouco. — Ainda vou te perturbar bastante se virar nossa irmã. O sorriso dele é quase diabólico. — Agora vai tomar banho, se arrumar. — Bagunça meu cabelo de novo. — Os outros são piores que o Sebastian. Eles julgam roupa. Subo antes que ele diga mais alguma coisa. O banho quente é reconfortante. Nunca usei uma banheira antes, então demoro até entender como funciona. Fico ali tempo demais, tentando acalmar o coração. Escolho meu melhor vestido. Branco, simples, com flores. Comportado demais para uma mansão dessas, mas é o que tenho. Quando desço para a sala de jantar, meu coração quase para. A mesa é enorme. Todos já estão sentados. — Desculpa… acho que me atrasei. — Fique tranquila — Valéria diz suavemente. — Ainda faltam cinco minutos para servirem. Uma cadeira de madeira avermelhada se destaca. A empregada apenas sinaliza, e eu me sento. Analiso os rostos. Um homem de cabelos pretos médios e olhos carmesim — idêntico a Valéria. Outro, de cabelos castanhos e olhos vermelhos. — Antes de comer — Valéria diz —, vamos nos apresentar. Comece, pequena criança. Engulo em seco. — Meu nome é Rhae… eu… não tenho muito a dizer sobre mim. Sou órfã. O silêncio cai. — Por enquanto — Dante diz, girando a taça vazia. — Rhaezinha. Sou Dante. O segundo mais velho. — Sebastian — diz o de cabelos pretos. — Sou o mais novo. E… sinto muito pelo que falei mais cedo. — Lucien — o homem de olhos carmesim diz. — Sou o mais velho. O olhar dele pesa sobre mim. — Drago — diz o outro, curto. — Terceiro filho. — Vamos jantar — Cassius ordena. Para mim, comida normal. Para eles, sangue. É estranho… mas suportável. Sinto os quatro me observando. Quando terminam, os olhares se intensificam. — Podemos fazer algumas perguntas, Rhae? — Lucien diz. — Não gostamos de mentiras. Meu estômago se revira. — Tá… Valéria e Cassius se levantam. — Vão me deixar sozinha com eles? — Eles não mordem — Valéria sorri. — Apenas perguntam demais. Se precisar, há um celular em seu quarto. Eles somem. O silêncio pesa. — Quantos namorados? — Dante pergunta, divertido. — Nenhum. Eles analisam. — É gananciosa? — Sebastian pergunta. — Não. — É carente? — Drago. — De amor familiar, sim. — Então nos quer como irmãos? — Dante pergunta, sério demais. — Sou órfã. Vocês que criam essas perguntas estranhas. Lucien inclina a cabeça. — É virgem? — Pensei que esse fetiche fosse só de livros. Ele espera. — Sim — respondo, corando. — Um anjinho de sangue raro — Sebastian debocha. Respiro fundo. — Posso fazer perguntas… ou só vocês podem? Os quatro me encaram. Lucien sorri lentamente. — Agora você começa a ficar interessante. — Pensei que a bonequinha da mamãe não tivesse curiosidade ou opinião, mas enganei-me — Dante diz enquanto olha meu rosto com um misto de curiosidade.
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