005 - O Caçula Protetor

1828 Palavras
*Juan PoV* Rico ficou desacordado por dias após o acidente. Durante esse período, eu e Michael nos revezamos em vigília no hospital. Quando ele me rendia, eu cuidava da mudança. Comprei uma mansão fora da ilha de Manhattan, em Long Island. Eu já estava me preparando para isso, apenas esperando completar dezoito anos para sair da casa de Ernesto. No entanto, aquela tragédia apressou meus planos. Nos meses que seguiram à morte da Helena, pedi emancipação para ser capaz de cuidar de mim mesmo e do meu hermano. Ele não tinha condições de tomar nenhuma decisão, passando a maior parte do seu tempo bebendo ou brigando nas ruas. Deixou os estudos de lado, sempre à beira de uma crise de ira. Às vezes, me perguntava se o que eu tinha dentro de casa não era apenas um corpo sem alma. Após diversas tentativas frustradas de falar com ele ao celular, um táxi entra na minha propriedade, em meio a uma noite fria. Michael sai do veículo arrastando Rico para fora. Meu hermano está completamente chapado, falando nada com nada. Eu pago a corrida, enquanto esse aprendiz de roqueiro rebelde o leva para dentro. Michael e eu nunca fomos grandes amigos, como acontece entre ele e Rico, porém sei que suas ressalvas comigo são justificadas. Ele detesta o que eu faço para viver. Eu também não gosto, porém foi a única forma que encontrei para evitar que a fúria de El Viejo caísse sobre o Rico. Enquanto o vejo colocar meu hermano no sofá, pego um jarro de flores de uma mesa próxima, tiro as plantas e jogo a água na cara do Rico. Ele tosse, se engasga brevemente, mas, aos poucos, vai recobrando a consciência, enquanto eu o analiso. Está com as roupas surradas e sujas, fedendo a bebida, suor e sabe-se lá mais o quê. Olho para Michael, que mantém o semblante cerrado, assim como os braços ao redor do peito. ㅡ Pode ir, Michael. Obrigado por tê-lo encontrado. ㅡ Eu fico. Bufo irritado, porém, quando vou responder, meu hermano começa a rir. ㅡ Eu deveria trancar vocês dois em um quarto! Talvez, assim, conseguissem se entender! Passo uma mão impaciente pelo meu rosto e Michael me surpreende. Ele agarra a jaqueta do Rico com as duas mãos, encarando-o com raiva. ㅡ Você é um i****a, sabia, Rico? Se quer se matar, por que não dá logo um tiro na cabeça? Assim você pode ir logo ficar com a Helena, ao invés de continuar com esse comportamento e******o, preocupando a mim e ao Juan! c*****o, irmão! Você acha que teria conseguido se livrar daqueles caras se eu não tivesse te encontrado? Só agora percebo um r***o na lateral da jaqueta do Michael, como se tivesse sido feito por uma faca. Rico se livra dele bruscamente e tenta se levantar do sofá, mas acaba caindo de volta de forma desengonçada. ㅡ Só porque você é o espertinho dos computadores, não quer dizer que sabe de tudo, cerebro! Não fale da Helena! Não sabe o que eu estou passando! Michael franze a testa, apoiando as mãos na cintura. ㅡ Acha que eu não sei o que é dor? ㅡ Ele retira a jaqueta e a camisa, exibindo o hematoma, agora quase recuperado, na lateral de seu corpo. Eu me lembro bem de como ele ganhou aquela costela quebrada. ㅡ Felizmente, naquele dia, você estava mais sóbrio que o Sunny para me carregar até o hospital… Se manteve sóbrio até eu ter alta. Vou ter que levar uma surra daquele doador de esperma todos os dias para que você continue sóbrio? Por que, acredite, irmão, vou provocar aquele ser de merda até perder os sentidos de tanto apanhar, só para que você pare de beber! As palavras do Michael surtem algum efeito, já que Rico acaba indo às lágrimas. Ele esconde o rosto entre as mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos, enquanto ouvimos seus soluços. É simplesmente desesperador testemunhar sua dor e não poder fazer nada. ㅡ Ela só tinha quinze anos… Eu a matei… Michael volta a se vestir, com a expressão mais carrancuda que já vi, se isso for possível. A voz e o olhar frios como o gelo. ㅡ Você ainda precisa matar mais uma pessoa que ama para chegar no meu nível… A embriaguez do Rico parece cessar com o choque dessas palavras. Ele encara o amigo e distorce o rosto com uma careta. ㅡ Não seja hipócrita comigo, Michael! Eu te tirei da sarjeta muitas vezes! ㅡ Sempre vou ser grato a você por isso, pois foi por causa da sua perseverança que eu encontrei uma razão para seguir em frente. Você não desistiu de mim, irmão. Então, mesmo que eu acabe com todos os ossos do meu corpo quebrados, também não vou deixar você na mão! ㅡ Ele se vira para mim. ㅡ Consegue assumir daqui, Juan? Marquei ensaio com o Pete e a Dorothy. ㅡ Pode ir, Michael. Vou tentar colocar um pouco de juízo na cabeça dele, nem que tenha que usar um martelo para isso. Por falar em ensaio, sei que você tem aquela guitarra velha, mas se estiver interessado em uma coisa realmente boa, tenho um camarada com uma Fender de primeira. Ele me dá um sorriso debochado e estala a língua. É irritante. ㅡ Não quero nem imaginar onde esse seu camarada conseguiu essa guitarra… ㅡ Qual é? O negócio é quente! Não quer nem mesmo dar uma olhada? ㅡ Eu vou pensar. Michael lança um último olhar para Rico e se retira. Cruzo os meus braços depois de um longo suspiro. ㅡ Você sabe como eu detesto concordar como aquele cabeludo, mas ele tem razão, hermano. Você está se matando aos poucos… ㅡ Eu sei… Porém, eu não mereço nada nessa vida… Nem a dedicação com a qual você e o Michael cuidam de mim… Eu suspiro fortemente e vou até uma escrivaninha em um canto. Retiro um caderno e me sento ao sento dele, colocando o caderno em seu colo. Ele fica indignado. ㅡ Você mexeu nas minhas coisas? ㅡ Sim. Queria encontrar algo para te lembrar de que existem inúmeras formas de nos redimirmos das mierdas que fazemos na vida. ㅡ Abro o caderno e passo as folhas, até encontrar o desenho do rosto de Helena. ㅡ Você tem talento, mano. Ela parece tão viva como da última vez em que a vi. O que vai ser da memória dela quando você se for? Quem vai retratar a beleza dela de forma tão precisa? O sorriso dela vai se perder no tempo. É isso o que quer? Que ela se torne apenas mais um número em uma triste estatística de acidentes? Rico fica olhando para o rosto desenhado em preto e branco. Jamais imaginei que um grandalhão com uma força tão brutal em um ringue, pudesse ter tanta sensibilidade para desenhar dessa forma. Ele respira fundo, enquanto se abraça à sua arte, apertando o caderno contra o peito. ㅡ Ela adorava quando eu desenhava… Acho… Acho que você tem razão. ㅡ Um raio de esperança se acende diante de mim. ㅡ Será que a minha matrícula ainda está valendo? Eu sorrio para ele, apertando seu ombro com firmeza. ㅡ Mano, se não estiver, eu dou um jeito. Rico me devolve o sorriso fracamente, mas, pela primeira vez em meses, vejo algo além de tristeza e desespero nos olhos dele. Consegui reativar a matrícula do meu hermano e, como se estivesse agarrado a um bote após um naufrágio, ele mergulhou nos estudos. Sua dedicação foi tanta, que conseguiu um estágio no setor de Marketing de uma grande empresa, a McGregor Corporation. Um alívio para mim e Michael, pois não tínhamos mais que ficar adivinhando em que buraco ele poderia estar se perdendo. Com o tempo, Rico me surpreendeu ao abrir uma academia com seu próprio dinheiro e focar em crianças carentes, para dar a elas algo além da desesperança das ruas. No fundo, eu sei que ele apenas se ocupa para não pensar nela e se redimir do pecado que acredita ter cometido. No entanto, como tudo em nossas vidas é um turbilhão de problemas, Rico entra bufando em casa, indo direto para o quarto dele. Eu o sigo e o vejo colocando suas roupas em uma mochila. É um choque e tanto para mim. ㅡ Hermano, o que está fazendo? Ele joga um par de calças fortemente sobre a cama, apoia as mãos na cintura e me observa com cara de poucos amigos. ㅡ Quando é que você ia me contar que todo esse seu luxo é bancado pelo Ernesto? Você me disse que tudo era fruto da sua produtora! Engulo em seco e respiro fundo. ㅡ El Viejo não me banca. Minha produtora realmente me dá lucro. ㅡ Mas, a maior parte vem do dinheiro sujo daquele gangster, certo? Por quê, Juan? Ele está te ameaçando de alguma forma? Trinco os dentes e meço minhas palavras. Se eu contar que a ameaça é contra a vida dele, tenho certeza que ele irá tirar satisfação com Ernesto. Seria o seu fim. Visto meu sorriso presunçoso e me apoio no batente da porta, cruzando os braços. ㅡ Qual é, Rico… Eu não faço parte dos negócios dele… ㅡ Você lava o dinheiro sangrento dele! Dinheiro proveniente de drogas, roubos, assassinatos! ㅡ Cada um se vira como pode, hermano… O dinheiro dele é tão bom quanto qualquer outro. Rico me encara boquiaberto por um instante. ㅡ Por favor, me diga que você realmente não acredita nisso… ㅡ Decido não dizer mais nada e apenas dou de ombros, o que o deixa mais irritado. ㅡ Eu sou um i****a mesmo… ㅡ Ele termina de colocar uma meia dúzia de roupas em sua mochila e a joga sobre os ombros. ㅡ Vou dormir na academia até alugar um canto. Só estou levando o que eu comprei com o meu dinheiro do trabalho na empresa. Não quero nada, muito menos continuar fazendo parte desse mundo podre no qual você vive, Juan. Eu não tenho como argumentar com ele. Afinal, o que eu diria? Que ele só continua vivo por causa do acordo que fiz? Que troquei a minha alma pela dele? Ele jamais aceitaria. Fico calado enquanto observo meu hermano deixar a casa, sabendo que o nosso relacionamento próximo ficou abalado, provavelmente para sempre. Prefiro que ele acredite que sou um corrupto sem coração e que siga com a sua vida. Sei que faria a mesma coisa por mim. Eu não estaria aqui hoje se não fosse por ele, cuidando de mim depois que ficamos órfãos. Os anos que se passam não tornam as coisas melhores entre nós. Rico sempre tenta me convencer a largar essa vida, o que eu não posso fazer. Até tentei conversar com Ernesto algumas vezes, porém ele sempre foi bem incisivo. Se eu parar, Rico morre. Desse acordo com o d***o, só me livro quando não estiver mais respirando.
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