Jake ou Jason, ouvir essa história é como escutar sobre a vida de outra pessoa, e não a minha própria.

1111 Palavras
— Por causa dessa dúvida, sempre vejo vocês dois em você. Acho que isso me ajudou a seguir em frente, mas ainda me pergunto se algum dia você se lembrará de tudo — ela sussurra, a voz trêmula, carregada de um peso que parece esmagá-la por dentro. Eu a encaro em silêncio, sentindo o impacto de suas palavras reverberar em meu peito. Seguro suas mãos, apertando-as com cuidado, como se fossem minha âncora para não naufragar. Tento encontrar força, mesmo quando tudo dentro de mim grita pelo contrário. — A dúvida é uma bênção, Eleonora. Tanto para mim quanto para você. Acho que saber a verdade não mudaria nada agora... só traria mais dor. — Minha voz falha por um momento, mas eu me esforço para continuar. — Estou cansado. Quero paz. Por favor, me ajude com isso. E não foi sua culpa. Eu demorei tanto esperando recuperar minha memória para que tudo se resolvesse, mas no fundo, sempre soube... não importa. Respiro fundo, mas o ar parece pesado, denso demais. — Jake ou Jason, ouvir essa história é como escutar sobre a vida de outra pessoa, e não a minha própria. As palavras m*l haviam saído dos meus lábios quando Eleonora me puxa para um abraço. Seus braços me cercam com uma intensidade quase desesperada, como se quisesse juntar os pedaços do que restou de mim. Sinto o peso da culpa e da tristeza comprimindo meu peito, tão avassaladores que roubam o pouco de ar que ainda consigo tomar. Minhas mãos tremem, desobedientes, denunciando a fraqueza que tento esconder. Estou desmoronando, e ela percebe. O brilho de preocupação em seus olhos, que deveria me confortar, só aprofunda a sensação de fracasso que me consome. — Jason! — ela ofega, os olhos arregalados ao me ver tão pálido. — Você está pálido! O zumbido nos meus ouvidos se intensifica e o suor frio escorre pela minha testa. Com dificuldade, pego um comprimido do bolso e o coloco debaixo da língua, tentando controlar minha respiração acelerada. Fecho os olhos, tentando afastar a angústia que toma conta de mim. — O que está acontecendo? — Ouço Ricardo, e sua mão firme me segura pelo braço. — Me deixe assim, deitado, só um minuto, por favor... vou ficar bem — murmuro, sentindo o corpo pesar cada vez mais. Eleonora, ajoelhada ao meu lado, segura minhas mãos com desespero. Sua dor é palpável, e a culpa a devora. — Jason, me perdoe! Eu não sabia que você estava assim tão frágil sentimentalmente... Eu aperto suas mãos, os olhos ainda fechados, tentando dar a ela algum conforto, mas a verdade é que não sei se consigo mais me manter firme. — Tudo bem, Eleonora... só estou cansado. Preciso de um momento de paz. Por isso vou dar um tempo longe de tudo. Ela soluça, sua culpa e aflição se tornando insuportáveis. Ricardo a afasta gentilmente. — Eleonora, entre, por favor — ele diz, tentando manter a calma. Fecho os olhos, tentando normalizar minha respiração. As batidas do meu coração vão desacelerando aos poucos. Sinto o peso das horas que me arrastaram até aqui, e me forço a me sentar com a ajuda de Ricardo. Eleonora me observa com os olhos cheios de preocupação. — Você precisa se cuidar, Jason. Sua palidez é medonha — ela diz, a voz trêmula. Eu sorrio, tentando tranquilizá-la, e me sento no banco já recomposto, mas sei que não estou bem. Algo dentro de mim ainda grita por alívio. — E irei. Por isso tirei férias — respondo, tentando dar um fim ao sofrimento que está nos olhos dela. Ricardo segura o meu braço, o olhar apreensivo, mas com um toque de compreensão. — Consegue ficar de pé? — Consigo — murmuro, sentindo uma fraqueza absurda nas pernas. Ele me ajuda a levantar, e caminhamos devagar até o meu carro. Assim que me encosto na lataria fria, sinto a tensão nos músculos do corpo. Aperto os ombros e massageio a nuca, tentando aliviar o incômodo. — Eleonora não tem jeito. Deveria esquecer o passado — diz Ricardo, balançando a cabeça. — A cagada já está feita mesmo. As palavras dele ecoam na minha mente, enquanto eu luto para absorver o que ele acabou de dizer. — Então você também acha que posso ser Jake? — pergunto, a dúvida me corroendo. Sinto o estômago se revirar com o pensamento. Ricardo me encara, sério, sem rodeios. — Claro. Foi loucura não verificar isso. Sabe o que ela fez? — diz ele, com amargura. — Ela escolheu viver na dúvida. Ter os dois irmãos em um só. Essa é a verdade! — Ricardo, a Eleonora não tem culpa. Ela jamais imaginou que eu ficaria nesse vazio por tanto tempo. E tudo indica que sou Jason mesmo. Eu jamais dirigiria à noite, pegaria estrada... Segundo Eleonora, eu tinha um trauma pesado quanto à direção. Ricardo solta um suspiro pesado, como se estivesse começando a entender. — Está certo. — Fui ao cardiologista ontem. Estou com taquicardia de tanto estresse. Ele disse que estou com síndrome do coração hiperativo, causada pela ansiedade e excesso de adrenalina. A cada dia, os sintomas pioram. Tenho palpitações constantes, e a tontura e o m*l-estar aparecem sem aviso. Já quase desmaiei algumas vezes. Vim aqui para descansar, para ter um pouco de paz... São férias que eu mereço. Ricardo coloca a mão no meu ombro, seus olhos refletindo uma preocupação genuína. — Eu não fazia ideia de que você estava assim — diz ele, a voz baixa, carregada de pesar. — E por favor, não conte nada para Eleonora. Ela já se preocupa demais comigo. Você sabe como ela tende a dramatizar as coisas. A última coisa que eu preciso agora é vê-la surtando por minha causa. Ricardo assente, o rosto sério. — Claro, pode deixar. Ele me guia até o interior da casa, e seguimos até o quarto. Quando chegamos, faço um gesto de agradecimento com a cabeça. Assim que ele fecha a porta atrás de si, eu me sento na cama e coloco a cabeça entre as mãos, tentando conter a tempestade de pensamentos. Será que um dia terei paz de verdade? O cansaço me domina, e, aos poucos, os pensamentos sombrios começam a tomar conta da minha mente. Sinto o peso do frasco de remédios no bolso. Se eu quisesse, poderia parar de tomá-los, e meu coração não suportaria a pressão. A ideia passa pela minha cabeça, mas sei que não vou fazer isso. Tirar a própria vida não é um ato de coragem; é de covardia. Ser corajoso é encarar a vida de frente, mesmo quando ela parece insuportável, mesmo quando a dor é quase insuportável.
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