borboletas e concreto

2077 Palavras
O despertador do celular tocou às seis e meia da manhã com aquela melodia estridente que eu costumava odiar, mas, milagrosamente, hoje o som não me causou o mau humor matinal de praxe. Abri os olhos devagar, tateando o colchão à procura do aparelho. A luz forte da tela ofuscou minha visão por um segundo, e a primeira coisa que fiz, antes mesmo de esfregar os olhos ou levantar para escovar os dentes, foi checar as notificações. Havia um e-mail de trabalho, três mensagens no grupo da família e... lá estava. Um balãozinho do aplicativo com o nome dele. "Bom dia, baixinha. Espero que não tenha virado um zumbi. Por aqui a sexta-feira já começou cedo, o café está forte e o capacete de obras já está na cabeça. Tenha um ótimo dia e uma boa reunião!" Senti minhas bochechas corarem imediatamente. Era uma sensação ridícula, quase adolescente, mas eu simplesmente não consegui conter o sorriso que brotou no meu rosto. Fiquei encarando a mensagem por alguns instantes, o polegar flutuando sobre o teclado. Como responder sem parecer desesperada, mas mantendo o mesmo tom leve da madrugada anterior? "Bom dia, gigante!", digitei, sentindo o coração dar uma batidinha mais rápida. "Sobrevivi, milagrosamente sem olheiras. Boa sorte no meio do concreto hoje, não deixe nenhum prédio cair! Te aviso quando sair da reunião." Bloqueei o aparelho e me espreguicei, saltando da cama com uma energia que há meses eu não sentia. O apartamento parecia mais iluminado naquela manhã. Enquanto a cafeteira elétrica passava o café, o aroma forte e acolhedor invadia a cozinha americana, misturando-se com a brisa fresca que entrava pela janela da área de serviço. Olhei de relance para a varanda. O céu de sexta-feira estava limpo, um azul claro e promissor, sem nenhum resquício da lua cheia da noite anterior, mas a gratidão que eu sentia por aquela conversa ainda ecoava no meu peito. O dia no trabalho, no entanto, fez questão de tentar sugar toda a minha boa vibração. Como analista de marketing digital, minhas sextas-feiras costumavam ser um campo de batalha. A reunião das nove da manhã com o cliente principal da agência foi tensa. Eles queriam mudar todo o escopo da campanha de tráfego pago que passamos as últimas três semanas estruturando. Enquanto o diretor da agência tentava contornar a situação na chamada de vídeo, eu revisava planilhas de métricas, ajustava o custo por clique (CPC) e tentava reorganizar os criativos no gerenciador de anúncios. Meus olhos ardiam diante das duas telas do computador, os números pareciam dançar na minha frente, e o cansaço da noite m*l dormida começou a cobrar o seu preço por volta das onze horas. Aproveitei uma pausa para ir até a copa buscar um copo d'água. Meu celular vibrou no bolso da calça jeans. Matheus: "Prédios intactos por aqui, engenharia sob controle. Mas confesso que passei a última hora calculando o tempo que falta para o final do expediente. Como foi a reunião?" Apoiei-me na bancada de granito da copa, isolada do barulho do escritório, e respondi com um suspiro de alívio: "Um caos! Clientes querendo milagres com orçamento curto. Mas sobrevivi. Acho que mereço um prêmio depois de hoje." A resposta dele foi quase instantânea: "Merece sim. E eu faço questão de entregar esse prêmio. O que acha de jantarmos hoje? Conheço uma cantina italiana maravilhosa no meu bairro, ambiente calmo, massa artesanal. Sem pressão, só para transformarmos os 15 minutos de distância em zero." Meu coração disparou. Um convite. Para o mesmo dia. Parte de mim, a parte que sempre tentava se autoproteger e manter os pés no chão, sussurrou que era rápido demais, que eu deveria me fazer de difícil. Mas a outra parte, aquela que havia se debruçado no guarda-corpo da varanda e pedido um amor intenso para a lua cheia, simplesmente mandou o orgulho para o espaço. "Massas? Você sabe exatamente como me convencer, Matheus. Eu aceito. Só preciso passar em casa depois do trabalho para tirar a armadura de escritório." Matheus: "Perfeito. Combinado. Me passa seu endereço por aqui mais tarde. Faço questão de ir te buscar às oito. Bom resto de tarde, Lua. m*l posso esperar." O restante do dia passou em um borrão de ansiedade e digitação rápida. Terminei os relatórios semanais antes do prazo, respondi aos e-mails pendentes com uma agilidade incomum e, às cinco da tarde em ponto, fechei o notebook. Me despedi do pessoal da agência com um sorriso tão radiante que minha colega de mesa chegou a perguntar se eu tinha ganho na loteria. "Quase isso", pensei comigo mesma. O trajeto de volta para casa foi um teste de paciência. O trânsito da avenida principal estava caótico, o som das buzinas e o escapamento dos ônibus pareciam mais barulhentos do que o normal. Eu batia os dedos no volante no ritmo da música que tocava no rádio, olhando o relógio do painel a cada cinco minutos. Eu precisava de tempo. Queria estar perfeita. Quando finalmente entrei no meu apartamento, o relógio já marcava dezoito horas e quarenta minutos. Corri para o banheiro, liguei o chuveiro na temperatura morna e deixei a água cair pelas minhas costas, relaxando a musculatura tensa do dia de trabalho. Lavei meus longos cabelos loiros, massageando o couro cabeludo, deixando que o aroma do xampu de baunilha preenchesse o box embaçado. Enquanto a água corria, minha mente tentava desenhar o rosto de Matheus. Eu tinha visto suas fotos no aplicativo — um homem alto, de ombros largos, sorriso caloroso e olhos castanhos expressivos —, mas fotos enganam. Como seria a voz dele ao vivo? O cheiro dele? O toque? Ao sair do banho, o relógio corria contra mim. Sequei o cabelo com o secador, modelando as pontas loiras para que caíssem em ondas suaves pelos meus ombros. Na maquiagem, optei por algo que valorizasse meus olhos verdes, mas sem parecer artificial: uma pele bem corrigida, rímel, um delineado gatinho discreto e um batom cor de boca hidratante. O guarda-roupa foi o verdadeiro dilema. Olhei para os cabides por quase dez minutos. Um vestido preto colado? Muito agressivo para um primeiro encontro romântico. Uma calça de alfaiataria? Muito formal. Acabei escolhendo um vestido casual elegante na cor verde-esmeralda, que contrastava perfeitamente com os meus cabelos e destacava meus olhos. Ele tinha um decote discreto em V e marcava bem a minha cintura, valorizando minhas curvas sem ser vulgar. Nos pés, optei por uma sandália de salto bloco não muito alta. Afinal, eu já tinha 1,65m e ele 1,87m; eu queria diminuir um pouco a distância, mas ainda precisava conseguir andar com elegância até o carro. Às dezenove horas e cinquenta e cinco minutos, eu estava pronta. Meu perfume de notas adocicadas e florais pairava no ar do quarto. Peguei uma bolsa pequena, coloquei o batom, os documentos e a chave de casa. Meu celular vibrou na minha mão. Matheus: "Estou estacionando em frente ao seu prédio. Um SUV cinza escuro. Estou parado bem perto da portaria." Senti meu estômago dar uma reviravolta completa. Aquela velha e conhecida sensação de frio na barra da barriga voltou com força total, como se dezenas de borboletas estivessem batendo asas dentro de mim. Dei uma última olhada no espelho, respirei fundo, ajeitei o cabelo e saí. O trajeto de elevador do 19º andar até o térreo pareceu durar uma eternidade. A cada andar que o painel digital diminuía, meu coração acelerava um batimento. Quando as portas se abriram no saguão, passei pelo porteiro, que me deu um "boa noite, dona Lua" amigável, e empurrei a porta de vidro pesada do edifício. A noite estava agradável, o vento leve balançava a barra do meu vestido verde. Olhei para a guia da calçada e imediatamente avistei o SUV cinza escuro. A porta do motorista se abriu quase no mesmo instante em que pisei na calçada. E então, ele saiu do carro. As fotos do aplicativo definitivamente não faziam justiça ao homem que estava parado ali. Matheus era realmente um gigante. Seus 1,87m de altura eram imponentes, mas de uma forma que transmitia segurança, não medo. Ele vestia uma calça jeans escura de corte impecável, sapatos de couro bem cuidados e uma camisa social de mangas longas azul-marinho, com as mangas dobradas até o antebraço, revelando braços fortes e uma pele levemente bronzeada pelo sol das obras. O cabelo castanho estava bem cortado e alinhado, e a barba por fazer estava perfeitamente desenhada. Quando nossos olhares se cruzaram, o rosto dele se iluminou com um sorriso largo, sincero, que fez pequenas linhas de expressão surgirem ao redor de seus olhos castanhos. Ele caminhou até mim com passos calmos e confiantes. À medida que ele se aproximava, a diferença de altura se tornava real; eu realmente precisava erguer o queixo para encará-lo. — Lua... — a voz dele era encorpada, um barítono profundo e suave que enviou um arrepio direto pela minha espinha. — Você é ainda mais linda do que nas fotos. O verde te deixa deslumbrante. — Obrigada, Matheus — respondi, sentindo minhas bochechas queimarem, mas sustentando o olhar. — Você também não está nada m*l para quem passou o dia carregando cimento. Ele soltou uma risada gostosa, um som caloroso que quebrou instantaneamente qualquer gelo ou constrangimento inicial. Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós, e estendeu os braços para um abraço. Quando me aproximei e me permiti ser envolvida por ele, a sensação foi exatamente como tínhamos conversado na noite anterior. Minha cabeça encaixou com perfeição no centro do peito dele. Os braços de Matheus eram fortes e me cercaram com uma firmeza acolhedora, me fazendo sentir incrivelmente pequena, mas absurdamente protegida. O cheiro dele invadiu meus sentidos: uma mistura marcante de perfume amadeirado caro, loção pós-barba e aquele cheiro limpo de quem tinha acabado de tomar um banho caprichado. Era um aroma másculo, envolvendo. Ficamos naquele abraço por alguns segundos a mais do que o protocolo de um primeiro encontro exigiria, mas nenhum de nós parecia querer soltar. Dava para sentir o calor do corpo dele através da camisa azul. Quando ele finalmente se afastou um pouco, manteve as mãos espalmadas nos meus braços, olhando para mim de cima com uma intensidade que me fez perder o fôlego por um segundo. — Pronto para a melhor lasanha da sua vida? — ele perguntou, os olhos brilhando. — Mais do que pronta — sorri, sentindo que, de alguma forma mágica, a lua realmente tinha me entregado exatamente o que eu precisava. Matheus caminhou comigo até o lado do passageiro, abrindo a porta do SUV com a fidalguia de um cavalheiro à moda antiga. Eu entrei, me acomodando no banco de couro confortável, enquanto ele dava a volta pelo capô. O interior do carro era impecavelmente limpo, cheirando a couro novo, com um painel moderno e luzes em LED azuladas discretas. Uma música suave de jazz instrumental tocava baixinho nos alto-falantes, criando uma atmosfera extremamente aconchegante que parecia nos isolar de todo o caos do trânsito lá fora. Ele entrou, fechou a porta e deu a partida no motor, que roncou baixo e poderoso. Enquanto ele engatava a marcha e manobrava o carro para entrar no fluxo da avenida movimentada, eu olhava para o perfil dele de soslaio. As mãos grandes seguravam o volante com firmeza, os dedos longos se moviam com precisão. O relógio de pulso robusto no braço esquerdo completava a imagem de um homem focado e calmo. Tudo nele exalava uma masculinidade segura e uma presença que me hipnotizava. Olhando para ele ali, conduzindo aquele veículo enorme com tanta facilidade e me tratando com tanta delicadeza, parecia impossível associar aquela figura a qualquer outra coisa que não fosse o sucesso profissional e o romantismo. Eu estava completamente encantada, flutuando em uma bolha de paixão instantânea que parecia desenhada sob medida para mim. No sinal vermelho, ele se virou, olhou-me com profundidade e deu aquele sorriso que deixava pequenas covinhas nos cantos da boca. Estendeu a mão direita e segurou a minha com suavidade, entrelaçando nossos dedos de uma forma que fez meu coração dar um salto. — Tudo bem por aí, baixinha? — ele perguntou, a voz mansa, o polegar acariciando de leve as costas da minha mão. — Tudo perfeito, gigante — respondi, apertando a mão dele de volta, sentindo uma eletricidade gostosa correr pelo meu corpo. Eu estava completamente entregue àquela noite, certa de que meu pedido cruzado com o universo estava apenas começando a se realizar.
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