Capítulo 4 – Dois Mundos

1352 Palavras
Os dias seguintes passaram como um borrão silencioso. Sem gritos. Sem explicações. Sem afeto. A mansão era belíssima, e ao mesmo tempo, desumana. Cada canto exalava luxo e frieza. Sophie passou a explorar aos poucos, guiada por Nora — sua única companhia constante e gentil naquele lugar. Começava o dia com um café silencioso na varanda de seu quarto, onde observava as rosas perfeitamente alinhadas do jardim. Às vezes, Nora aparecia com um vestido novo, dizendo que “o senhor Vincenzo manda que a senhorita se vista bem”, mesmo que ele nunca estivesse lá para ver. Sophie caminhava pelo jardim durante as manhãs, sentindo o sol leve da Sicília na pele. Visitava a estufa de flores. Aprendeu a reconhecer o cheiro do limoeiro na entrada dos fundos. Descobriu que havia uma biblioteca, trancada, que ninguém usava. Que havia uma piscina de borda infinita que parecia um espelho quebrado pelo vento — vazia de vida. Mas nunca via Vincenzo. Ele saía cedo, antes do amanhecer. Chegava tarde — ou nem chegava. Nora dizia que ele estava “resolvendo assuntos da empresa”, mas os sussurros dos criados diziam mais. Falavam sobre “encontros em prédios no centro”, “carros chegando à noite”, “homens de preto no subterrâneo”. Sophie ouvia. Silenciava. Anotava em sua mente cada fragmento daquela vida oculta. Um dia, ao passar pelo corredor do segundo andar, viu a porta do escritório dele entreaberta. Um vulto dourado curvado sobre papéis e telas. Ombros tensos. Mãos grandes com anéis discretos. O ar no corredor ficou mais denso. Mais gelado. Ela deu um passo — e a porta se fechou com um clique seco. Sem olhares. Sem uma palavra. Ele não queria vê-la. E, estranhamente, isso doía mais do que ela gostaria de admitir. À noite, jantava sozinha. Nora tentava distraí-la com histórias antigas da infância de Vincenzo — como ele já era sério aos oito anos, como preferia armas de brinquedo a qualquer livro de colorir, como seu olhar nunca mudava. "Sempre foi assim… não espera amor dele, menina." E Sophie não esperava. Mas sentia falta de ser vista. No quinto dia, acordou cedo e decidiu explorar mais. Vestiu um vestido simples branco, trançou os cabelos e caminhou até a garagem. Viu os carros alinhados como soldados em uma exposição. Lamborghini. Ferrari. Rolls-Royce. Máquinas poderosas e silenciosas — como o próprio Vincenzo. No canto da garagem, havia uma porta de ferro. Tentou abri-la. Estava trancada. De novo, sentiu aquela sensação estranha: o cheiro daquilo que ela não deveria descobrir. Naquela noite, deitou-se com os olhos abertos, olhando o teto esculpido, ouvindo apenas o som do vento. Vincenzo não veio. Vincenzo nunca vinha. Mas ele estava em tudo. No cheiro da madeira, no olhar dos funcionários, nas paredes que a observavam. E isso era pior do que qualquer presença. --- O dia de Vincenzo começava antes do nascer do sol. O terno preto, feito sob medida, já o esperava perfeitamente passado. O café, amargo e forte, servido por Nora em silêncio. E então ele desaparecia. No helicóptero. No carro blindado. Nos corredores do poder. A sede da MarinoTech, um arranha-céu espelhado no coração de Palermo, era o centro do império. Seus passos soavam firmes no chão de mármore, e os olhares de executivos se abaixavam quando ele passava. Na sala de reuniões, ele era gélido, direto, impiedoso. Lucros. Fusões. Domínio global. Seus algoritmos estavam sendo adotados por governos. Seus softwares espionavam quem ousava espiar. Ali, Vincenzo era Deus. À tarde, no subsolo de um prédio disfarçado como agência de investimentos, o outro lado dele assumia. Ali, não havia contratos nem papéis. Apenas sangue, códigos, ordens. Homens ajoelhados. Traidores julgados. Negócios lavados em restaurantes e clínicas particulares. Vincenzo falava pouco. Um aceno de cabeça podia significar vida… ou execução. Lorenzo, sempre ao seu lado, era a ponte entre os dois mundos. Sabia quando agir. Quando matar. Quando silenciar. Quando distrair o primo do peso que nunca admitia carregar. À noite, tudo mudava. O Dom virava o predador noturno. Em sua boate exclusiva, cercado de néon, taças de champanhe e corpos dançando pela atenção dele, Vincenzo escolhia a companhia. Alessia Rossi, com seu perfume marcante e vestidos milimetricamente escandalosos, sempre se destacava entre todas. Ela o conhecia bem — sabia quando se calar, quando provocar, quando abrir as pernas e quando desaparecer. Na suíte de um hotel cinco estrelas, entre lençóis de seda e jantares pós-sexo, Vincenzo mantinha seu corpo em movimento… porque era a única coisa que o mantinha distraído da parte que ele não conseguia controlar. Sophie. O nome dela não era dito. Não era pensado. Era esquecido. Ela era uma decisão estratégica, um acordo. Uma peça armazenada com segurança. Ainda não ativa. Ainda não necessária. Ele não a via desde que ela chegou à mansão. Não perguntou como estava. Não soube se comia, dormia ou chorava. — Você devia vê-la, Vincenzo — disse Lorenzo certa noite, ao vê-lo se vestir de novo para sair. — Ou vai esperar o altar? Vincenzo ajeitou os punhos da camisa, olhando-se no espelho. — O que eu vou dizer pra uma garota de 18 anos que foi criada como boneca de porcelana? — Talvez nada. Mas talvez… ela não seja só isso. Ele não respondeu. Pegou as chaves do carro. Alessia já o esperava no banco do passageiro. Enquanto o motor roncava e ele acelerava pelas ruas escuras de Palermo, Vincenzo não pensava em Sophie. Mas, naquela noite, ao olhar para Alessia deitada nua ao seu lado, pela primeira vez, sentiu que algo estava faltando. Não sabia o quê. E isso o irritou profundamente. --- O céu da Sicília estava limpo quando Nora entrou no quarto com um vestido em tons de azul claro e um penteado semi-preso cuidadosamente elaborado. — A senhora Katherine chegará em uma hora. O senhor Vincenzo não estará presente. Sophie engoliu seco. Não sabia exatamente por que, mas aquelas palavras causaram um calafrio. Já tinha ouvido falar de Katherine Marino — a matriarca, a socialite adorada nas revistas italianas, a mulher por trás do legado. E agora… ela vinha conhecê-la. Quando Katherine chegou, tudo pareceu parar. O som dos saltos ecoando no mármore. O perfume caro, inebriante. Os óculos escuros, a postura imponente, os gestos calculados. Ela entrou como quem pertence. Como se cada canto da mansão a reconhecesse. Sophie aguardava na sala, as mãos entrelaçadas no colo, o coração descompassado. — Você é mais bonita do que eu imaginei — disse Katherine, tirando os óculos e revelando olhos frios como o do filho. — Mas não se preocupe. A beleza nunca foi o mais importante entre os Marino. Sophie se levantou, fez uma reverência discreta. A voz m*l saiu: — É uma honra conhecê-la, senhora Marino. — Katherine basta. Ainda. — Ela sentou-se no sofá à frente dela. — Vamos conversar, querida. Sobre casamento. Sobre dever. Sobre o papel que agora você precisa aprender a cumprir. Sophie se sentiu pequena diante daquela mulher. Mas algo dentro dela também despertou: uma necessidade quase desesperada de não decepcionar. — Eu… estou me esforçando — disse em voz baixa. — Quero estar à altura. Katherine a observou em silêncio por longos segundos. Então, com um gesto, pediu para Nora servir chá. — Você não precisa ser forte. Ainda. Mas precisa ser inteligente. Sabe o que isso significa, Sophie? Sophie balançou a cabeça. — Que não questione demais, não vá onde não foi chamada… e, acima de tudo, nunca tente mudar Vincenzo. Ele não foi feito para ser moldado. Ele foi feito para dominar. Sophie abaixou os olhos, a xícara tremendo levemente em suas mãos. Mas Katherine notou. E pela primeira vez, um pequeno, quase imperceptível, traço de suavidade cruzou seu rosto. — Você me lembra alguém. Antes de quebrar. A frase ficou no ar, fria como gelo. E então Katherine se levantou, ajustou a bolsa e sorriu — um sorriso que não alcançava os olhos. — Você vai se casar com um rei, Sophie. E rainhas não choram. E com isso, ela se foi. Deixando para trás um perfume caro… e um fardo invisível.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR