3- BELA

1516 Palavras
CAPÍTULO 3 ISABELA NARRANDO Assim que eu atravessei a porta, parecia que eu tinha entrado em outro mundo. O barulho lá fora ficou mais abafado, mas ainda dava pra ouvir o som alto e o movimento constante. O lugar por dentro era bem mais organizado do que eu imaginava. Tinha sofá, mesa, algumas armas espalhadas como se fosse a coisa mais normal do mundo, e um cheiro forte de maconha misturado com perfume masculino. Meu coração tava disparado. Um dos caras que tava ali dentro fez um sinal com a cabeça, indicando uma porta mais ao fundo. — É lá. Assenti, mesmo sem ter certeza se minhas pernas iam me obedecer. Caminhei devagar, sentindo cada passo pesado. Minha mão tava suando frio, o coração batendo tão forte que eu tinha certeza que dava pra ouvir. Parei em frente à porta, respirei fundo, uma vez. Duas e bati na porta. — Entra. A voz veio firme, grave, carregada de autoridade. Meu corpo arrepiou na hora. Abri a porta devagar e quando entrei, eu vi ele. Rubão. Ele tava sentado atrás de uma mesa, com o corpo levemente inclinado pra trás na cadeira, como se fosse o dono do mundo, e talvez fosse mesmo. Moreno, forte. O braço fechado de tatuagem, parte do peito também aparecendo por causa da camiseta regata. O olhar, pesado. Intenso. Daqueles que parecem atravessar a gente. Bonito, muito bonito. Mas com uma cara de m*l que dava até medo. Um perigo em forma de homem e ele me encarava dos pés à cabeça, sem pressa. Sem disfarçar. Meu corpo travou por um segundo, mas eu me obriguei a não abaixar o olhar. Eu não podia demonstrar fraqueza. Não ali. Não na frente dele. Engoli seco. — E aí… — ele falou, com a voz baixa, rouca — o que uma mina igual tu tá fazendo aqui? Meu coração deu um pulo. Eu respirei fundo, tentando manter a calma. — Oi… eu sou Isabela — falei, tentando sustentar o olhar dele, mesmo sentindo o peso daquele homem em cima de mim. Ele inclinou a cabeça de leve, como se estivesse analisando cada detalhe meu. — Eu sei quem tu não é — ele respondeu, seco — agora me diz o que tu quer. Direto. Sem paciência. Sem rodeio. Aquele tipo de homem que não perde tempo. Apertei a bolsa contra o corpo, sentindo minha coragem vacilar por um segundo. Mas lembrei da minha mãe, lá na cama, fraca. Dependendo de mim e aquilo foi o suficiente. — Eu… preciso da sua ajuda. Ele arqueou a sobrancelha, se recostando mais na cadeira. — Ajuda? O tom dele veio carregado de desconfiança, e um leve deboche. — É. O silêncio que veio depois foi pesado. Ele continuava me olhando, como se estivesse tentando entender o que eu tava fazendo ali, ou se eu valia o tempo dele. O silêncio começou a me sufocar. Ele não tirava os olhos de mim. Era como se estivesse me lendo, tentando entender cada detalhe, cada intenção. — Solta o papo logo — ele falou, a voz baixa, mas firme — me diz o que tu quer. O jeito que ele me encarava dava medo de verdade. Mas eu já tinha ido longe demais pra recuar agora. Respirei fundo, apertando a bolsa contra o corpo. — Minha mãe tá doente… — comecei, sentindo minha voz falhar por um segundo. Engoli seco e continuei. — Faz um tempo já. Começou com cansaço, dor, depois veio desmaio, hospital, exame atrás de exame. Ele não disse nada, só ficou me olhando sério. Imóvel. — Os médicos falaram que é grave — continuei, sentindo o nó na garganta crescer — e que precisa de tratamento… só que é caro. Muito caro. Minhas mãos começaram a suar. — Eu trabalho… faço faxina, o que aparecer. Nunca parei. Mas não tá dando, não chega nem perto do que precisa. Minha voz saiu mais baixa no final. Mais fraca. Mas eu não parei. — A gente já vendeu tudo que tinha. Casa, móveis, tudo. Não sobrou nada. O silêncio pesou de novo. Mas dessa vez, eu senti vergonha. Vergonha de estar ali, pedindo, dependendo dele. Levantei o olhar, encarando ele de novo. — Eu não quero nada de graça — falei, mais firme — eu só preciso de um empréstimo. Ele não reagiu na hora, nem um pouco. Só inclinou a cabeça de leve, ainda me analisando. — Empréstimo? — ele repetiu, com aquele tom que não dava pra saber se era ironia ou interesse. — É — respondi, tentando não deixar o nervosismo aparecer — eu pago. Nem que eu tenha que trabalhar dia e noite, eu pago. Meu coração tava acelerado. — Eu só preciso de uma chance, por ela. Ele inclinou a cabeça de leve, como se estivesse avaliando cada palavra que eu tinha dito. — E qual a garantia que tu vai me pagar? — ele perguntou, com a voz calma, mas pesada. Aquilo me travou por um segundo, porque eu sabia a resposta. Eu não tinha garantia nenhuma. Só desespero. Engoli seco, sentindo os olhos arderem. — Eu faço o que você quiser… — falei, a voz falhando mesmo tentando segurar — posso trabalhar aqui, posso fazer o que precisar. Respirei fundo, sentindo o peito apertar. — Posso até vender droga, não me importo. Minha voz saiu mais baixa no final. Mais quebrada. — Eu só preciso ajudar minha mãe… Segurei o choro com tudo que eu tinha. Mas era difícil, muito difícil. Ele não falou nada, só me olhou, inteira e devagar. Como se estivesse me analisando de verdade agora, não só por fora, mas por dentro também. Aquilo me deixou ainda mais nervosa. Parecia que ele tava tentando decidir alguma coisa ali, naquele momento. O silêncio se estendeu, pesado. Até que ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. — Eu vou pensar no seu caso… — ele falou, finalmente. Meu coração disparou. — E até amanhã eu te dou uma resposta. Fiquei parada, sem saber o que dizer por um segundo. — Tá… Foi a única coisa que saiu. Assenti com a cabeça, ainda meio perdida. Sem saber se aquilo era bom, ou r**m. Mas era alguma coisa e agora era tudo que eu tinha. Dei um passo pra trás, me preparando pra sair. Mas antes de virar, senti o olhar dele ainda em mim. Pesado e intenso. Virei as costas antes que minhas pernas resolvessem travar de vez. Senti o olhar dele grudado em mim até o último segundo. Saí da sala tentando manter a postura, mas por dentro eu tava um caos. Meu coração ainda batia acelerado, minhas mãos geladas, e minha cabeça girando com tudo que tinha acabado de acontecer. Assim que atravessei a porta principal, o barulho voltou com tudo. O som alto, as vozes. O movimento e os olhares, sempre os olhares. Os vapores que estavam ali fora não perderam tempo. — Ih, a princesinha voltou… — um falou, rindo. — E aí? O chefe gostou de tu? — outro completou, com aquele tom cheio de malícia. Ignorei. Fingi que nem era comigo. Mas eles continuaram. — Se não quiser ele, eu quero, hein… — um deles soltou, arrancando risada dos outros. Meu passo apertou na hora. Meu corpo inteiro ficou tenso, mas eu não olhei pra trás. Não dei moral. Porque eu sabia, aqui, qualquer reação errada vira motivo e eu não podia me dar esse luxo. Desci a viela rápido, sentindo o coração ainda acelerado. Só quando me afastei de verdade é que consegui soltar o ar que eu nem sabia que tava prendendo. Passei a mão no rosto, tentando me acalmar. — Meu Deus… Sussurrei baixo. Eu tinha feito isso, eu tinha entrado lá. Tinha falado com ele, e agora era esperar. Mas esperar não pagava conta. Não salvava minha mãe. Olhei pro relógio simples no pulso e fechei os olhos por um segundo. Eu ainda tinha que trabalhar, tinha uma faxina marcada..Respirei fundo, tentando voltar pra realidade. Porque a vida não para. Nem quando tudo dentro da gente tá desmoronando..A casa ficava umas ruas depois, já mais afastada da parte mais pesada do morro. Uma casa simples, mas bem cuidada. Era de uma mulher que sempre me chamava quando precisava e eu precisava daquele dinheiro. Mais do que nunca. Assim que cheguei, ajeitei a blusa, prendi o cabelo e bati na porta. — Oi, dona Marta — falei, forçando um sorriso quando ela abriu. — Oi, Bela — ela respondeu — ainda bem que tu veio, tô precisando de uma ajuda boa hoje. — Pode deixar… Entrei direto, já arregaçando as mangas. Porque ali, eu não podia pensar, não podia lembrar, não podia sentir. Só trabalhar. Esfreguei chão, lavei banheiro, arrumei tudo que tinha pra arrumar. Meu corpo fazia automático, mas minha cabeça. Minha cabeça tava longe. Voltando praquele olhar, pra aquela voz, pra aquele homem. Rubão. Soltei um suspiro, apoiando as mãos na pia por um segundo. — No que tu foi se meter, Bela… Murmurei pra mim mesma, mas no fundo eu sabia que eu não tinha escolha. Continua....
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