Capítulo 2 - De volta em Miami

1478 Palavras
Eu já havia esquecido como Miami podia ser quente. Acostumado com o frio da Europa, aquele clima para mim agora era estranho – pensei, tirando o paletó que usava naquela manhã. Caminhei entre as pessoas que andavam de um lado para o outro, grudadas aos seus aparelhos celulares ou em conversas entretidas. Ajeitei a minha camisa, deixando o paletó dobrado em meu braço, colocando meu RayBan aviador no rosto, enquanto me dirigia até a saída do aeroporto de Miami. Do lado de fora, vi a Mercedes preta à minha espera. — Bom dia, senhor Martínez! – o motorista falou de forma educada. — Bom dia, Alfred. – Respondi, entrando no carro. Entrei no carro que estava com uma ótima temperatura graças ao ar-condicionado milagroso. — Quando Miami foi tão quente? – resmunguei, largando meus pertences sobre o banco. — Sempre foi, senhor, o clima aqui sempre foi quente – ouvi Alfred dizer em meio a um riso baixo. — Desculpe perguntar, mas como está o seu pai? — Tem razão, eu que já estou esquecido daqui – falei calmamente, enquanto me acomodava no banco do carro. — Ele está bem, está em L.A. com a minha família. — Isso é ótimo, gosto muito do senhor Martínez! Para onde devo levá-lo, senhor? – ele perguntou olhando pelo pequeno espelho. — Ao meu novo apartamento, Alfred, siga caminho por essa rua, que eu lhe darei as coordenadas… – apontei frente, e ele seguiu pela a avenida. Olhando pela janela do carro as ruas de Miami, eu recordava dos meus tempos vividos por aqui – e que belos tempos, eu diria! Conhecia aquela cidade como a palma da minha mão. Afinal, eu nunca fui apenas esse homem sério e amargo, que só pensava em trabalho. Eu já tinha aproveitado um pouco da vida. “Um pouco” não, muito – eu me corrigi. Meus pensamentos vagaram por lembranças de todas as coisas que aprontei, mas aquilo agora havia ficado no passado. O logan imaturo e irresponsável não jazia mais aqui. — Vire à esquerda, no próximo quarteirão – falei para o senhor que obedecia as minhas coordenadas perfeitamente bem. Finalmente chegamos ao prédio onde agora eu iria morar. Alfred rapidamente saiu do carro, caminhando em passos largos até a minha porta, onde em um gesto a abriu. — Obrigado – eu acenei educadamente. Alfred era o meu motorista desde quando era mais novo e morava com os meus pais. Ele era um senhor muito prestativo por sinal. Sempre estava disposto à trabalhar, não importa quando fosse. Caminhei para dentro do saguão do prédio, onde rapidamente os funcionários se colocaram em seus devidos lugares. Era cômico como eles se portavam em minha presença, as pessoas geralmente se acuavam comigo. Talvez seja o jeito rude e arrogante que eles imaginavam que eu teria, e eu não fazia questão de desmanchar essa imagem. Hoje, para ser respeitado, as pessoas tinham que temer sua presença. — Bom dia, senhor Martínez, o nosso funcionário vai colocar as suas malas no seu apartamento, é o 308, o único da cobertura. Eu nada falei, apenas assenti em um breve aceno e segui para o elevador. Chegando ao meu apartamento, o rapaz ruivo entrou logo atrás de mim empilhando todas as malas perfeitamente bem em meu quarto. — Mais alguma coisa, senhor? – ele perguntou. — Pode se retirar – apenas disse. O apartamento era grande. Uma enorme área com estilo contemporâneo e sofisticado, repleto de moveis de cor branco e marrom, nas paredes cores claras e algumas escuras, com quadros de lindas pinturas, tudo estava a meu gosto. Caminhei até a sala onde descansei sobre o sofá, tirando o sapato, por uma fração de segundos, e o meu corpo amoleceu sobre o estofado. A viagem tinha sido longa, ou melhor, a vida estava sendo dura demais. Levantei novamente, seguindo para a enorme sacada de meu apartamento. Dali eu poderia ter uma bela visão dos arranha céus de Miami e de seu belo litoral, essa era a vantagem de morar em uma cobertura. De cima, podia-se notar a forte movimentação daquele horário, pessoas de um lado para o outro, carros trafegando incansavelmente, buzinas, pessoas falando alto. Só não era pior que em N.Y., aquele inferno. Ouvi o toque do meu celular, e tirei ele do bolso. O número me era desconhecido, mas com toda certeza era alguém de Miami. — Alô? — Gostaria de falar com Logan Martínez, por favor! – ouvi uma voz mais do que familiar do outro lado da linha, mas eu não podia acreditar. — Quem deseja? – perguntei, com certa dúvida. — Um velho amigo! – ele riu do outro lado, e depois de ouvir aquela risada, eu não tinha mais dúvidas. — Iglesias? – eu arrisquei advinhar. — E aí, mano? – ele riu, como se estivesse brincando comigo. — Que bom que ainda reconhece a voz do seu amigão?! — Como esquecer, não é mesmo? Eu te aturei por tanto tempo – eu falei com um sorriso no rosto. Charles Iglesias era ninguém menos do que o meu melhor amigo de infância. Ao lado dele, eu cometi as maiores loucuras da minha vida. Nós dois éramos inseparáveis, para tudo estávamos perto um do outro. Charles sempre foi meu apoio, esteve comigo em momentos difíceis e complicados da minha vida. Já havia muitos anos que eu não o via, e confesso ter ficado com saudades. — Soube que voltou para Miami hoje. Já estou ligando para saber onde você está se escondendo! – ele falou rindo. — Tava com saudade de te perturbar! — Eu também estava... Aliás, como conseguiu o meu número? — Segredo! Tenho minhas fontes! Ainda tenho os meus contatos! – ele falou em tom convencido, me fazendo revirar os olhos. — Parece que você não mudou em nada! – eu acabei rindo com ele. — Estou morando em Paraíso Miami Palace. — Isso é para esnobar que você é milionário? Eu não pude evitar de rir. Charles era sempre uma piada, sempre um sorriso. Estar perto dele era sinônimo de diversão e boas gargalhadas. — Óbvio que não, mas você sabe que eu sempre quis morar aqui, e agora eu posso! – falei um tanto convencido. — Você é um bundão mesmo! – bufou. — Vou terminar algumas coisas aqui e vou até aí, quero você encontrar você pronto! – ele falou desligando. Enquanto ele não aparecia, tomei um belo banho de hidromassagem. Estava cansado de um dia exaustivo de viagem, afinal ir de Paris até Miami não era tão divertido para mim, que vivia em pontes aéreas. Já estava quase anoitecendo, quando ouvi o som da campainha tocar, levantei-me de minha confortável cama para atender, era ele. — E aí! – ele falou, agarrando a minha mão no ar, e me abraçando apertado. — Você continua com essa cara de filhinho de papai! – ele disse, me fazendo rir. — Você não perde esse jeito, não é?! - devolvi, encarando o seu rosto. Os seus traços não mudaram nada. — Entra aí! – eu dei espaço para ele entrar. Conversamos por horas na sala da minha casa. Charles me contou tudo sobre como as coisas ficaram por aqui depois que eu fui embora, ela se formou em advocacia e estava em uma das maiores empresas de Miami, era óbvio que eu tentaria puxá-lo para a Martínez Industry. Apesar de parecer muito bom profissional, ele parecia também continuar com o seu jeito cafajeste de sempre. — Não acredito que você traiu a sua ex – comentei, tomando um gole do meu drinque. — Eu não pude fazer nada, ela jura que eu traí ela, mas eu não traí! — Sério? – eu estreitei o olhar para a sua cara de vagabundo. — Sério, mano! A loira era muito gostosa, eu admito, mas eu não fiquei com ela – ele resmungou. — E porque ela acha que você ficou? Charles se levantou enchendo novamente seu copo com o uísque. — Digamos que ela viu uma foto minha beijando a garota. – Ele deu de ombros. — Você acabou de dizer que não tinha ficado com ela – eu suspirei, rindo da sua desgraça. — Eu não fiquei! Eu não transei com ela, mano. Foi só um beijo, e que nem foi tão gostoso! — Mesmo assim, Lucy era uma boa garota! Fico com pena dela de ter sofrido na sua mão. Você continua sendo o mesmo cafajeste de sempre, como diria a minha mãe! – eu ri, e ele revirou os olhos. — Eu sei, pare de me lembrar disso! Eu confesso que não esqueci daquela garota… — Vai ter que superar, foi você quem ferrou com tudo – dei de ombros. — Enfim, vamos mudar de assunto. Não quero melancolia. Mas e você? Como anda a sua vida? – Ele perguntou, voltando para o sofá, sentando ao meu lado.
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