Entre vinho e olhares

1159 Palavras
O caminho até o ponto marcado parecia mais longo do que de costume. Bianca caminhava com passos leves, mas o coração… acelerado. A cada esquina, ela sentia um frio na barriga. Não de medo. Mas de expectativa. De nervosismo. De algo novo. Ela apertou a alça da bolsinha contra o corpo, respirando fundo. — Tá tudo bem… é só um encontro… — murmurou para si mesma. Mas no fundo… sabia que não era só isso. --- Rafael já estava lá. Encostado no mesmo lugar de sempre. Postura firme. Olhar atento. A noite caía ao redor dele como um manto escuro, mas ele parecia totalmente imune. Seu corpo estava relaxado… mas os olhos, não. Eles estavam procurando. Esperando. Até que… ela apareceu. Bianca. E o mundo dele simplesmente… parou. Ela vinha caminhando devagar, o vestido preto marcando a silhueta de forma elegante, o leve brilho da maquiagem iluminando o rosto dela sob a luz da rua. Rafael ficou em silêncio. Observando. Absorvendo. Ela levantou o olhar. E, no momento em que os olhos se encontraram… o ar mudou. Bianca sentiu o corpo reagir imediatamente. O coração acelerou. O olhar dele… era intenso demais. Mas diferente de tudo que ela já tinha visto… não era só dominador. Era… admirado. — Cheguei… — disse ela, tentando disfarçar o nervosismo. Rafael soltou um leve sorriso. — Eu vi. Ela riu, levemente. E, pela primeira vez… não se sentiu deslocada ali. --- Rafael fez um gesto com a cabeça. — Vem. Bianca o acompanhou. Os dois caminharam juntos, lado a lado, em direção à casa que ele tinha mencionado. O caminho não era longo. Mas cada passo parecia carregar algo maior. Silêncio. Mas não desconfortável. Era aquele silêncio que fala. Que aproxima. --- Ao chegarem… Rafael abriu a porta, dando espaço para ela entrar. Bianca hesitou por um segundo. Mas entrou. E, assim que passou pela porta… sentiu. O ambiente era diferente. Seguro. Reservado. Distante de tudo lá fora. Rafael fechou a porta atrás deles. O som do clique ecoou no silêncio. Bianca virou-se para ele. E, antes que pudesse dizer qualquer coisa… ele a observou de cima a baixo. Sem pressa. Sem disfarce. Ela ficou levemente sem graça. — Que foi? — perguntou, tentando manter o tom leve. Rafael deu um passo à frente. — Você tá… diferente. Bianca respirou fundo. — É pra ser um elogio? Ele se aproximou mais um pouco. — É. Silêncio. O clima mudou. Ficou mais intenso. Mais próximo. Mais carregado. --- Nesse momento… o toque da campainha ecoou. Rafael olhou para a porta. — Chegou. Ele se afastou por um instante, abrindo a porta. Bruno estava lá, com as sacolas. — Tá aqui, chefe. Rafael pegou. — Valeu. Bruno hesitou por um segundo, olhando para dentro. — Tudo certo? Rafael assentiu. — Tudo certo. Bruno entendeu. E foi embora. --- Rafael fechou a porta novamente. E voltou para Bianca. Ela estava parada no meio da sala, observando o ambiente. Quando ele se aproximou… ela virou o rosto. — Tá tudo pronto? — perguntou, tentando parecer calma. Rafael colocou a comida sobre a mesa. — Tá. E então… olhou para ela. De verdade. Sem distrações. Sem máscara. Só ele. Só ela. — Esse é o nosso encontro — disse, a voz baixa. Bianca sorriu levemente. E naquele momento… ela entendeu. Não era sobre luxo. Nem sobre o lugar. Era sobre estar ali. Com ele. E isso… já era o suficiente para mudar tudo. A mesa estava posta de forma simples, mas com cuidado. A luz baixa deixava o ambiente mais quente, mais íntimo. Uma música suave tocava ao fundo, preenchendo o silêncio com um ritmo calmo, quase envolvente. Rafael abriu a garrafa de vinho com movimentos firmes, como tudo que fazia. Serviu as duas taças. Uma para ele. Uma para Bianca. — Toma — disse, entregando a taça para ela. Bianca segurou com cuidado. — Obrigada… Ela levou o copo aos lábios, tomando um pequeno gole. O sabor suave percorreu a boca. Ela fez uma leve expressão, sorrindo de canto. — É bom… — comentou. Rafael observou. E, por um segundo… apenas por um segundo… se permitiu relaxar. — Eu sei escolher — respondeu, com um leve tom de orgulho. Bianca soltou um riso baixo. — Convencido… — Só confiante — ele retrucou. Ela riu de novo. E o som do riso dela… mexeu com ele de uma forma silenciosa. Mas profunda. --- Os dois começaram a comer. No começo, o clima era um pouco tímido. Mas aos poucos… foi mudando. Bianca falou sobre a faculdade. Sobre os planos. Sobre o sonho de se formar em Direito. Rafael ouvia. De verdade. — Você quer sair daqui — ele disse, analisando-a. Bianca assentiu. — Eu quero… eu preciso. Rafael ficou em silêncio por alguns segundos. — E se não conseguir? Ela respirou fundo. — Eu consigo. Confiança. Firmeza. Aquilo chamou ainda mais a atenção dele. --- A conversa continuou. Mais leve. Mais natural. Bianca começou a se soltar. E, sem perceber… encostou a mão na dele sobre a mesa. Um toque rápido. Quase involuntário. Mas o suficiente. Rafael olhou para a mão dela. E não afastou. Pelo contrário. Virou levemente a mão, deixando o contato continuar. Os dedos se tocaram. Suavemente. Bianca percebeu. Mas também não afastou. O coração dela acelerou levemente. Mas, ao invés de recuar… ela ficou. --- A música continuava ao fundo. O vinho descia lentamente. E o ambiente… ficava cada vez mais íntimo. Rafael se inclinou um pouco na cadeira, observando-a. Ela desviou o olhar por um segundo, sorrindo sem graça. — O quê? — perguntou, baixinho. Ele demorou a responder. — Você é diferente… Bianca levantou o olhar. — Diferente como? Rafael não respondeu de imediato. Apenas a observou. Como se estivesse tentando entender algo. — Você não tem medo de mim — disse, finalmente. Bianca engoliu em seco. — Eu tenho… Ela hesitou. Mas continuou: — Só não do jeito que você acha. Silêncio. Intenso. Carregado. Rafael inclinou levemente o corpo para frente. — Então como é? Bianca respirou fundo. E, por um segundo… foi sincera demais. — Eu sinto… — disse, baixinho. — Mas não é só medo. O olhar dele escureceu. Mas não de forma negativa. De interesse. De intensidade. De algo que crescia ali. --- Sem perceber… os dois já estavam mais próximos. As mãos ainda se tocando. Os olhares mais longos. O silêncio mais cheio. Rafael deslizou levemente o polegar sobre a mão dela. Um gesto simples. Mas que fez o corpo de Bianca reagir imediatamente. Ela respirou fundo. E não afastou. --- Ali… sentados um diante do outro… eles estavam longe de tudo. Mas perigosamente perto de algo que não podiam controlar. E, naquele momento… não havia mais o Rafael líder. Nem a Bianca estudante. Só existiam os dois. E o que estava nascendo ali… era impossível ignorar. Porque já não era mais apenas um encontro. Era o começo de algo que… nenhum dos dois conseguia mais negar.
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