O cheiro de bolo de fubá invadia a pequena cozinha, misturando-se ao som da chaleira apitando. Eliane, de avental florido e pés descalços, cantarolava uma música antiga enquanto mexia o café.
— Mãe, posso ir brincar com a Júlia na calçada? — Perguntou Melissa, com os cabelos presos em duas tranças tortas e os joelhos já sujos de terra.
— Pode, sim, minha flor. Mas volta antes do sol se esconder, tá? — Respondeu Eliane, sorrindo com os olhos. — E leva um pedaço de bolo pra ela. Tá quentinho.
Melissa saiu correndo, o prato de plástico balançando na mão, o riso leve como o vento de fim de tarde. Naquele bairro tranquilo de Curitiba, a infância tinha gosto de liberdade.
Mas nem sempre foi assim.
Antes do divórcio, Melissa vivia em silêncio. A casa grande no bairro nobre de Curitiba era fria, cheia de regras e olhares duros. Vitor Sampaio, seu pai, não falava discursava. Cada frase era medida, cada gesto, ensaiado. Até os abraços pareciam protocolados.
— Melissa, sente-se direito. — Dizia ele, sem desviar os olhos do jornal. — Uma Sampaio não se curva nunca.
Eliane era uma mulher simples de família humilde e tentava se adaptar a vida do marido com todas as suas forças. Usava roupas discretas, sorria nos eventos, jamais dava a sua opinião sobre qualquer assunto se quer. Mas a alma dela era feita de vento e cor, ela era um espírito livre. E Vitor queria moldá-la em forma de uma estátua de pedra.
— Eu não consigo mais, Vitor. — Disse ela, numa noite em que o silêncio pesava mais que as palavras. — Eu amo você com todo o meu coração, mas eu preciso respirar, e você não é feliz comigo e eu não sou feliz aqui vivendo com tantas regras e normas.
— Respire dentro das regras. — Ele respondeu, sem levantar a voz, na frieza de sempre.
O divórcio veio quando Melissa tinha sete anos. Naquela época ela não entendeu de imediato, mas sentiu o alívio nos abraços da mãe. Sentiu o mundo se abrir quando trocou os tapetes persas da casa do pai, pelo chão de cimento da nova casa no bairro simples, os jantares formais cheios de etiquetas, por pão com manteiga e leite morno e pizza no sofa.
— Aqui você pode ser quem quiser, Mel. — Dizia a mãe, enquanto penteava seus cabelos com carinho, sem precisar fazer os penteados determinados pelo pai. — Filha aqui em casa, não precisamos agradar mais ninguém. Só ser feliz.
E assim foi por um tempo, onde a felicidade de mãe e filha reinava naquele lar cheio de amor. Mas a sombra de Vitor o “senador” nunca desapareceu por completo.
Ele mandava presentes caros, ligava em datas importantes, aparecia em eventos escolares com uma equipe de fotógrafos e assessores. Observava de longe, como quem espera o momento certo para puxar as rédeas.
— Ela precisa de estrutura, Eliane. — Disse ele certa vez, num telefonema seco. — Está crescendo sem disciplina, onde já se viu correr descalço pela rua, ela é um Sampaio.
— Está crescendo com amor. — Respondeu Eliane, firme. — E isso é mais importante para uma criança, Vitor. Você jamais ofereceu amor a ela.
Melissa ouvia, escondida atrás da porta a conversa da mãe ao telefone com o pai. Não entendia tudo, mas sentia que algo em breve mudaria em sua vida. Sentia que um dia aquele mundo rígido voltaria a chamá-la. E ela teria que escolher entre o afeto que a formou e a imagem da filha perfeita do Senador Sampaio que a perseguia.
Naquela tarde depois de ouvir a conversa dos pais, enquanto brincava com Júlia na calçada, Melissa olhou para o céu e fez uma pergunta silenciosa:
"Será que um dia o papai vai me deixar ser só Melissa?"