Mago
Fiquei esperando horas, mano. A médica me ignorava quando eu perguntava algo, e só vinha de vez em quando para dar uma olhada na Letícia. Toda vez que ela saía de perto dela, eu perguntava, mas ela só me dizia para esperar. O relógio parecia ir mais devagar a cada minuto, e eu não sabia se o tempo estava se arrastando mais por causa da minha ansiedade ou da culpa pesada que estava me consumindo. Eu olhava para Letícia, deitada ali, cheia de tubos e agulhas, e parecia que ela estava tão longe de mim, distante, mas, ao mesmo tempo, bem ali, esperando que eu resolvesse aquela merda que eu tinha causado.
Eu estava me sentindo mais perdido do que nunca, mas eu não podia ficar fraco. A Letícia sempre foi minha força, e eu, merda, fiz ela desmaiar, a machuquei. Cada vez que olhava para a cara dela, me dava um aperto no peito. Só pensava em tudo que tinha feito, tudo que fiz errado. E, pior, como Beatriz tinha sido a ponte para o meu erro. Se não fosse por ela, minha mulher não estava naquela cama, com a vida na linha, dependendo de mim.
Quando a médica finalmente apareceu, parecia que ela vinha de um pesadelo. A cara dela estava fechada, séria, e os olhos, mesmo tentando esconder, pareciam mais preocupados do que o normal.
Médica: Oi, Mago. A Letícia está em coma. A situação dela é grave. – A voz dela era baixa, mas firme. Ela não tinha nem um pingo de esperança naquilo que dizia.
Eu fiquei sem palavras. Só podia olhar para ela, esperando que ela me dissesse que estava errada, que tudo não passava de um pesadelo. Mas não foi isso que ela disse. Ela continuou.
Médica: Ela sofreu muito com os machucados, e para saber o tamanho da fratura e se há danos maiores, vai ser necessário fazer alguns exames fora do hospital. Eu sei que é difícil, mas temos que agir rápido.
Mago: Não! – Fui direto, sem pensar. – Ela não vai sair do Morro. Não vai. Eu não vou deixar. Você vai fazer o que for possível para ela fazer esses exames aqui mesmo, no Morro. Não vou permitir que ela saia daqui.
A médica respirou fundo, e parecia que ela já estava esperando por essa reação minha. Ela me olhou nos olhos, e a tensão aumentou no ar. Ela não parecia nem um pouco tranquila.
Médica: Mago, você não está entendendo. Se ela não fizer esses exames fora do hospital, ela pode morrer. Precisamos saber exatamente qual o tamanho da fratura, ver se há algum dano interno. Se não fizermos isso, as chances de recuperação dela são mínimas. Você precisa entender que estamos falando de vida ou morte aqui.
Meu coração gelou. Aquelas palavras cortaram o ar como uma lâmina, e eu senti a garganta fechar. Olhei para Letícia, ali, fraca, inerte. A única coisa que me passava pela cabeça era que eu não podia perder ela. Não podia. Se algo acontecesse com ela, eu não ia aguentar, mano. E, pior, eu sabia que a culpa de tudo aquilo era minha.
Mago: Eu pago o que for preciso. Não me importa o custo. Eu vou fazer ela fazer esse exame aqui. Você tem que dar um jeito de fazer isso aqui dentro do Morro. Não tem essa de sair. Eu pago, pago tudo que for necessário.
Ela ficou me olhando, respirando fundo de novo, como se estivesse pesando minhas palavras. A tensão na sala era quase palpável, e eu não estava ali mais para pensar direito. Só queria fazer o que fosse preciso para salvar a Letícia.
Médica: Mago, eu vou ver o que eu posso fazer, mas preciso que você entenda que isso não vai ser fácil. Não vai ser simples. Se a Letícia não fizer os exames como deve, as consequências podem ser graves.
Eu apertei os punhos, tentando segurar minha raiva, a frustração, o medo. Ela se afastou um passo, olhando para mim. Eu sabia que a situação estava além da minha compreensão, mas não dava para eu deixar ela sair daquela maneira, sem lutar. Eu não ia deixar. Não ia.
Mago: Melhor você fazer o possível, porque se a Letícia morrer por causa disso, o negócio vai ficar doido. Eu te garanto, doutora, o negócio vai ficar doido.
A médica se assustou com a forma como eu falei, e deu um passo para trás, meio que sem saber o que fazer. Ela olhou para mim com aquele olhar de quem não sabia se eu estava falando sério ou se eu estava só desesperado. Eu não estava brincando. Eu estava falando sério.
Quando ela saiu de perto de mim, eu não consegui me segurar mais. Bati com tudo a mão na parede, socando ela com raiva, com ódio de tudo aquilo que eu tinha feito. O som do soco ecoou pelo quarto e eu senti os ossos da mão estalando, mas a dor não era nada comparada à dor que eu estava sentindo dentro de mim.
Fiquei ali por alguns segundos, com a mão sangrando, mas a dor física era insignificante perto do que eu estava enfrentando. Eu me sentia destruído por dentro. Letícia estava ali, com a vida pendendo, e tudo isso foi culpa minha. Não tinha ninguém mais para culpar além de mim mesmo. Eu fui um i****a. E Beatriz… Ela tinha sido a responsável por isso. Por tudo.
Mago: Se acontecer alguma coisa com a Letícia, a Beatriz… Será a culpada, e eu vou acabar com ela.
Eu falei baixinho, mas minha voz estava carregada de raiva. E essa raiva só aumentava dentro de mim. Beatriz tinha sido a culpada de tudo. Se ela não tivesse se insinuado para mim, eu não teria feito essa merda. Eu não teria colocado a Letícia nessa situação. Eu amo a Letícia, e ela nunca merece o que aconteceu. Foi a Beatriz que mexeu comigo, que me fez perder o controle.
Eu fiquei ali, batendo a parede até os punhos sangrarem, até a raiva me consumir por inteiro. Se a Letícia morresse, a culpa ia ser minha, mas se ela se recuperasse, a primeira coisa que eu ia fazer era caçar a Beatriz. Porque a Beatriz era a responsável por essa merda. Ela que ia pagar, e ninguém ia me impedir. Eu ia garantir isso, não importa o que acontecesse. Eu ia matar ela.
A médica voltou, mas parecia tensa, assustada. Ela olhou para mim com receio, e eu, com a raiva ainda fervendo, não consegui esconder o que eu sentia. Eu queria gritar, queria arrancar o coração de Beatriz, mas sabia que não era hora. Eu só ia esperar, ia fazer o que fosse necessário para salvar a Letícia, mas, assim que tudo estivesse resolvido, eu ia fazer a Beatriz pagar.
E ela ia pagar caro.